O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirou o sigilo do relatório da Polícia Federal (PF) sobre a relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes. Disse ser “inevitável” levar o caso ao plenário, “independentemente” da posição da Procuradoria-Geral da República (PGR). O material é devastador: contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro; versão final do documento editada pelo próprio Moraes; a cobrança de Fábio Faria — “o careca não pode atrasar” —; cartões de crédito liberados para os filhos do casal; e mensagens em que Vorcaro pergunta se deve fugir dois dias antes de ser preso.
Tudo isso é escândalo. É absurdo. É comprometedor. E é verdade. Mas a pergunta que a imprensa não faz é a única que importa: por que isso vazou agora?
A gaveta que abre e a gaveta que tranca
Mendonça abriu a gaveta de Moraes. A mesma mesa, a mesma gaveta, guarda a sete chaves o inquérito Dark Horse, que investiga os repasses de Vorcaro a Flávio Bolsonaro. O relator que acelerou três inquéritos contra Lulinha em uma semana — com provas que a própria PGR diz que não existem — dorme sobre o caso do candidato do PL. Nenhuma busca e apreensão. Nenhuma quebra de sigilo. Nenhum vazamento. Nada.
A coincidência é cirúrgica. No exato momento em que a revista piauí revelou, com base em relatório inédito do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que Vorcaro pagou a Flávio mais do que ele admitiu — US$ 1,66 milhão em setembro de 2025, elevando o total para mais de US$ 12,3 milhões —, Mendonça resolveu liberar o material contra Moraes. Não foi o inquérito da PF que expôs o dinheiro dos Bolsonaros. Foi o Coaf. E foi a piauí. O inquérito continua trancado. A gaveta de Moraes, aberta.
O inimigo de sempre
Moraes é o velho inimigo do bolsonarismo. Foi a ele que Jair Bolsonaro gritou “Deixe de ser canalha!”, de cima de um trio elétrico, em 2021. É o símbolo do combate ao golpe, o alvo preferido da extrema direita, o nome que a militância bolsonarista quer ver fora do STF. Vazar contra ele é sempre conveniente. Vazar contra ele no dia em que o Coaf expõe o filho do chefe é mais que conveniente. É estratégia.
Não se trata de defender Moraes. O material vazado é grave e precisa ser investigado com o mesmo rigor que se exige de qualquer outro caso. A questão é a seletividade. A questão é o timing. A questão é que o mesmo ministro que abre a gaveta de Moraes tranca a de Flávio. A questão é que a cortina de fumaça funciona: enquanto o país discute o que Moraes fez com o banqueiro, ninguém pergunta onde estão os US$ 12,3 milhões que o banqueiro deu ao candidato.
O escândalo dentro do escândalo
O escândalo de Moraes é real. Mas o escândalo maior é a justiça que escolhe o que vaza e o que esconde. É o relator que acelera contra o filho de Lula e congela contra o filho de Bolsonaro. É o ministro que libera tudo contra o inimigo do bolsonarismo no dia em que o Coaf expõe o candidato do bolsonarismo. É a cortina de fumaça montada com material verdadeiro para proteger quem tem o inquérito trancado na gaveta.
Mendonça não é imparcial. É o ministro nomeado por Bolsonaro, com a missão explícita de ocupar a vaga com um perfil “evangélico e conservador”. E está cumprindo a missão. Abre a gaveta de Moraes. Tranca a de Flávio. E o país assiste, distraído, ao escândalo de um lado enquanto o outro escorre pela gaveta fechada. Cadê o dinheiro, Flávio? A pergunta segue sem resposta. E a gaveta segue trancada.
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