Como se sabe, na quarta-feira, 15 de julho de 2026, o governo de Donald Trump oficializou uma tarifa adicional de 25% sobre a maioria dos produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, aquele mesmo instrumento que os Estados Unidos usam quando querem punir alguém sem precisar provar nada diante de instância multilateral nenhuma. A tarifa entra em vigor no dia 22 de julho. O comunicado do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) cita como justificativa políticas brasileiras ligadas ao Pix, decisões da Justiça sobre plataformas digitais, fiscalização ambiental, propriedade intelectual, mercado de etanol e combate à corrupção. Ou seja, o Brasil está sendo punido por ter um sistema de pagamento instantâneo que funciona, por regular redes sociais, por combater desmatamento e por investigar corruptos. Se houvesse um prêmio de absurdo diplomático, seria este.
O governo brasileiro respondeu com nota oficial na madrugada de quinta-feira (16). O texto, assinado pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência, classificou a medida como “marco lastimável” nas relações entre os dois países e fez uma observação que destrói a narrativa de Washington com um número só: nos últimos 15 anos, os Estados Unidos acumularam US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil. Em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto, e a alíquota média efetiva foi de apenas 3,1%. O Brasil não impõe déficit aos Estados Unidos. Nunca impôs. E mesmo assim foi taxado.
A fala que entregou o jogo
Pouco depois da oficialização, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, subiu nas redes sociais e declarou: “Não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé.” A acusação é grave. O problema é que o governo brasileiro tem recibo. O Palácio do Planalto divulgou uma lista com mais de 30 reuniões realizadas com autoridades norte-americanas desde 2025 para negociar as divergências, incluindo pelo menos 11 conversas com o próprio Rubio e com o representante comercial Jamieson Greer.
Se houve três dezenas de encontros, em níveis presidencial, ministerial e técnico, por telefone, videoconferência e presencialmente, torna-se difícil sustentar que Brasília se recusou a negociar. O que Rubio chamou de “ego de Lula” é, traduzido do diplomático, a recusa do Brasil em aceitar passivamente as condições impostas por Washington. O problema não é ausência de diálogo. O problema é que o diálogo não produziu submissão.
Rubio, com sua declaração, fez o favor de confirmar o que o governo brasileiro vinha dizendo desde o primeiro tarifaço: o caráter é político, não comercial. A investigação do USTR questiona o Pix, a regulação de plataformas digitais, a fiscalização ambiental. São áreas estratégicas de soberania nacional. Washington não está cobrando tarifa aduaneira. Está exigindo que o Brasil desmonte seu sistema de pagamento público, abra mão de regular suas redes sociais e aceite o desmatamento. É ingerência vestida de comércio.
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O tarifaço que não assusta
Aqui entra o dado que deita por terra toda a narrativa de catástrofe. O tarifaço anterior, imposto por Trump em 2025, não destruiu a economia brasileira. Fez o contrário. Em outubro de 2025, três meses após a retaliação, as exportações brasileiras cresceram 9,1% na comparação com o mesmo mês do ano anterior, batendo recorde para o mês desde o início da série histórica, em 1989. As vendas para os Estados Unidos caíram 37,9%. As vendas para a China cresceram 33,4%. A Índia comprou 55,5% a mais. Cingapura, 29,2% a mais. As Filipinas, 22,4% a mais. A queda para a América do Norte foi a única região com redução. Todas as outras cresceram. O Brasil olhou para o lado e descobriu que o mundo é maior do que o quintal da Casa Branca.
O saldo de 2025 fechou em US$ 68,3 bilhões de superávit, o terceiro maior da história. As exportações somaram US$ 348,7 bilhões, as importações US$ 280,4 bilhões. As vendas para os EUA despencaram 6,6%, caindo de US$ 40,3 bilhões para US$ 37,7 bilhões. O déficit comercial com os Estados Unidos explodiu de US$ 253 milhões para US$ 7,53 bilhões, aumento de quase 2.900%. Mas a China cresceu 6%, o Mercosul saltou 26,6%, a Europa aumentou 6,2%. A diversificação compensou. Em agosto de 2025, primeiro mês do tarifaço anterior, as compras chinesas de produtos brasileiros já tinham crescido 29,9%. O padrão se repetiu. Trump bate, China compra, Brasil exporta mais.
A China, aliás, já prometeu retaliar os Estados Unidos. O Ministério do Comércio chinês declarou em outubro de 2025: “Nossa posição sobre guerras tarifárias é consistente: não queremos brigar, mas não temos medo de brigar.” Pequim comprou mais soja brasileira, mais minério de ferro, mais carne bovina, mais petróleo. Cada tarifa que Trump impõe sobre Pequim é um contrato que Brasília assina. A aritmética é cruel para Washington e generosa para o Brasil.
