Defendendo uma candidatura presidencial em estado avançado de putrefação, o bolsonarismo acelerou os passos do que julga ser sua bala de prata: a operação para abater Lulinha, o filho do presidente Lula. O objetivo é bombardear o pai com a pecha de corrupto a partir da queda do filho. Para isso, não estão economizando. Até torturar prisioneiros em busca de uma delação está valendo. Querem um depoimento formal, assinado e gravado, nas mãos do ministro André Mendonça, para que daí sirva de munição a Flávio Bolsonaro, que, inclusive, é quem deu a senha do plano.
No dia 23 de julho, do mais absoluto nada, o senador neofascista a quem o ex-presidente golpista chama de “Zero Um” publicou um vídeo no Instagram em que começa com a pergunta: “Cadê Lulinha?” Em seguida, mostra uma fotomontagem do filho do presidente próximo do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. E acusa, de forma leviana e criminosa, este de pagar ao filho do presidente uma mesada de R$ 300 mil. “Paga com dinheiro dos aposentados”, arrota.
Uma semana depois, no dia 30, a Polícia Federal pediu formalmente ao ministro André Mendonça, relator do inquérito do INSS no Supremo Tribunal Federal, autorização para investigar Lulinha. Mendonça é aquele terrivelmente evangélico nomeado para o STF por Jair Bolsonaro, de quem foi ministro da Justiça. Mendonça, com toda a diligência, autorizou a abertura do novo inquérito.
Esta é a parte do plano posta em marcha acelerada, dadas as sucessivas crises que corroem a candidatura de Flávio Bolsonaro dia após dia. Mas há outra, feita em paralelo e há muito mais tempo, em pleno curso. Esta se desenvolve no prédio do 19º Batalhão da Polícia Militar (19º BPM) no Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília. É o lugar conhecido como Papudinha. Para lá são levados presos de alta repercussão, investigados pela Polícia Federal ou alvos de decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Jair Bolsonaro cumpria pena lá até quase morrer de soluçar e com isso ganhar o direito de cumprir os 27 anos de cadeia em casa.
O Careca do INSS
Quem também está lá é o Careca do INSS. Desde dezembro do ano passado, trancafiaram-no inicialmente no bloco 5. Está preso preventivamente. Segundo os autos, precisou ser recolhido pelo risco de fugir do país. No mesmo bloco, mas não na mesma ala, atrás daquelas grades também está Romeu Antunes Carvalho, filho do Careca. Preso por, segundo a PF, assumir o lugar do pai nas falcatruas do INSS.
Aqui cabe um esclarecimento. A Polícia Federal não é um órgão coeso. Há nela uma porção de grupos adversários que disputam o poder e vivem sabotando uns aos outros. Quem está envolvido tanto no caso do INSS quanto no do Banco Master, ambos relatados por André Mendonça no STF, é o grupo do delegado Thiago Marcantonio Ferreira, um bolsonarista fervoroso que trabalha com Mendonça desde que este foi ministro da Justiça de Bolsonaro. É o mesmo delegado que passou anos tentando, e não conseguindo, provar que dona Marisa Letícia ganhara da empreiteira OAS o tal triplex do Guarujá usado por Sérgio Moro para condenar o presidente Lula na Lava Jato.
Em 15 de junho, o Careca e o filho foram transferidos para o Bloco 4 da Papudinha. É um lugar de maior controle sobre o interno. Não houve qualquer justificativa formal para a mudança. O cárcere tomou um tom mais tenebroso. A luz da cela não apagava. E ficou acesa pelos 24 dias e noites seguintes. Com privação de sono, o prisioneiro começou a ser atormentado psicologicamente. O meio do ano é gelado no Cerrado brasileiro. O chuveiro do bloco 4 é frio como o diabo. O banho de sol diário se tornou semanal. A ventilação do lugar se dá apenas por ripas no teto da cela que não deixam passar nem um filete de ar.
Diante das condições menos salubres, Romeu caiu doente e precisou ser levado ao hospital.
