O capital estrangeiro deixou a B3 em ritmo recorde neste mês. Levantamento da Elos Ayta Consultoria, com base em dados da própria Bolsa, aponta retirada líquida de R$ 15,63 bilhões até a última quinta-feira (13), o pior resultado mensal desde o início da série histórica, em janeiro de 2022. A saída em apenas nove pregões já supera todo o mês de maio, que até então era considerado o pior da série.
Antes que a Faria Lima e a grande imprensa transformem o dado em “voto de desconfiança no governo Lula”, vale a calma. O que está acontecendo é matemática cambial, não crise. E a direção do movimento diz muito mais do que os números isolados.
O rentista que foge quando os juros caem
A chave para entender a fuga está na política monetária, isto é, na taxa de juros praticada no Brasil. O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) cortou a Selic pela quarta vez consecutiva em 5 de agosto, de 14,25% para 14% ao ano. A inflação desacelerou: o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) subiu apenas 0,07% em julho, e a taxa em 12 meses caiu para 4,44%, abaixo do teto da meta de 4,50%.
Quando os juros caem, o capital especulativo que vivia do diferencial entre a Selic e os juros americanos — o chamado carry trade — deixa o país. É a operação em que o investidor pega dinheiro emprestado em dólar, onde os juros são baixos, e aplica no Brasil, onde os juros são altos, lucrando com a diferença. Com a Selic a 15%, o Brasil era um paraíso para o especulador. Agora que a Selic cai para 14% e deve continuar caindo, o diferencial encolhe e o capital de papel se retira.
O dólar sobe porque esse capital é convertido em real para entrar e em dólar para sair. É um ajuste natural do câmbio, não um voto de desconfiança na economia real.
A velocidade da fuga e a narrativa de Faria Lima
O que mais preocupa os analistas do setor é a velocidade. Enquanto maio somou seu resultado negativo ao longo de 21 pregões, agosto atingiu um patamar ainda pior em apenas nove sessões, sinal de que o movimento de saída ganhou força nas últimas semanas. O cenário é bem diferente do início do ano: entre janeiro e março, o fluxo estrangeiro foi positivo em todos os meses, somando R$ 26,31 bilhões, R$ 15,40 bilhões e R$ 11,66 bilhões, respectivamente. Julho também fechou no azul, com entrada de R$ 2,56 bilhões.
A partir de maio, a tendência se inverteu: depois dos R$ 13,28 bilhões retirados naquele mês, junho somou mais R$ 7,79 bilhões em saídas, e agosto, ainda incompleto, já superou os dois períodos anteriores. A grande imprensa, no entanto, transforma o ajuste cambial natural em crise política, atribuindo a alta do dólar à pesquisa que mostra Lula ampliando vantagem sobre Flávio Bolsonaro e ao rebaixamento do Brasil pelo JPMorgan.
Quando o trabalhador ganha, vira silêncio
A engrenagem é clara. O mercado chora o dólar a R$ 5,16 e ignora que a economia cresce, o desemprego cai e a inflação está controlada. A narrativa é a mesma de sempre: quando o rentista perde, vira notícia. Quando o trabalhador ganha, vira silêncio.
A saída de R$ 15,6 bilhões da B3 não é o Brasil indo mal. É o especulador indo embora porque o Brasil parou de pagar o preço da especulação. A queda dos juros, a inflação sob controle e o mercado de trabalho aquecido são conquistas da política econômica do governo Lula. Que o capital de papel chore. A economia real agradece.






Deixe seu comentário