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Os Bolsonaros com seu lobista, Paulo Figueiredo, e Trump na Casa Branca: articulação contra as exportações brasileiras. Foto: Reprodução Redes Sociais
GEOPOLÍTICA

Nova tarifa de 12,5% revela padrão TariFlávio

Trabalho forçado é pretexto; objetivo é enfraquecer Lula

Hoje (23), o governo de Donald Trump anunciou uma nova tarifa de 12,5% sobre produtos brasileiros, sob a alegação de que o Brasil não adota mecanismos eficazes para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado. A medida entra em vigor na madrugada desta sexta-feira (24) e se soma à tarifa de 25% imposta no dia 22, também baseada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Com isso, parte das exportações brasileiras para o mercado estadunidense poderá enfrentar tributação total de até 37,5%. Em uma semana, Trump bateu duas vezes. A primeira acusou o Brasil de ter um sistema de pagamento público que funciona, o Pix, de regular redes sociais, de combater desmatamento e de investigar corruptos. A segunda acusa o Brasil de não combater o trabalho forçado. O país que aboliu a escravidão por último no Ocidente e cuja economia se construiu sobre trezentos anos de cativeiro agora dá lição de direitos humanos ao país que mantém a Lista Suja do Trabalho Escravo, tipifica como crime a submissão a trabalho forçado, as jornadas exaustivas, as condições degradantes e a restrição de locomoção, e responsabiliza empresas e indivíduos com multas severas. Se houvesse um prêmio de cinismo diplomático, seria este.

A nota do Palácio do Planalto, divulgada agora há pouco, é devastadora na precisão dos números. O governo brasileiro rechaça a decisão e faz uma comparação que destrói a narrativa de Washington com a aritmética da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O Brasil é signatário de 66 Convenções em vigor na OIT. Os Estados Unidos, que se arrogam o direito de julgar e punir, ratificaram apenas 10. O Brasil ratificou todos os quatro instrumentos da OIT relacionados ao trabalho forçado: a Convenção 29 de 1930, a Convenção 105 de 1957, a Recomendação 203 e o Protocolo à Convenção 29, ambos de 2014. Os Estados Unidos ratificaram apenas um desses instrumentos. Um. O país que ratificou um quarto dos instrumentos internacionais de combate ao trabalho forçado acusa o país que ratificou todos os quatro de não combater o trabalho forçado. Não é diplomacia. É paródia.

O Brasil tipifica como crime não apenas a submissão ao trabalho forçado, mas as jornadas exaustivas, as condições degradantes e a restrição de locomoção. Responsabiliza empresas e indivíduos, aplica multas severas e mantém o cadastro da Lista Suja de empregadores. E mesmo assim foi taxado.

O representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer, declarou: “A falha de nossos parceiros comerciais em lidar com a importação de bens feitos com trabalho forçado é inaceitável. Isso força os trabalhadores americanos a competir em um campo desigual.” A frase é de uma ironia que ele mesmo não percebe. O país que ratificou uma convenção de quatro fala em campo desigual. O país cujo presidente impôs tarifas sobre 54 países e a União Europeia em um único dia, acusando todos de práticas desleais, fala em campo desigual. O país que acumulou US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, e cujas importações brasileiras entraram com alíquota média efetiva de apenas 3,1% em 2025, fala em campo desigual. O campo desigual é o que os Estados Unidos tentam criar, cobrando dos outros o que não cumprem.

A confissão do império

Mas foi na segunda-feira (20), três dias antes do anúncio da nova tarifa, que o império tirou a máscara. Em discurso na convenção nacional do PDT, em Brasília, Lula disse o que nenhum presidente brasileiro ousava dizer em público há décadas: que o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, quer apoiar Flávio Bolsonaro na disputa presidencial de 2026. E disparou:

“Se o secretário de Estado americano Marco Rubio quiser vir apoiar o meu adversário, que venha, que monte um comitê, porque a gente vai derrotar todos em nome da defesa da democracia desse país.” E completou, sem citar nomes, mas citando o crime: “Antigamente traidor era enforcado. Trair a pátria é uma coisa muito grave.”

A resposta do governo dos Estados Unidos veio nesta quinta-feira (23), pelo Departamento de Estado. Questionado pelo G1, um porta-voz afirmou: “Em termos gerais, os Estados Unidos têm um interesse histórico e global na liberdade de expressão e na integridade dos processos democráticos em todo o mundo, inclusive no Brasil.” Interesse. A palavra é do porta-voz. Interesse no processo democrático do Brasil. O governo estrangeiro que impõe tarifas sobre o Brasil, que tem um secretário de Estado que atribui o tarifaço ao “ego de Lula”, que recebeu Flávio Bolsonaro em Washington para posar para foto com Trump, agora admite, oficialmente, por meio de seu departamento diplomático, que tem “interesse” no processo eleitoral brasileiro. Não é mais insinuação. Não é mais leitura de bastidores. É declaração oficial de um porta-voz do Departamento de Estado dos Estados Unidos da América.

Lula, na mesma fala, anunciou que convidará observadores internacionais para acompanhar a eleição:

“Estou convidando quem quiser do mundo para ver as eleições aqui no Brasil.” E cravou: “Nós não temos o direito de perder essas eleições. Nós não temos o direito de permitir que o negacionismo, o fascismo, volte a pensar em governar esse país.”

