Mendonça investiga Lulinha e Lula diz: não vou proteger

Bolsonaro demitiu Moro para blindar Flávio no caso das rachadinhas

Mendonça investiga Lulinha STF
André Mendonça em jantar com Flávio Bolsonaro, com quem também confraternizou e dividiu palco na Marcha para Jesus deste ano, em São Paulo. Foto: Reprodução Redes Sociais

O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou na quinta-feira (30) a abertura de inquérito para investigar Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por, segundo a Polícia Federal, suspeita de tráfico de influência e corrupção. A PF apura se o filho do presidente agiu para favorecer a comercialização de canabidiol no governo Lula, com citação ao gabinete presidencial. Em fevereiro, Mendonça já havia determinado a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Lulinha na Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O presidente Lula reagiu com uma frase que não deixa ambiguidade: “Se for culpado, ele vai ter que pagar como todo mundo”. E completou: “Não usarei cargo para protegê-lo”.

Lula lembrou as acusações que o levaram à prisão durante a Operação Lava Jato e a morte de sua esposa, Marisa Letícia. “Lulinha terá de provar ser inocente”, afirmou. A declaração é um contraste brutal com o comportamento de Jair Bolsonaro, que demitiu o então ministro da Justiça Sergio Moro em abril de 2020 para impedir que o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) fosse investigado no caso das rachadinhas. Moro denunciou “interferência política” de Bolsonaro na PF e escreveu em seu livro: “Não se poderia admitir a destruição do sistema nacional de prevenção à lavagem de dinheiro com o propósito de salvar da lei o filho de alguém, mesmo sendo ele o filho do presidente da República”.

A régua que muda

O problema não é investigar Lulinha. Se há indícios, investigue. Ponto. O problema começa quando a régua parece mudar conforme o investigado. No caso do governo Lula, Mendonça autorizou investigações, retirou sigilos, fez críticas públicas ao risco de vazamentos, impôs determinações incomuns à PF e acabou contestado pela própria PF e pela Advocacia-Geral da União (AGU), que acionaram judicialmente parte dessas decisões. A PF alegou “interferência” de Mendonça na condução do inquérito do INSS.

No mesmo dia em que autorizou o inquérito contra Lulinha, Mendonça retirou o sigilo da investigação contra o senador Jaques Wagner (PT-BA) no caso do Banco Master, autorizou a PF a monitorar o celular do parlamentar e impediu a venda de um terreno avaliado em R$ 15 milhões ligado ao senador. Mendonça citou “risco de vazamento” após Wagner pedir audiência no mesmo dia de uma representação da PF.

Carta do dia

Receba as notícias da frente livre de graá no seu e-mail
Inscrever

A régua que some

Já nos processos envolvendo figuras centrais do bolsonarismo, a pergunta continua de pé: por que o mesmo rigor, a mesma publicidade e o mesmo grau de intervenção não aparecem com igual intensidade? Em abril de 2026, Mendonça pediu vista e suspendeu o julgamento contra o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) por difamação contra a deputada Tabata Amaral (PSB-SP), quando o placar estava 4 a 0 pela condenação. O julgamento segue parado.

O ministro também assumiu a relatoria de investigação sobre o financiamento do filme Dark Horse, que interessa diretamente a Flávio Bolsonaro. E pediu vista em processo da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Crime Organizado em abril de 2026. A bolsonarista Gazeta do Povo reportou que Mendonça “acelerou as investigações sobre fraudes bilionárias no Banco Master e no INSS” e “tenta blindar investigações bilionárias contra pressão no STF”. A questão é saber de quem ele tenta blindar.

A pergunta que não quer calar

Há algo importante no front: a imparcialidade de um juiz não depende apenas de ser imparcial; depende também de parecer imparcial. Justiça seletiva destrói a confiança na Justiça, mas seletividade não se presume; demonstra-se. Por isso, a pergunta correta não é se Mendonça investiga Lulinha; a pergunta correta é outra: ele trata adversários e aliados políticos exatamente com a mesma régua? Se a resposta for sim, fortalece-se o Estado de Direito. Se a resposta for não, não é apenas um lado que perde, mas também a credibilidade do Supremo.

👀 Veja o vídeo do presidente Lula falando sobre Lulinha

 

View this post on Instagram

 

Fale conosco