A indignação com o uso de dinheiro público para socorrer uma instituição financeira privada está prestes a tomar a Praça do Buriti. Movimentos de oposição ao governo de Ibaneis Rocha (MDB) convocaram uma grande mobilização para amanhã (24), exigindo que o governador preste esclarecimentos sobre o papel do Banco de Brasília (BRB) no escândalo do Banco Master. O ato é uma resposta direta às revelações de que o banco público do Distrito Federal injetou bilhões de reais na instituição de Daniel Vorcaro, liquidada pelo Banco Central na última quinta-feira e investigada por fraude.
O escândalo não surgiu do vácuo. O Banco Master, após um período de crescimento artificial baseado na oferta de investimentos com juros insustentáveis, entrou em uma grave crise de liquidez. Foi nesse momento que o BRB, sob o comando do governo Ibaneis, entrou em cena. A operação mais danosa sob investigação é a compra de carteiras de crédito que o Master teria adquirido a custo zero. Essas carteiras, de existência e valor duvidosos, foram revendidas ao banco público do DF por R$ 12,2 bilhões, dos quais R$ 5,5 bilhões foram pagos como um suposto “prêmio”.
A teia de relações políticas que sustentou a operação é um dos pontos centrais da crise. O sócio de Daniel Vorcaro no Master, Augusto Lima, é casado com Flávia Pérez, ex-ministra do governo Bolsonaro, bastante próxima de Ibaneis Rocha e da vice-governadora Celina Leão. Essa proximidade, segundo os movimentos de oposição, explica a audácia do governo em usar o banco público como um balão de oxigênio para uma instituição privada atolada em dívidas e com notórias conexões com o bolsonarismo e o Centrão.
A manobra na Câmara Legislativa e a reação da Justiça
A cobrança dos manifestantes recai sobre a tentativa de Ibaneis de dar um verniz de legalidade à operação. O governador chegou a enviar um projeto à Câmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) que autorizava, de forma genérica, o BRB a adquirir participações em outras instituições financeiras. A medida foi vista como uma manobra para viabilizar a compra de parte do Banco Master pelo BRB, em uma transação estimada em R$ 2 bilhões.
A operação, contudo, foi suspensa pela Justiça, que apontou a falta de autorização legal específica e os graves indícios de irregularidades que já pairavam sobre o negócio. A decisão judicial, somada à posterior prisão de executivos do Master e ao afastamento de diretores do BRB, confirmou as suspeitas e intensificou a crise política. Uma auditoria externa foi contratada para apurar a dimensão do rombo e determinar o quanto do patrimônio dos cidadãos do Distrito Federal foi colocado em risco para beneficiar o banco de Vorcaro.
Para os líderes dos movimentos que convocam o ato, o silêncio de Ibaneis Rocha é insustentável. “Não estamos falando de uma operação de mercado qualquer. Estamos falando do uso do nosso banco público, do nosso dinheiro, para socorrer um banco privado envolvido em um esquema fraudulento e com profundas ligações políticas. O governador deve explicações à sociedade”, afirma o manifesto de convocação. O protesto de segunda-feira é o primeiro passo para garantir que o escândalo não termine, como tantos outros, sem responsáveis e sem a devida reparação aos cofres públicos.






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