Neste mesmo dia, um insone, insalubre e atormentado Careca foi retirado às pressas da cela. A justificativa posta nos documentos é que ele foi submetido a um interrogatório por ter cometido uma falta disciplinar. O que seria a tal falta não está escrito nos relatórios. Mas Antônio Carlos Camilo Antunes disse aos seus advogados, e estes escreveram uma petição a André Mendonça, segundo a qual o que houve ali não foi um interrogatório. Foi uma “sugestão”, dada com o “carinho” típico dos carcereiros, para que ele feche logo um acordo de delação premiada. Querem que ele acuse Lulinha e entregue provas daquilo que, alguns dias depois, Flávio Bolsonaro lançaria no Instagram.
A prisão temporária usada como elemento de pressão sobre investigados não é exatamente uma novidade no Brasil. Sérgio Moro fez isso durante toda a Lava Jato, que, descobriu-se depois, não era uma ação judicial, era uma operação política de extrema direita para afastar o PT do poder. Jair Bolsonaro, o grande líder neofascista no Brasil, já afirmou em público ser favorável à tortura de adversários políticos. E agora, encurralado e moribundo, o bolsonarismo partiu para seu suspiro final usando o método que mais lhe apraz.
Lulinha investigado e investigado e investigado…
A Operação Sem Desconto, da Polícia Federal (PF), investiga um esquema bilionário de descontos associativos irregulares em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), estimados em R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024. O lobista Antônio Carlos Camilo Antunes foi preso e indiciado pela PF como operador central dos desvios. O nome de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, passou a ser citado nas investigações a partir de depoimentos que apontavam uma suposta relação de sociedade entre ele e o Careca, com a empresária Roberta Luchsinger como elo.
A suspeita inicial era de que Lulinha pudesse ter atuado como sócio oculto do lobista. O jornal bolsonarista paranaense A Gazeta do Povo, porém, reportou em 15 de julho de 2026 que a PF disse não ter achado nada que ligue o filho do presidente ao escândalo do INSS. A Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do INSS rejeitou relatório que pedia o indiciamento de Lulinha. E a própria PF, ao pedir a abertura do novo inquérito ao Supremo Tribunal Federal (STF) em julho de 2026, esclareceu que a investigação não trata das fraudes no INSS, mas de suspeita de tráfico de influência em negócios envolvendo canabidiol e o Ministério da Saúde. São coisas distintas: as falcatruas que sangraram os aposentados são do Careca e seus cúmplices. Lulinha não tem nada a ver com isso.
O novo inquérito autorizado pelo ministro André Mendonça, do STF, apura se Lulinha teria atuado para favorecer a comercialização de canabidiol no governo Lula, com citação ao gabinete presidencial. A defesa do filho do presidente nega irregularidades e afirma que ele não obteve nenhum pagamento por negócios de empresários com o governo. A Folha de S.Paulo reportou que o enfoque anterior em suspeitas relacionadas a Lulinha foi sendo abandonado pela PF ao longo das investigações. A publicitária Danielle Miranda Fonteles confirmou em depoimento que Lulinha participou de viagens e visitas a instalações industriais, mas não há prova de que tenha recebido vantagem indevida. A CartaCapital reportou que circula nos bastidores a informação de que o gabinete de Mendonça estaria pronto para caracterizar Lulinha como sócio do Careca, mas até o momento nenhuma denúncia formal foi oferecida contra o filho do presidente. A PF indiciou o Careca e outros 48 por descontos ilegais em aposentadorias. Lulinha não está entre eles.
O presidente Lula reagiu à abertura do inquérito com uma frase que não deixa ambiguidade: “Se for culpado, ele vai ter que pagar como todo mundo. Não usarei cargo para protegê-lo.” Lula lembrou as acusações que o levaram à prisão durante a Operação Lava Jato e a morte de sua esposa, Marisa Letícia. O contraste com Jair Bolsonaro é brutal. Bolsonaro demitiu o então ministro da Justiça Sergio Moro em abril de 2020 para impedir que Flávio Bolsonaro fosse investigado no caso das rachadinhas. Moro denunciou “interferência política” de Bolsonaro na PF e escreveu em seu livro: “Não se poderia admitir a destruição do sistema nacional de prevenção à lavagem de dinheiro com o propósito de salvar da lei o filho de alguém, mesmo sendo ele o filho do presidente da República.” Lula abre a porta para que a PF investigue seu filho. Bolsonaro fechou a porta para que a PF não investigasse o dele.






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