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Por que militares entram na política no Brasil?
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Por que militares entram na política no Brasil?

Quando generais passam a dar recados por redes sociais, comandantes são tratados como árbitros de crise e quartéis viram fonte de palpite sobre eleição, algo saiu do trilho. Perguntar por que militares entram na política não é uma curiosidade acadêmica: é discutir quem manda em uma democracia e até onde vai o poder de quem carrega armas em nome do Estado.

No Brasil, essa presença não surgiu do nada com Jair Bolsonaro, embora o bolsonarismo tenha dado a ela uma vitrine escancarada. Ela vem de uma história de tutela, golpes, privilégios corporativos e de uma falsa ideia de que farda produz superioridade moral. Não produz. Militar é servidor público, submetido à Constituição e ao poder civil. Quando essa regra é esquecida, o resultado costuma ser ruim para a democracia e ótimo para aventureiros autoritários.

Por que militares entram na política?

A resposta curta é que os motivos variam, mas quase nunca são apenas individuais. Há militares que se candidatam depois de ir para a reserva, como qualquer cidadão tem direito de fazer. O problema começa quando setores da corporação passam a se enxergar como um poder moderador informal, com missão de corrigir governos eleitos, pressionar tribunais ou arbitrar conflitos que pertencem à sociedade civil.

Uma primeira razão é a tradição histórica. As Forças Armadas brasileiras foram formadas em um país marcado por escravidão, concentração de renda e instituições frágeis. Em vez de uma cultura firme de subordinação ao poder civil, ganhou força ao longo do tempo a noção de que os quartéis teriam uma espécie de missão salvadora. Essa fantasia serviu de justificativa para intervenções e culminou no golpe de 1964, que abriu uma ditadura de 21 anos, com censura, tortura, cassações e mortes.

A segunda razão é corporativa. Como qualquer instituição, as Forças Armadas possuem interesses materiais, orçamento, carreira, prestígio e influência a proteger. A ocupação de cargos no governo amplia acesso a decisões, verbas e redes de poder. Isso não significa que todo militar que assuma uma função pública esteja conspirando contra a democracia. Significa, porém, que a presença maciça de fardados em áreas civis exige vigilância. Defesa nacional é uma coisa; administrar saúde, educação, meio ambiente ou empresas estatais como se gabinete fosse extensão de quartel é outra bem diferente.

Há também o cálculo eleitoral. A direita aprendeu a explorar a imagem de disciplina, ordem e combate ao crime para transformar patente em selo automático de honestidade. É uma propaganda eficiente em tempos de medo social, insegurança e descrédito na política. Mas disciplina interna não é credencial para governar uma sociedade plural. Política democrática envolve negociação, transparência, conflito de interesses, controle popular e proteção de minorias. Não é ordem unida.

O bolsonarismo abriu a porteira

Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exército, construiu sua carreira política misturando nostalgia da ditadura, ataques às instituições e culto à farda. Ao chegar ao Planalto, levou milhares de militares, ativos e da reserva, para cargos civis. A promessa era de eficiência, como se hierarquia resolvesse por mágica problemas públicos complexos. A realidade entregou uma gestão marcada por aparelhamento, obscurantismo e, na pandemia, tragédias que não podem ser varridas para baixo do tapete.

O caso mais simbólico foi o Ministério da Saúde. Em meio à maior emergência sanitária em um século, a pasta teve um general sem experiência na área como ministro interino e, depois, efetivado. O resultado foi uma administração que ajudou a normalizar a demora, a descoordenação e o negacionismo enquanto famílias enterravam seus mortos. Farda não substitui conhecimento técnico, nem responsabilidade pública.

A aventura bolsonarista fez outro estrago: colou a imagem das Forças Armadas a um projeto de extrema direita. Oficiais que alimentaram suspeitas sem prova sobre urnas eletrônicas, toleraram acampamentos golpistas ou flertaram com a retórica de ruptura ajudaram a corroer a confiança institucional. O ataque de 8 de janeiro de 2023 não caiu do céu. Foi o ponto de explosão de uma campanha prolongada contra o resultado eleitoral e contra a ideia elementar de alternância de poder.

