Dólar
R$ 5.13 Subiu
Euro
5.958 Subiu
Brasília
19°C 27°C 18°C

Explore Mais

Colunas exclusivas e conteúdos especiais

Brasil não está quebrando
Brasil não está quebrando: economista Jayati Ghosh (detalhe) desmonta a narrativa do colapso fiscal. Foto: FLIA com ILO Asia-Pacific
ECONOMIA

Brasil quebrou? Quem lucra com essa mentira?

Juros altos e corte de gastos é absurdo, diz economista global

O Brasil está vivendo uma mentira. E essa mentira está levando o país à autoflagelação. Há décadas, políticos de direita, economistas de mercado e colunistas de grandes veículos repetem o mesmo discurso: o país está quebrado, a dívida pública é explosiva, é preciso cortar gastos, arrochar salário, suspender investimentos e entregar superávit primário ao mercado financeiro. É uma narrativa tão repetida que virou senso comum. Mas é falsa. E quem diz isso não é um militante de esquerda nem um porta-voz de governo. É uma das maiores estudiosas do mundo sobre processos de desenvolvimento econômico.

A economista Jayati Ghosh, professora da Universidade de Massachusetts Amherst, esteve no Brasil em julho passado para participar do 7º International Workshop on Demand-Led Growth, que aconteceu num hotel em Copacabana, Rio. Saiu do evento atônita. O que ela viu nos indicadores brasileiros não combina com o que ouve na imprensa e nos discursos políticos.

“Este é um país que parece, na verdade, enormemente confortável do ponto de vista de ser capaz de afastar ameaças externas. Vocês não têm uma grande dívida externa. Na verdade, vocês quase não têm dívida externa. Vocês têm reservas muito grandes. Vocês têm uma inflação relativamente baixa. E têm uma razão dívida pública/PIB relativamente baixa. Vocês estão na metade inferior dos países em termos de razão dívida pública/PIB”, disse Ghosh.

A pergunta que ela faz é a pergunta que ninguém no establishment brasileiro quer responder: “No entanto, vocês dizem: ‘Ah, meu Deus, temos que ter um superávit orçamentário primário.’ Por quê? E dizem: ‘Temos que ter essas taxas de juros realmente altas.’ Por quê? Não faz sentido.”

O coro do apocalipse fiscal

Faz sentido se você é o mercado financeiro. O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga, hoje dono de gestora de investimentos, diz que “o quadro é desastroso”. Marcus Pestana, presidente da Instituição Fiscal Independente (IFI), órgão ligado ao Senado, diz que o Brasil tem uma dívida “explosiva”. O economista Fábio Giambiagi, da Fundação Getulio Vargas (FGV), defende revisão do Benefício de Prestação Continuada (BPC) e do salário mínimo. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), grita “O Brasil quebrou”. O senador neofascista aspirante à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), propõe “tesouraço” nos gastos. Colunistas de Estadão, Folha e O Globo amplificam o pânico diariamente.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) recomenda ajuste fiscal de 3 pontos percentuais do PIB até 2031. A IFI projeta dívida de 115% do PIB em 2036. Os números assustam. Mas escondem uma verdade: a dívida pública brasileira subiu principalmente por causa dos juros, não dos gastos. A Selic esteve em 15% ao ano. Nenhum país do mundo paga juros tão altos sobre a própria dívida. O custo financeiro do governo atingiu R$ 149 bilhões no primeiro semestre de 2026. Quem lucra com isso é o rentista, não o trabalhador.

A resposta que veio de fora

Ghosh desmonta a narrativa com simplicidade cirúrgica. “Isso é um legado, sabe, dos anos 1980, quando vocês tinham déficits muito grandes e uma inflação alta. É um mundo muito diferente. É um contexto muito diferente. Naquela época, valia a pena tentar estabilizar o orçamento. Agora, tudo o que vocês estão fazendo é atar as próprias mãos. É uma política muito masoquista.”

O Brasil de hoje não é o Brasil de 1989. Tem reservas internacionais de mais de US$ 350 bilhões. Tem inflação abaixo do teto da meta. Tem quase nenhuma dívida externa. Tem uma dívida pública que, segundo Ghosh, está “na metade inferior dos países”. Japão tem dívida acima de 250% do PIB. Itália, acima de 140%. Estados Unidos, acima de 120%. Ninguém nesses países fala em “país quebrado”. No Brasil, com 81,9% do PIB, fala-se em colapso.

A dor autoinfligida

A consequência do masoquismo fiscal é a paralisia. “Por que essa dor autoimposta em que vocês não investem? Agora vamos ver que vocês têm uma taxa de investimento realmente baixa. E uma grande parte disso é porque o setor público mal está investindo”, diz Ghosh. A taxa de investimento do Brasil está em torno de 16% do PIB, uma das mais baixas entre as economias emergentes. China investe 42%. Índia, 30%.

A professora explica o que a direita brasileira se recusa a aceitar:

“Porque, sabe, o investimento público atrai o investimento privado. Ele cria infraestrutura, fornece serviços e comodidades, gera demanda e melhora as condições de oferta. Isso é bem sabido agora. Quero dizer, todo mundo reconhece isso. Vocês têm espaço para fazer isso. Vocês não precisam ter um superávit orçamentário primário. Podem gastar muito mais em investimento, investimento público. E isso atrairia mais investimento privado, o que geraria mais crescimento.”

Canal no WhatsApp

Receba notícias da Frente Livre direto no celular.

A disputa em jogo

O governo Lula vem tentando sair dessa armadilha. Reduziu a Selic de 15% para 14% em quatro cortes consecutivos. A inflação caiu pelo segundo mês seguido. O Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) retomou investimentos em infraestrutura. O Desenrola Fies perdoou R$ 4 bilhões em dívidas estudantis. O Ministério da Educação (MEC) abriu novos campi. O Minha Casa Minha Vida voltou a construir. É a tentativa de reverter décadas de arrocho e devolver ao Estado brasileiro o papel de indutor do desenvolvimento.

Mas a extrema direita defende a mentira com unhas e dentes. Flávio Bolsonaro propõe amarrar a dívida da União ao endividamento das famílias. Tarcísio corta investimentos em São Paulo e culpa o governo federal. O Congresso, sob comando de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) e Hugo Motta (Republicanos-PB), engaveta pautas que beneficiam o trabalhador e libera as que beneficiam o capital. A imprensa econômica repete o discurso do FMI como se fosse palavra de Deus.

A engrenagem é clara. A narrativa do “Brasil quebrado” serve ao rentismo. Juro alto, dívida cara, corte de gasto público. Quem lucra é o especulador. Quem paga é o trabalhador. Ghosh, de fora, vê o que o establishment brasileiro finge não ver: o país tem espaço para investir, crescer e distribuir renda. Mas está com as mãos atadas por uma mentira que beneficia poucos e prejudica muitos. A pergunta que ela faz é a pergunta que o povo brasileiro deveria fazer: por que estamos causando todo esse dano a nós mesmos?

👀 Veja o vídeo com o posicionamento da professora Jayati Ghosh

 

View this post on Instagram

 

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Final da página
WhatsApp

Frente LIVRE

Normalmente responde dentro de uma hora
Frente LIVRE

Olá 👋

Fale com o ciberporto da esquerda popular ✊💡

20:57