A projeção de um consumo cada vez maior de energia elétrica pelo Paraguai, impulsionado por seu crescimento econômico e a proliferação de centros de dados (incluindo inteligência artificial) e mineração de criptomoedas – atividades de alto consumo energético -, coloca a usina hidrelétrica binacional de Itaipu diante de um dilema: ampliar em 10% o número de suas turbinas geradoras. Essa perspectiva, anunciada pelo diretor-geral brasileiro Enio Verri, é crucial para o Brasil, pois Itaipu fornece cerca de 9% da nossa energia.
Atualmente com 20 unidades geradoras, a Itaipu tem espaço físico para a construção de mais duas turbinas em sua estrutura, conforme detalhado por Verri. Essa possibilidade de expansão surge no momento em que o Paraguai se aproxima de consumir integralmente a energia a que tem direito, o que significaria o fim da venda do excedente ao Brasil.
Historicamente, essa dinâmica energética sempre foi complexa entre as duas nações, exigindo acordos e adaptações. O diretor-geral, no entanto, enfatizou que, embora a ampliação seja “inevitável” em termos de demanda, sua concretização exige amplos estudos técnicos, sociais e ambientais aprofundados, análise de viabilidade econômica e, crucialmente, um acordo democrático e transparente entre os governos e parlamentos de Brasil e Paraguai.
Essa necessidade de diálogo e consenso é um avanço significativo em comparação com a forma como grandes projetos, como a própria construção original de Itaipu em 1974, foram conduzidos durante o período da ditadura militar brasileira (1964-1985), quando os ativismos sociais eram brutalmente suprimidos e as comunidades afetadas tinham pouca ou nenhuma voz.
A usina de Itaipu, um gigante da engenharia localizada na fronteira entre Foz do Iguaçu (Paraná) e Ciudad del Este (Paraguai), possui hoje uma potência instalada de 14 mil megawatts (MW) com suas 20 unidades, cada uma contribuindo com 700 MW. É vital, contudo, compreender que um aumento de 10% no número de turbinas não se traduz automaticamente em um acréscimo linear de 10% na capacidade de geração. Avanços tecnológicos podem otimizar a produção, mas a complexidade do ecossistema e das comunidades circundantes exige uma abordagem mais cuidadosa.
“Uma coisa é você construir uma usina na ditadura militar. Outra coisa é você construir uma usina agora”, declarou Enio Verri, sublinhando a mudança de paradigma. Esta afirmação é um lembrete potente do compromisso do atual governo com a democracia, os direitos humanos e a participação social, em contraste direto com o autoritarismo e a desconsideração da vida humana que marcaram os regimes de extrema direita do passado.
A potencial ampliação levanta questões sérias, especialmente se ela implicar o aumento em um metro do nível máximo do reservatório do Rio Paraná, expandindo sua área alagada. Hoje, o reservatório abrange 1.350 quilômetros quadrados, estendendo-se por 170 km e comportando um volume máximo de 29 bilhões de metros cúbicos de água. Qualquer alteração nesse cenário tem impactos diretos e irreversíveis em comunidades ribeirinhas, ecossistemas e na vida de populações já vulneráveis.
“Nós temos comunidades, tem os efeitos sobre a população. Isso envolve um grande estudo estratégico porque envolve políticas ambientais, políticas sociais, as comunidades que serão atingidas versus a relação e benefícios que isso pode trazer à sociedade”, completou o diretor-geral.
Apesar da “inevitabilidade” da demanda energética, Verri ressalta que o projeto de expansão ainda não tem viabilidade econômica para sair do papel “hoje”. Ele não apontou um horizonte temporal para a concretização, mas afirmou que “no setor de energia, não existe curto prazo” e que estão “discutindo só a data em que estaremos maduros o suficiente para esse investimento”.
O financiamento para uma obra de tal magnitude, quando viável, seria buscado junto a instituições de fomento de longo prazo, como o Banco Mundial ou o BNDES. A sugestão de que o pagamento dessa dívida poderia vir de uma “taxa pequena” na tarifa de luz levanta um alerta crucial para todas as pessoas atentas à justiça social: qualquer custo associado a esse desenvolvimento deve ser distribuído de forma equitativa, sem onerar desproporcionalmente as famílias de baixa renda.
[CENÁRIO ATUAL VS. PROPOSTA DE NOVAS TURBINAS]
GERAÇÃO DE ENERGIA PARA O BRASIL
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Cenário Atual (20 turbinas):
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Aproximadamente 9% do consumo nacional.
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Cenário Proposto (+2 turbinas):
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Potencial de manutenção ou aumento da contribuição brasileira, considerando o consumo paraguaio crescente.
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POTÊNCIA INSTALADA
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Cenário Atual (20 turbinas):
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14.000 MW.
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Cenário Proposto (+2 turbinas):
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Aumento de 700 MW por turbina adicional (não linear à capacidade de geração final).
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CONSUMO DO PARAGUAI
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Cenário Atual (20 turbinas):
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Venda de excedente ao Brasil.
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Cenário Proposto (+2 turbinas):
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Projeção de consumo total do que lhes é de direito, eliminando excedente para o Brasil.
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IMPACTO SOCIAL E AMBIENTAL
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Cenário Atual (20 turbinas):
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Reservatório atual: 1.350 km², 29 bilhões m³.
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Cenário Proposto (+2 turbinas):
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Potencial aumento do nível do reservatório e área alagada, com impacto em comunidades e ecossistemas (requer estudos profundos).
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VIABILIDADE
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Cenário Atual (20 turbinas):
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Operação contínua.
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Cenário Proposto (+2 turbinas):
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Requer amplos estudos técnicos, sociais e ambientais, viabilidade econômica e acordo binacional. Hoje não viável economicamente.
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Fonte: Agência Brasil






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