O maior corrupto do Brasil não comprava só deputados, fundos de pensão e jantares com ministros. Comprava a notícia. Mensagens extraídas pela Polícia Federal (PF) do celular do banqueiro falido Daniel Vorcaro, o condenado dono do Banco Master, revelam que ele mantinha uma linha direta com duas das personalidades mais poderosas do jornalismo brasileiro: Frederic Kachar, diretor-geral de Mídia Impressa e Rádio do Grupo Globo, demitido nesta quinta-feira (15), e Lilian Tahan, diretora de redação do portal Metrópoles, que submetia reportagens ao banqueiro antes de publicá-las. Vorcaro pagava por isso — com dinheiro, muito dinheiro, e com o seu balcão de mulheres, as mesmas “escravas” da “creche” que ele oferecia a figurões do poder.
55 segundos para 29 anos de casa
O Jornal Nacional levou o escândalo à própria bancada na quinta-feira (15). Em uma sequência de aproximadamente 55 segundos, Cesar Tralli anunciou a demissão de Kachar por uma “relação inadequada” com o banqueiro. Tralli informou que a Globo tomou conhecimento na quarta-feira (14) das conversas privadas mantidas entre outubro de 2023 e julho de 2025. “As mensagens revelaram uma relação inadequada do então executivo do grupo com um anunciante”, afirmou o apresentador.
Cinquenta e cinco segundos para encerrar uma trajetória de 29 anos. A nota institucional lida por Renata Vasconcellos reafirma o compromisso da Editora Globo com a ética, a transparência e a “absoluta independência editorial”, e afirma que a cobertura “crítica, isenta e independente” do caso Master seria a “demonstração concreta” do compromisso dos veículos com os princípios editoriais do grupo. Uma balela desmoralizante.
A bancada preferiu fingir que as mensagens trocadas entre o diretor da Globo e o banqueiro são desimportantes ao ponto de ignorá-las. E é nelas que mora a verdade.
“Quer que peça pra corrigir?”
O que as mensagens mostram não é amizade, é submissão editorial à venda. Um ano antes de se tornar “radioativo”, numa tarde de abril de 2024, Vorcaro recebeu de Kachar, então CEO da Editora Globo e do Sistema Globo de Rádio, uma oferta editorial: “Quer que a gente o entreviste no Valor?” — o presente era para Alexandre Afrange, CEO da Veste, empresa controlada pelo banqueiro.
O fluxo era permanente. Vorcaro pediu, em 12 de outubro de 2024, a capa da Vogue Brasil “de presente” para a namorada, Martha Graeff. Kachar alegou inviabilidade — e cinco dias depois as versões online de Vogue Brasil, Marie Claire e Ela destacavam Graeff, com os links enviados pelo próprio diretor: “Depois me diz se faltou algo”. O banqueiro reclamou: “só a Marie Claire deu uma batidinha no final rsrs esses repórteres são uma bênção”. Kachar prometeu o próximo degrau: “o próximo passo é capa na Ela ou Marie Claire, só precisamos de um fato novo”.
Quando a reportagem do G1 noticiou a suposta entrada do Master no ramo de supermercados, Kachar se apressou a servir o prato no talo: “Entrou em supermercados também? Estás incontrolável rs!”. A resposta do banqueiro veio em um minuto: “Info totalmente errada”. Vinte e três minutos depois, o G1 atualizou a reportagem, retirando a afirmação. “Agora ficou certo”, assentiu o cliente.
Diante da análise crítica do Valor sobre a compra do Master pelo BRB, Vorcaro explodiu: “Matéria maldosa, malfeita. Isso é porque seu grupo deu o furo da operação. Parceria, como sempre, de uma via apenas”. E encaminhou uma lista de 63 publicações das quais apenas o Valor teria sido “negativo”. A resposta de Kachar não foi defender os jornalistas da própria casa — foi se oferecer para calar: “Meu amigo, claro que não é pra ficar como está”.
Quando Vorcaro reclamava da colunista Malu Gaspar, Kachar classificava as publicações como cansativas e desnecessárias e prometia: “Vou falar com ela”. A jornalista que incomodava o anunciante tinha o próprio patrão como intermediário da pressão.
O banqueiro redator-chefe do Metrópoles
Do outro lado do exército de jabá, o Metrópoles. A linha direta entre Vorcaro e Lilian Tahan foi estabelecida em 2024 — o ano em que o Master fechou um contrato de publicidade de R$ 20 milhões com o portal, quitado em parcelas de R$ 5 milhões. Nos meses seguintes, o banqueiro passou a ler e editar matérias sobre o Master antes de irem ao ar.
Os números do levantamento publicado pelo UOL são uma sentença: pelo menos 14 textos do site foram enviados previamente a Vorcaro, 11 foram alterados após pedidos do banqueiro e duas reportagens foram publicadas a pedido dele.
A frase de Tahan ao enviar um perfil de Vorcaro, em abril de 2025, deveria estar emoldurada em qualquer curso de jornalismo — como exemplo do que nunca fazer: “Se tiver alguma incorreção, me avise!! Não publicarei sem nos falarmos”. A não ser que se trate de publicidade, claro. Jamais jornalismo.