A mutreta política
Se o tarifaço não assusta a economia, o que assusta? Nada. E é exatamente por isso que a mutreta é política. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à presidência, esteve em Washington nas semanas anteriores ao anúncio. Lula disse, em discurso público, que Flávio pediu o tarifaço a Trump. Flávio negou. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada nesta quinta-feira (16), ouviu 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13 de julho, antes mesmo da oficialização da tarifa, e o resultado é uma parede: 51% concordam com Lula; 30% concordam com Flávio; 19% não sabem ou não respondem. Quando a pergunta é se a tarifa é retaliação contra o Pix, como diz Lula, ou reação a declarações do presidente contra os EUA, como diz Flávio, 49% fecham com Lula e 33% com o senador. Há um mês, era 46% a 36%. A adesão a Lula cresceu. A de Flávio encolheu.
A Quaest aferiu ainda se o tarifaço muda a intenção de voto. 42% disseram que aumenta a vontade de votar em Lula, ante 39% em junho. 27% disseram que aumenta a vontade de votar em Flávio, ante 30% no mês anterior. Ou seja, o tarifaço empurra eleitores para Lula e afasta de Flávio. E 58% dos entrevistados acham que Flávio não tem força para convencer Trump a reverter as tarifas. Apenas 34% acham que tem. O senador que se vende como interlocutor privilegiado de Washington é visto pela maioria como alguém que não tem influência nenhuma para desfazer o que ajudou a fazer.
O professor Fábio de Sá e Silva, co-diretor do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade de Oklahoma, disse ao Opera Mundi o que a Quaest confirmou: “O tarifaço deu a Lula a bandeira da soberania.” Segundo o especialista, “houve uma clara movimentação política em torno das tarifas, por parte da atual oposição no Brasil”, e “essas ações geram dividendos políticos para o governo, pois permitem que Lula mobilize com sucesso o discurso da soberania”. A menção ao Pix, avalia, “vai apenas aprofundar isso e pode atrapalhar a candidatura de Flávio Bolsonaro, mais do que ajudar”. Os Bolsonaros, diz Sá e Silva, “se aliaram aos republicanos, isso significa que estão vulneráveis caso estes saiam do poder em algum momento”.
A resposta institucional
O governo Lula anunciou que acionará imediatamente os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). A nota oficial do Planalto é dura: “O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais.” E mais: “O PIX é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade.”
Nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e norte-americano foram contrárias ao tarifaço. O Itamaraty enviou documento de 29 páginas ao USTR alertando que a taxa de 25% aumenta o custo da indústria e dos consumidores norte-americanos. Quarenta e três empresas dos EUA se manifestaram contra. O tarifaço prejudica quem o impõe. Mas isso nunca impediu Trump de fazer nada.
A lista de produtos isentos é reveladora. Petróleo, carne bovina, café e minerais críticos foram deixados de fora. O especialista da Universidade de Oklahoma lê isso com clareza: “Os Estados Unidos reconhecem que as tarifas geram efeitos negativos para seu próprio mercado interno.” Ou seja, aplicaram tarifas “pero no mucho”. Cobraram dos produtos que podem cobrar sem se machucar e isentaram os que precisam comprar. É o império cobrando pedágio seletivo.
O blefe e a verdade
A verdade é esta, e ela é mais simples do que parece. O tarifaço de Trump não vai mudar a vida do brasileiro. Não mudou no ano passado, quando as exportações cresceram e o superávit foi o terceiro maior da história. Não vai mudar agora, quando a China já sinalizou que vai comprar mais e retaliar os EUA. A economia brasileira é diversificada o suficiente, o mercado asiático é grande o suficiente, e o Mercosul está vivo o suficiente para compensar o que Washington tirar. O brasileiro não vai pagar mais caro no supermercado por causa de uma tarifa de 25% sobre produtos que, em grande parte, nem chegam à sua mesa.
O que muda não é a economia. É a política. E é aí que a mutreta se revela. Trump bate tarifaço. Flávio Bolsonaro, que esteve em Washington pedindo, segundo Lula e segundo 51% dos brasileiros, aparece como entreguista. Lula responde com altivez, defende o Pix, defende a soberania, aciona a Lei de Reciprocidade e cresce nas urnas. A Quaest mostra: 40% no primeiro turno contra 28% de Flávio. Oito pontos de vantagem no segundo turno. Rejeição de Flávio em 57%. Aprovação de Lula entre evangélicos subindo 9 pontos. O tarifaço é uma operação política de Trump para enfraquecer Lula, e está produzindo o efeito contrário. Fortalece Lula. Enfraquece Flávio. E não muda um real na vida do trabalhador brasileiro.
Trump deveria ler Maquiavel. Ou pelo menos os dados do MDIC.





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