Pela primeira vez desde março, o mercado financeiro reduziu seu palpite para os juros brasileiros. Segundo o Boletim Focus, divulgado nesta segunda-feira (3) pelo Banco Central (BC), a Selic deve fechar 2026 em 13,75%, abaixo dos 14% projetados na semana anterior. A inflação também cai pela quinta semana consecutiva, para 5,03%. A economia cresce, o desemprego cai, o consumo sobe. Os juros vão cair. E exatamente agora o mercado aparece pedindo corte de gastos.
Diante desse monte de indicadores de um lado pro outro em meio a uma eleição presidencial, é bom deixar bem claro. O que está acontecendo é um lobby, pressão, para o governo cortar despesas com os pobres para continuar pagando juros aos ricos.
A dívida pública bruta saltou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em dezembro de 2022 para 81,9% em junho de 2026, alcançando R$ 10,8 trilhões. A Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão vinculado ao Senado, projeta que a dívida pode chegar a 95,7% do PIB no último ano do próximo governo e ultrapassar 100% em 2032. O diagnóstico é apresentado como se a dívida fosse fruto de gasto social descontrolado. Não é. A dívida cresceu porque a Selic esteve a 14,25% ao ano. O maior devedor da economia é o governo. Quem recebe os juros é o mercado. O mesmo mercado que agora quer cortar o BPC, o salário mínimo e os gastos obrigatórios.
Os analistas do ajuste
O economista Arminio Fraga, ex-presidente do BC, ex-gestor de fundos do megaespeculador George Soros e, hoje, principal nome da escola neoliberal no Brasil, diz que “o maior devedor da economia é o governo e isso põe pressão nas taxas de juros”. Fraga admite meio que achando ruim que a economia cresce, o desemprego é baixo, mas avisa: “está encomendada uma decepção, um susto quando esse assunto começar a aparecer”. Ou seja: o mercado vai criar o susto. Marcus Pestana, diretor-executivo da IFI, defende “meta fiscal pura” e diz que o próximo presidente terá que fazer ajuste no primeiro trimestre de 2027, com revisão de gastos tributários, Previdência e reforma administrativa. Fábio Giambiagi, da Fundação Getulio Vargas (FGV), defende a revisão do BPC: “não é possível que o benefício continue aumentando mais de 10% ao ano num país cuja população aumenta em 1% ao ano”. Alexandre Manoel, da Global Intelligence and Analytics, diz que a redução do teto de gasto de 2,5% para 1,5% não será suficiente.
BPC é o Benefício de Prestação Continuada. É um benefício social no valor de 1 salário mínimo pago a pessoas extremamente pobres — maiores de 65 anos e portadores de deficiência de qualquer idade. Por ser um benefício assistencial, não exige contribuição ao INSS, mas não paga 13º salário nem deixa pensão por morte. É isso que esses caras pedem para o governo cortar.
A engrenagem
A engrenagem é clara. O mercado manteve pressão sobre a Selic a 14,25% durante todo o governo Lula. A dívida pública explodiu porque o governo paga juros altíssimos para o próprio mercado. Agora que a inflação cai e os juros vão cair, o mercado muda o discurso: a dívida é alta, é preciso cortar gastos sociais, revisar o BPC, apertar o salário mínimo. Criaram o problema com juros altos. Querem que o trabalhador pague a solução com corte de direitos. A dívida pública não é fruto de gasto social. É fruto de juros de rentista. E o rentista não quer abrir mão dos juros. Quer abrir mão do BPC.





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