Quando Vorcaro reclamou de uma informação sobre uma suposta oferta de compra de ativos do Master por R$ 1, a resposta da diretora de redação foi imediata: “Tiramos”. Em agosto de 2025, Tahan enviou uma entrevista do ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e aceitou a direção de redação do banqueiro: “Acho que o texto tá ótimo. Mas eu não falaria tanto do Renato, concentraria essa matéria no Roberto. Senão perdemos o suspense da batida dele!”.
Esse trecho é mais grave do que parece. A “batida dele” era um perfil que seria publicado dali a alguns dias, do diretor de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central, Renato Dias Gomes. Ele vinha se opondo à operação de compra do Master pelo BRB, o banco público pertencente ao Governo do Distrito Federal. Defendia a liquidação do Master. Vorcaro encomendou a Lilian Tahan um petardo desmoralizante para enfraquecê-lo.
O pedido foi entregue. Não sem antes passar pelo crivo do “cliente”: “Eu retiraria a parte de falência do banco”, escreveu Daniel Vorcaro a Lilian Tahan, antes de o texto ser publicado. Claro, o cliente manda. Ele foi atendido de novo. Queriam desmoralizar o diretor que tentava barrar a absurda venda do Master ao BRB — nesta operação, o banco público injetou pelo menos R$ 17 bilhões no outro. Não só quebrou, como levou consigo o próprio sócio controlador, o GDF, que, sem dinheiro, vê a saúde pública derreter a olhos vistos. Tudo com a mãozinha do Metrópoles.
Em 17 de novembro de 2025, no dia em que Vorcaro foi preso, Tahan mandou os textos sobre a venda do Master à Fictor antes de irem ao ar — e celebrou os cortes: “Publicada hahahaha”.
Questionada pela reportagem do UOL, Lilian Tahan disse que “checar com a fonte se a matéria reflete o contexto passado para o veículo é uma prática que adoto com personalidades empresárias, da política e do Judiciário”. Não se engane pela parolagem. A prática tem nome no dicionário do jornalismo: não é checagem, é venda de matéria. Simples assim.
Os patrões não são espectadores
A demissão de Kachar e o silêncio de Tahan não podem ser lidos como episódios de dois Executivos perdidos. Kiko Nogueira, diretor do DCM, desmonta a farsa:
A demissão de Frederic Kachar pelo Grupo Globo tenta resolver um problema imediato de imagem para a empresa, mas é contenção de danos e desespero. Fred estava há 29 anos na casa. Não é o único e não será o último a vender jornalismo. Seus chefes, os acionistas, sempre souberam como ele operava”.
O elo não era solto. Nas mensagens, Kachar se oferece para arrumar contato com “Robertinho” — Roberto Marinho Neto, CEO da Globo Ventures, da família controladora do grupo. Em março de 2024, o banqueiro visitou a sede da Globo, no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, acompanhado de Kachar e de Roberto Marinho Neto. O dono do Master não invadia a maior casa de TV do país escoltado pela direção sem que a direção quisesse.
No Metrópoles, o patrão-mor é Luiz Estevão, ex-senador cassado — a mesma biografia que fundou o portal como projeto de poder após a cassação. Um site nascido da vaidade de um cassado não entrega independência por acaso; entrega o que o cliente paga. E o cliente pagava R$ 20 milhões, com direito a veto de texto, remoção de informação e encomenda de pauta diretamente com a direção de jornalismo.
E há a moeda que não entra no contracheque: as festas “sem celular” e “sem risco” descritas por Vorcaro, as prostitutas russas e ucranianas da rede que a PF investiga como tráfico internacional, o mesmo cardápio oferecido ao “Kassio” do Pix de R$ 10 mil. Kachar trocava mensagens sobre mulheres com o banqueiro e frequentava seus eventos. O programa de diversões do Master não poupava ninguém — e agora a sociedade precisa perguntar quem mais provou do bufê.
O modelo que Kachar expôs
A tese que incomoda a Globo não é a de que Kachar vendeu o jornalismo. É a de que ele operava exatamente dentro do modelo da casa — e foi exposto. O jabá é estrutura, não desvio. Moisés Mendes, que passou pela Editora Globo, registrou: “Quando fui para a Editora Globo, em 2006, não havia código de ética lá. Tentei montar um, mas não tive nem apoio e nem tempo”. E relatou o caso de um editor que voltou de uma boca-livre “repleto de brindes caros”.
Kachar, aliás, criticava até a revista piauí — “virou denuncista” — e dizia conhecer “os mecenas” de outros veículos. O cadelão do patrão desprezava o jornalismo que não se vende.
A Globo demitiu o funcionário e manteve o modelo. O Metrópoles nem isso: Tahan segue no cargo. A pergunta que a sociedade deve fazer não é quem caiu — é quantas matérias que o leitor consumiu como notícia foram, na verdade, o rascunho corrigido pelo dedo de um banqueiro fraudador preso na Papudinha. A “independência editorial” que a bancada do JN declara em 55 segundos precisa ser provada em 21 meses de mensagens. E as mensagens dizem o contrário.

