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ECONOMIA

Daniel, que amava Ciro, que amava Flávia, que amava Ibaneis

Entenda a teia político-empresarial que fez o BRB, um banco público, injetar mais de R$ 16 bi para tentar salvar o banco do Centrão

A liquidação extrajudicial do Banco Master, decretada na quinta-feira passada (21) pelo Banco Central, é o capítulo final de uma crônica de colapso anunciado, construída sobre uma base de ativos duvidosos, manobras contábeis e, principalmente, uma intrincada teia de conexões políticas que garantiu o fluxo de bilhões em dinheiro público para sustentar a fraude. A queda da instituição, presidida por Daniel Vorcaro, expõe a promiscuidade entre o mercado financeiro e figuras ligadas ao bolsonarismo e a governos estaduais.

O Master ganhou notoriedade no mercado ao oferecer CDBs que pagavam juros altíssimos a quem os comprava. Nos bastidores, sua carteira se enchia de ativos de baixa liquidez e valor incerto. Esse movimento aconteceu durante o Governo Bolsonaro, entre 2020 e 2022, com uma doce complacência do Banco Central. Quando a conta começou a não fechar, com dívidas que chegaram a R$ 60 bilhões, a solução encontrada não foi ortodoxa: foi política.



O esquema BRB

A peça central do esquema foi o Banco de Brasília (BRB), controlado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB). O sócio de Vorcaro, Augusto Lima, é casado com Flávia Pérez, ex-ministra de Bolsonaro e figura próxima a Ibaneis, de quem foi candidata derrotada ao Senado nas eleições de 2022.

Entre 2024 e 2025, o BRB injetou R$ 16,7 bilhões no Master. A operação mais escandalosa foi a compra de carteiras de crédito que o Master havia adquirido de uma empresa de fachada chamada Tirreno por custo zero. Essas carteiras, de existência e valor questionáveis, foram revendidas ao BRB por R$ 12,2 bilhões. Destes, R$ 5,5 bilhões foram pagos como “prêmio”. Não se sabe até hoje exatamento o quê se estava premiando. 

Conexões no poder

A teia se estendia. Vorcaro mantinha proximidade com caciques do Centrão, como Ciro Nogueira (PP) e Antônio Rueda (União Brasil). No Rio de Janeiro, o fundo de pensão do estado, RioPrevidência, sob o governo de Cláudio Castro (PL), alocou R$ 2,6 bilhões em fundos administrados pelo conglomerado de Vorcaro — um quarto de todos os recursos dos servidores fluminenses. Os aportes continuaram mesmo após alertas do Tribunal de Contas do Estado.

O plano de “salvação” final era que o BRB adquirisse parte do Master, mas deixando o controle com Vorcaro, uma manobra para evitar o crivo da fiscalização pública. Em setembro, o Banco Central vetou a operação, selando o destino da instituição. Uma última tentativa de venda a investidores dos Emirados Árabes, vista por investigadores como uma manobra para facilitar a fuga de Vorcaro do país, foi o estopim para a intervenção do BC.

O caso Master não é apenas sobre um banco que quebrou. É o retrato de um sistema onde conexões políticas valem mais que balanços e o dinheiro público serve como fiador para a audácia de poucos.


Cronologia: Ascensão e queda do Banco Master

Fase 1: Crescimento exponencial e agressivo (2020 – 2022) 

Neste período, o Banco Master, ainda sob o nome de “Banco Máxima”, inicia uma expansão vertiginosa. A estratégia se baseia em dois pilares: a aquisição de outras instituições (como o Banco Ficsa) e a captação massiva de recursos via emissão de CDBs que pagavam taxas muito acima do mercado. Ao mesmo tempo, o banco se especializa em ativos de alto risco e baixa liquidez, como a compra de carteiras de crédito consignado e precatórios. Essa fase de crescimento acelerado e arriscado planta a semente da crise futura.


Fase 2: A bomba-relógio começa a ticar (2023 – 2024) 

Os CDBs emitidos na fase de crescimento começam a vencer, exigindo que o banco tenha liquidez para pagar os investidores. Contudo, seu dinheiro está “travado” em ativos de longo prazo e de difícil conversão. Para honrar os compromissos, o Master entra em uma espiral perigosa, precisando captar mais dinheiro para pagar dívidas antigas. É neste momento que as conexões políticas se tornam sua principal tábua de salvação.


Fase 3: Socorro com dinheiro público (2024 – 2025) 

Com a crise de liquidez batendo à porta, o Banco de Brasília (BRB), sob a gestão de Ibanez Rocha, injeta R$ 16,7 bilhões no Master, notadamente através da compra de carteiras de crédito de valor e existência questionáveis. Paralelamente, a RioPrevidência, no governo de Cláudio Castro, aloca R$ 2,6 bilhões em fundos do conglomerado de Vorcaro, utilizando recursos de servidores públicos para manter o banco de pé.


Fase 4: O veto e o colapso final (Setembro – Novembro de 2025)

    • Setembro: Sob nova administração indicada pelo governo Lula, o Banco Central (BC) veta a tentativa de compra do Master pelo BRB, cortando a principal fonte de socorro e selando o destino da instituição.
    • 20 de Novembro: Uma venda apressada para investidores árabes é anunciada, vista como manobra para a fuga de Daniel Vorcaro.
    • 21 de Novembro: O BC decreta a liquidação extrajudicial do banco, e a Polícia Federal prende Vorcaro.

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