Dólar
R$ 5.12 Subiu
Euro
5.910 Subiu
Brasília
23°C 30°C 18°C

Explore Mais

Colunas exclusivas e conteúdos especiais

GEOPOLÍTICA

Netanyahu usa marroquinos como arma contra Espanha

País reconheceu Palestina e por isso é atacado por Israel

Em menos de 24 horas, cerca de 49 mil migrantes, em sua maioria jovens marroquinos, cruzaram a fronteira entre Marrocos e Ceuta, enclave espanhol no norte da África. Pelo menos 57 morreram na travessia a nado. O governo espanhol destacou o Exército. A União Europeia debate segurança de fronteiras. A imprensa brasileira reportou como “crise migratória” e “falha da humanidade”. Ninguém conectou os pontos.

Os pontos são estes. O historiador espanhol Isaac Giribet, diplomado em Estudos Avançados e Doutorado Internacional em História pela Universitat de Lleida e professor da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), não tem dúvidas: “Não tenho nenhuma dúvida de que Netanyahu é o articulador da invasão”. Giribet sustenta que o rei Mohammed VI está prestando lealdade a Israel e pagando as contas da aliança política e dependência militar entre os dois países, num momento em que a Espanha é incômoda para Israel.

A arma migratória

O Marrocos já usou migrantes como instrumento de retaliação política antes. Em abril de 2021, o governo do primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez facilitou o tratamento médico de Brahim Ghali, secretário-geral da Frente Polisário e presidente da República Árabe Saaraui Democrática. O Marrocos retaliou: na noite de 16 de maio de 2021, afrouxou deliberadamente o controle da fronteira, e cerca de 8 mil pessoas entraram em Ceuta em dois dias.

A diferença agora é a escala. E o contexto. Desde outubro de 2023, Sánchez é o único chefe de governo europeu a se opor frontalmente à campanha militar israelense em Gaza. Reconheceu o Estado da Palestina, defendeu a revisão do acordo de associação entre União Europeia e Israel, pediu o cumprimento das decisões da Corte Internacional de Justiça e barrou ajuda militar contra Gaza. Sánchez sofre campanha de lawfare, com a investigação contra sua esposa Begoña Gómez, aberta a partir de denúncia do pseudossindicato Manos Limpias, que admitiu ter se baseado em recortes de imprensa “que podiam ser falsos”.

A aliança Israel-Marrocos

Em dezembro de 2020, o Marrocos restabeleceu relações diplomáticas com Israel no âmbito dos Acordos de Abraão. Foi o grande impulsionador, no mundo árabe, dos acordos que normalizariam a colonização da Palestina. Em contrapartida, os Estados Unidos reconheceram a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental, reivindicação rejeitada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pela Frente Polisário.

Israel forneceu ao reino de Mohammed VI tecnologia e equipamentos militares em larga escala: drones de reconhecimento e ataque, sistemas de defesa aérea, equipamentos de guerra eletrônica, sistemas de inteligência e vigilância. O Marrocos usa essa tecnologia israelense contra os saarauis. Em 7 de junho de 2026, um ataque de drone marroquino matou Lahbib Mohamed Abdelaziz, comandante da Polisário e filho do falecido líder Mohamed Abdelaziz.

“A crise cria os migrantes”

Luis Felipe Magalhães, coordenador-adjunto do Observatório das Migrações em São Paulo, descreve o que se observa como “consequência de um modelo imperialista de controle e produção de fronteiras externas”, no qual os migrantes são usados como “moeda de troca para obter mais recursos” em meio a disputas diplomáticas e ideológicas entre nações. “Não é a migração que cria a crise, é a crise que cria os migrantes”, resume.

Paulo Illes, diretor executivo do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante, avalia que existe em curso uma crise humanitária com “extrema violação de direitos”. “Esses imigrantes estão numa situação de extrema violação de direitos. A maioria são marroquinos. Mas não apenas. São muitas pessoas que atravessam o deserto do Saara, pessoas que vêm da África Ocidental, e mesmo também ali pela costa do Mar Senegal, até chegar ao Marrocos e esperar uma oportunidade para poder entrar na Espanha”, explica.

Illes compara com a chegada de migrantes a São Paulo: “Chegou um certo momento em que uma cidade de pouco mais de 5 mil habitantes tinha lá mais de 20 mil imigrantes. O que aconteceu é que, de um dia para o outro, chegaram mais de 3,7 mil imigrantes aqui na cidade de São Paulo e causaram todo um caos. Transportando essa realidade para Ceuta, que é um povoado que creio não ter mais de 15 mil pessoas, as pessoas estarem fazendo essa caminhada indica que não são pessoas necessariamente que saíram da fronteira e cruzaram de um dia para o outro. Muitas fizeram uma grande caminhada de um ano, dois anos, à espera ali de uma oportunidade para entrar no território europeu”.

Trump aproveita

Do outro lado do Atlântico, Donald Trump livra o Marrocos de responsabilidade, atribui a crise a “políticas globalistas de extrema esquerda” e aproveita para advertir que os Estados Unidos “estarão como Ceuta em três anos” caso os democratas voltem ao poder. A extrema direita americana e europeia usa as imagens de migrantes nadando para alimentar o discurso xenófobo. A mesma extrema direita que apoia Israel, que arma Marrocos, que fabrica a crise.

A engrenagem é clara. Israel arma Marrocos para colonizar o Saara Ocidental. Marrocos usa migrantes como arma para pressionar a Espanha. A Espanha é punida por reconhecer a Palestina. A extrema direita capitaliza o caos. Os migrantes morrem. E a imprensa chama isso de “crise migratória”. Não é crise migratória. É guerra híbrida com corpos de trabalhadores como munição.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Final da página
WhatsApp

Frente LIVRE

Normalmente responde dentro de uma hora
Frente LIVRE

Olá 👋

Fale com o ciberporto da esquerda popular ✊💡

20:57