A frase é de um presidente que entendeu que o adversário não está apenas no PL. Está na Casa Branca.

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O padrão que se revela

A nova tarifa de 12,5% é a segunda pancada em uma semana, a terceira em um ano, e cada uma revela mais claramente o que está em jogo. A primeira tarifa, em 2025, foi justificada com o Pix, a regulação de plataformas digitais, a fiscalização ambiental. A segunda, no dia 22 de julho, citou propriedade intelectual, mercado de etanol, combate à corrupção. A terceira, agora, invoca trabalho forçado. Três tarifas, três pretextos, um padrão. O Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) procura desesperadamente um argumento que cole, um que justifique a punição sem revelar a motivação real. A motivação real é política, e o Departamento de Estado acabou de confirmar.

A Frente Livre já demonstrou, com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), que o tarifaço anterior não destruiu a economia brasileira. Fez o contrário. Em outubro de 2025, três meses após a retaliação, as exportações brasileiras cresceram 9,1%, batendo recorde para o mês desde 1989. As vendas para os Estados Unidos caíram 37,9%. As vendas para a China cresceram 33,4%. A Índia comprou 55,5% a mais. O saldo de 2025 fechou em US$ 68,3 bilhões de superávit, o terceiro maior da história. Trump bate, China compra, Brasil exporta mais. A aritmética é cruel para Washington e generosa para o Brasil.

A nova tarifa de 12,5% não vai mudar essa equação. Não vai mudar a vida do brasileiro. Não mudou no ano passado, quando as exportações cresceram e o superávit foi recorde. Não vai mudar agora, quando a China já sinalizou que vai comprar mais e retaliar os EUA. O brasileiro não vai pagar mais caro no supermercado por causa de uma tarifa de 12,5% sobre produtos que, em grande parte, nem chegam à sua mesa. O que muda não é a economia. É a política.

O TariFlávio e o império

A Frente Livre já cravou o diagnóstico: o tarifaço é uma operação política de Trump para enfraquecer Lula e ajudar Flávio Bolsonaro, e está produzindo o efeito contrário. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 16 de julho, ouviu 2.004 pessoas entre os dias 10 e 13, antes mesmo da oficialização da primeira tarifa, e o resultado é uma parede: 51% concordam com Lula quando diz que Flávio pediu o tarifaço a Trump; 30% concordam com Flávio. 42% disseram que o tarifaço aumenta a vontade de votar em Lula; 27% em Flávio. 58% acham que Flávio não tem força para convencer Trump a reverter as tarifas. Lula cresceu para 40% no primeiro turno contra 28% de Flávio. Rejeição de Flávio em 57%. Aprovação de Lula entre evangélicos subindo 9 pontos.

A Agência Pública, em reportagem republicada pela Frente Livre em 23 de junho, já havia mapeado o padrão intervencionista de Trump na América Latina. O secretário de Estado, Marco Rubio, declarou apoio “inequívoco” ao governo da Bolívia e sugeriu que os EUA “não permitiriam” que fosse derrubado, chamando manifestantes de “criminosos e traficantes de drogas.” Os EUA invadiram Caracas para sequestrar Nicolás Maduro. Conduziram operação militar dentro do território venezuelano. Designaram grupos criminosos latino-americanos como “terroristas” para criar base legal para intervenção militar além de suas fronteiras.

O professor Lucas Leite, da FAAP, disse à Agência Pública: “A extrema direita brasileira se beneficia porque recebe legitimidade externa, pressão econômica como ferramenta de campanha e, nos casos mais extremos, a garantia de que o governo Trump vai agir para protegê-la se chegar ao poder. É um guarda-chuva ideológico com dentes militares.”

A resposta e a verdade

O governo brasileiro anunciou que iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e levará o tema ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC). A nota do Planalto é clara:

“Tendo em vista o caráter completamente arbitrário e injustificado das tarifas anunciadas contra o Brasil, iniciaremos imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade.”

O Brasil não vai aceitar passivamente. Vai responder com os instrumentos institucionais que tem, dentro das regras multilaterais que os Estados Unidos preferem ignorar.

O tarifaço de 12,5% por trabalho forçado é o cúmulo do cinismo imperial. Mas é, também, o sinal de que o império está nervoso. Quando a economia não obedece, quando a China compra mais, quando as exportações crescem, quando o povo brasileiro vê através da narrativa e culpa o entregador, o império aperta. E quando aperta, revela. Cada tarifa é uma confissão de que o objetivo não é comércio. É poder. E o poder, quando precisa de pretexto, escolhe o mais nobre disponível. Trabalho forçado. Direitos humanos. Integridade democrática. A linguagem que o império usa quando não tem argumento. O Brasil ouviu. Respondeu com 66 convenções, uma Lei de Reciprocidade e um presidente que disse “que venha, que monte um comitê.” E segue exportando, segue crescendo, segue votando. Trump deveria ler a OIT. Ou pelo menos os dados do MDIC. E o Departamento de Estado deveria ler a Constituição brasileira, onde diz, no artigo primeiro, que todo o poder emana do povo. Não de Washington.

 👀 Leia a íntegra da nota do Palácio do Planalto

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