O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi processado nesta quarta-feira (12) por vender acesso antecipado às suas publicações na rede social Truth Social. A ação, movida pelo The Intercept e pela Freedom of the Press Foundation (FPF) em tribunal federal de Manhattan, classifica o esquema como “extraordinário, corrupto e inconstitucional”. A Trump Media & Technology Group (TMTG), empresa controladora da plataforma e da qual Trump é o maior acionista, com participação avaliada em cerca de US$ 1 bilhão (R$ 5,18 bilhões), lançou o Truth API, serviço que cobra entre US$ 60 mil (R$ 310,8 mil) e US$ 100 mil (R$ 518 mil) por mês de instituições financeiras interessadas em receber os posts presidenciais “milissegundos” antes do restante do mercado.
Kevin McGurn, diretor-presidente interino da TMTG, afirmou que cerca de dez grupos já haviam contratado o serviço. A empresa prepara ainda uma versão para investidores de varejo.
O esquema é simples: Trump anuncia tarifas, decisões sobre a guerra no Irã e medidas econômicas primeiro no Truth Social. Esses posts provocam oscilações imediatas em commodities, Bolsas e ações. Quem paga recebe a informação antes. Quem não paga, recebe depois. O presidente dos Estados Unidos está vendendo informação privilegiada de sua própria boca. Isso é crime.
O padrão suspeito
Não é a primeira vez que o nome de Trump aparece associado a movimentações suspeitas nos mercados. A Deutsche Welle documentou pelo menos seis episódios em que investidores se anteciparam a anúncios presidenciais e lucraram bilhões com transações de petróleo, ações e criptomoedas. Um exemplo do potencial financeiro: uma variação de 0,5% em um ativo pode representar ganho bruto de US$ 250 mil em uma operação de US$ 50 milhões. O padrão se repete desde o início do mandato. Minutos antes de grandes decisões, alguém já sabe. E lucra.
A resistência civilizada
O processo do The Intercept e da FPF é o que resta de civilidade nos Estados Unidos tentando resistir à selvageria de Donald Trump. As entidades argumentam que o presidente “tem a possibilidade de obter ganhos financeiros ao fornecer informações governamentais capazes de movimentar os mercados àqueles que estejam dispostos e tenham condições de pagar à sua empresa pessoal”.
A ação pede que Trump não publique informações governamentais exclusivamente na rede social que ele controla. A TMTG, em resposta, acusou “ativistas de esquerda” de usar os tribunais para censurar o presidente. As ações da empresa caíram mais de 6% no mesmo dia. A TMTG registrou prejuízo de US$ 238 milhões no segundo trimestre.
A engrenagem é clara. Trump governa para o próprio bolso. Transformou a presidência em produto. Vende milissegundos de vantagem a quem pode pagar. Acusa de censura quem denuncia. E chama de “ativistas de esquerda” quem defende que informação pública não pode ser mercadoria. O que resta de civilidade nos EUA tenta frear a selvageria. Mas a selvageria tem o poder presidencial, a rede social e o mercado do seu lado.
👀 Veja os vídeos e entenda
View this post on Instagram
View this post on Instagram
