O Supremo Tribunal Federal tem duas velocidades. Uma para os Bolsonaro — lenta, paciente, compreensiva. Outra para os Lula — rápida, exigente, implacável. O ministro é o mesmo. André Mendonça, nomeado por Jair Bolsonaro para o STF em 2021, com a missão explícita de ocupar a vaga de Marco Aurélio Mello com um “evangélico e conservador”, nas palavras do próprio Bolsonaro. Agora é o relator de dois inquéritos que expõem, lado a lado, a seletividade da Justiça brasileira.
No caso Dark Horse, que investiga os R$ 61 milhões repassados por Daniel Vorcaro, o corruptíssimo banqueiro ex-controlador do Banco Master, para o suposto financiamento de uma cinebiografia de Jair Bolsonaro, o inquérito foi aberto em 23 de julho. Doze dias depois, nenhuma busca e apreensão, nenhuma quebra de sigilo, nenhuma prisão, nenhum novo pedido de medida cautelar chegou à mesa do relator. O ICL Notícias apurou com fontes com acesso às investigações que o procedimento respira por aparelhos. A PF ainda não voltou ao STF com nenhum pedido de diligência. E Mendonça, até agora, não cobrou nada.
No caso Lulinha, a história é inversa. A Polícia Federal abriu inquéritos contra Fábio Luis Lula da Silva, filho do presidente, com base em elementos surgidos na Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos de aposentadorias do INSS. O problema é que as provas ainda não foram juntadas aos autos. “Eles dizem que está nas quebras do INSS, mas essa documentação ainda não foi juntada”, afirmou uma fonte ao ICL Notícias. Mendonça, nos últimos dias, vem cobrando da PF esclarecimentos sobre o andamento da operação, exigindo informações sobre diligências já realizadas e resultados das medidas autorizadas.
No Dark Horse, o ministro espera. No Lulinha, o ministro cobra. A diferença não é sutil — é estrutural.
A balança torta
A gravidade dos dois casos é desproporcional — e invertida em relação ao tratamento recebido. O caso Dark Horse envolve R$ 61 milhões de origem obscura, lavagem de dinheiro internacional, pedido da PF para inclusão de Flávio Bolsonaro na lista prateada da Interpol, suspeita de financiamento eleitoral ilícito e o autoexílio de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. É, por qualquer critério, o caso mais grave em tramitação no STF neste momento.
O caso Lulinha envolve suspeitas de tráfico de influência cujas provas ainda não constam nos autos. Três inquéritos foram abertos. A divisão dos procedimentos gera dúvidas até dentro do gabinete de Mendonça. Mas o ministro cobra pressa. Exige respostas. Pressiona a PF.
A aritmética fala por si. Dark Horse: um inquérito, doze dias, nenhuma medida. Lulinha: três inquéritos, cobrança ativa do relator, provas ainda inexistentes. Se a Justiça fosse cega, pesaria igual. Não é cega — é seletiva. Pesa com a mão de quem a nomeou.
O homem de Bolsonaro julga Bolsonaro
A pergunta que a grande imprensa se recusa a fazer é a mais óbvia: pode um ministro nomeado por Bolsonaro investigar Bolsonaro com a mesma energia com que investiga Lula? A resposta está nos autos. No Dark Horse, Mendonça autorizou a abertura do inquérito — e parou. No Lulinha, Mendonça autorizou a abertura dos inquéritos — e cobrou. A diferença de postura não exige interpretação. Exige apenas leitura.
Mendonça foi colocado no STF por Bolsonaro no meio da pandemia, em 2021, com o aval da bancada evangélica e a missão declarada de ocupar a vaga de Marco Aurélio com um perfil conservador. Não é um ministro sem história. É um ministro com paternidade política. E a paternidade, pelo visto, está pesando.
O calendário eleitoral avança. Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência. O inquérito Dark Horse pode ter desdobramentos em pleno ciclo eleitoral — ou pode morrer de inanição, como tantos outros antes dele. Lulinha não é candidato a nada. Mas é filho de Lula. E isso, no STF de André Mendonça, basta para ter prioridade.
A Justiça brasileira não é lenta. É seletiva. Quando quer, é rápida. Quando não quer, é paciente. E quando o objeto da paciência é um Bolsonaro, a paciência tem nome, rosto e padrinho.






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