É preciso fazer uma distinção honesta. Não se pode atribuir a cada praça, sargento ou oficial a responsabilidade pelos atos de chefes políticos e militares. Mas tampouco cabe tratar a instituição como vítima abstrata sempre que seus membros de alta patente se envolvem em ataques à democracia. Responsabilidade individual importa, e responsabilidade de comando também.

A Constituição não autoriza tutela militar

Parte da confusão foi fabricada por uma leitura maliciosa do artigo 142 da Constituição. Durante os anos Bolsonaro, grupos golpistas espalharam a mentira de que o dispositivo permitiria uma intervenção militar para fechar instituições ou anular eleições. Não permite. As Forças Armadas existem para a defesa da Pátria e para a garantia dos poderes constitucionais, sob autoridade do presidente da República, dentro das regras constitucionais. Não são um quarto poder, muito menos uma ferramenta para derrotados virarem vencedores na marra.

A própria legislação estabelece limites relevantes. Militares da ativa não podem exercer atividade político-partidária. Para disputar eleição, há regras de afastamento e transferência para a inatividade, a depender do tempo de serviço. Essas barreiras existem porque armas, disciplina hierárquica e campanha eleitoral formam uma mistura perigosa. Um subordinado não deve se sentir coagido a seguir a escolha política de seu superior, e a sociedade não pode ser pressionada por uma instituição treinada para o uso legítimo da força.

O ponto central é simples: militares têm direitos políticos como cidadãos, mas não têm licença para politizar a cadeia de comando. Quanto maior a patente e o acesso a recursos estatais, maior deve ser o escrutínio. Democracia não pede que soldados deixem de ter opinião. Pede que a instituição armada não transforme opinião em poder de veto.

Nem toda presença é igual, mas o risco é real

Seria fácil cair em uma caricatura e dizer que toda participação de militar na vida pública é idêntica. Não é. Um ex-militar eleito por voto popular, submetido à imprensa, ao Congresso, à Justiça e à fiscalização social, ocupa uma posição distinta de um comandante ativo fazendo pressão velada sobre autoridades. Também é diferente ter especialistas militares em assuntos de defesa e entregar a eles, por hábito ou conveniência, setores inteiros do Estado civil.

O critério democrático não é a patente em si. É a subordinação efetiva ao poder civil, a transparência dos atos, a responsabilização por crimes e a inexistência de privilégios políticos. Em países com instituições maduras, as Forças Armadas são profissionais justamente porque permanecem fora da disputa partidária. Sua função é defender o país, não escolher qual projeto de país merece governar.

No Brasil, o custo da militarização da política aparece também no debate público. A farda vira atalho retórico para escapar de perguntas incômodas. Questiona-se um general e alguém grita que se está atacando a instituição. Critica-se uma política de governo e surge a acusação de desrespeito à tropa. É um truque velho: usar o prestígio de muitos para blindar os erros de poucos poderosos.

Como impedir que o quartel vire palanque

O antídoto não é hostilidade gratuita contra militares de baixa patente, que também são trabalhadores e vivem os problemas do país. O caminho é fortalecer instituições civis e cortar os incentivos à tutela. Isso passa por formação democrática nas academias, controle parlamentar sério sobre orçamento e operações, punição para crimes e ameaças golpistas, transparência em nomeações e critérios técnicos para cargos civis.

Também passa por desmontar a ficção de que democracia é bagunça e autoritarismo é eficiência. Democracia dá trabalho porque reconhece conflito, escuta interesses diferentes e impõe limites a quem governa. A solução autoritária parece rápida até cobrar sua conta: censura, violência, corrupção escondida, perseguição e silêncio imposto.

A pergunta não é se militares podem ter posição política. Podem, como cidadãos. A pergunta decisiva é se a República aceitará que uma corporação armada se coloque acima do voto, das leis e da sociedade. A resposta precisa ser dada todos os dias, com memória, fiscalização e coragem para não deixar que o velho golpismo se vista de novidade.

1 Comentário

Miguel José Cordeiro disse:

Usar a farda, a fama e a credibilidade das forças armadas, marinha exército e aeronáutica, e das policiais estaduais pra fis politicos , já deveria ser considerado corrupção , crime etc


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