Impeachment presidencial: freio ou arma política?

Entenda como funciona o impeachment presidencial, quais crimes o justificam e por que o ri

Impeachment presidencial: freio ou arma política?

Um impeachment presidencial não começa com um panelaço, uma hashtag ou um deputado em busca de câmera. Começa, em tese, com uma acusação de crime de responsabilidade. Na prática, porém, ele só avança quando direito, correlação de forças e interesses de poder passam a marchar juntos. É por isso que tratar o mecanismo como simples solução para qualquer crise política é receita para enfraquecer a democracia em nome de uma aparência de legalidade.

O Brasil conhece bem esse terreno. Fernando Collor caiu em 1992, em meio a denúncias de corrupção e mobilização popular massiva. Dilma Rousseff foi afastada em 2016 por acusações fiscais, em um processo atravessado por uma crise econômica, uma ofensiva parlamentar e midiática e uma elite política que logo mostrou o tamanho de sua hipocrisia. Não se trata de apagar as regras do processo. Trata-se de enxergar que regra alguma funciona fora da disputa de poder.

O que é impeachment presidencial, afinal?

O impeachment é um processo político-jurídico para responsabilizar e, eventualmente, retirar do cargo o presidente da República por crime de responsabilidade. Ele não é uma eleição antecipada, nem um botão de emergência para quando o governo decepciona parte da população. Presidente impopular não é automaticamente presidente criminoso. Se fosse assim, qualquer maioria ocasional no Congresso poderia transformar desagrado em deposição.

A Constituição estabelece que crimes de responsabilidade são atos do chefe do Executivo que atentem contra a própria ordem constitucional. Entram nesse campo, por exemplo, ataques à existência da União, ao livre funcionamento dos Poderes, ao exercício dos direitos políticos e sociais, à segurança interna, à probidade administrativa, à lei orçamentária e ao cumprimento das leis e decisões judiciais.

A definição parece ampla porque envolve a proteção das instituições. Mas amplitude não pode virar vale-tudo. Para afastar um presidente eleito por milhões de pessoas, é preciso apontar fatos concretos, enquadramento legal e responsabilidade direta. Do contrário, o impeachment vira uma ferramenta de chantagem permanente nas mãos de um Congresso muitas vezes capturado pelo fisiologismo, pelo orçamento secreto de ontem ou pela próxima engrenagem opaca de distribuição de poder.

Como funciona o rito do impeachment presidencial

Qualquer cidadão pode apresentar uma denúncia à Câmara dos Deputados. Isso não significa que toda petição abre um processo. O presidente da Câmara decide se aceita ou arquiva o pedido, um poder enorme que costuma ser exercido sob intensa pressão política.

Se a denúncia for aceita, uma comissão analisa o caso e o plenário da Câmara decide se autoriza a abertura do processo no Senado. Para isso, são necessários os votos de dois terços dos deputados: 342 dos 513. É uma barreira alta, como deve ser. A destituição de um mandato presidencial não pode depender de uma maioria simples formada em uma tarde de negociação de cargos.

Com a autorização da Câmara, o processo segue para o Senado. Ali, os senadores decidem inicialmente se instauram o julgamento. Se aceitarem, o presidente pode ser afastado por até 180 dias. No julgamento propriamente dito, presidido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal quando o acusado é o presidente da República, são necessários dois terços do Senado para condenar: 54 votos entre 81 senadores.

A condenação leva à perda do cargo e pode resultar em inabilitação para exercer função pública por oito anos. Não é uma pena criminal comum. Eventuais crimes como corrupção, fraude ou tentativa de golpe podem e devem ser investigados também nas instâncias judiciais adequadas. Misturar tudo ajuda quem quer vender espetáculo no lugar de justiça.

O Congresso julga, mas não pode inventar crime

Há uma verdade incômoda nesse rito: o julgamento é político. Deputados e senadores votam, e suas decisões refletem alianças, pressões sociais, interesses regionais e cálculos eleitorais. Fingir que parlamentares se tornam juízes neutros ao apertar um botão é infantilidade ou má-fé.

Mas reconhecer o componente político não significa aceitar arbitrariedade. A política precisa operar dentro de uma moldura constitucional. O Congresso não pode fabricar um crime de responsabilidade porque deseja trocar o ocupante do Palácio do Planalto, nem pode tratar uma divergência sobre política econômica como infração passível de cassação.

Esse equilíbrio é difícil. Um presidente que usa a máquina pública para atacar eleições, sabotar instituições, esconder crimes ou estimular violência política não pode se blindar atrás do voto recebido. Ao mesmo tempo, um governo eleito não pode ser derrubado porque bancos, grandes grupos de mídia ou caciques partidários decidiram que seu programa social ficou incômodo demais.

O fantasma de 2016 ainda explica muita coisa

O processo contra Dilma Rousseff deixou uma ferida aberta porque expôs, de forma escancarada, o abismo entre formalidade jurídica e legitimidade democrática. O impeachment foi conduzido sob a alegação de manobras fiscais, enquanto figuras centrais da articulação contra a presidenta apareciam envolvidas em acusações muito mais graves – e, ainda assim, posavam de guardiãs da moralidade.

A cena do então deputado Jair Bolsonaro dedicando seu voto ao torturador Carlos Brilhante Ustra sintetizou a degradação daquele momento. Uma decisão que deveria exigir sobriedade institucional virou palanque para homenagem à ditadura. Depois veio Michel Temer, com uma agenda rejeitada nas urnas, aprofundando reformas contra trabalhadores e abrindo caminho para o ambiente de devastação social e autoritária que alimentou o bolsonarismo.

Dizer que 2016 foi apenas a aplicação fria da lei ignora o contexto. Dizer que todo impeachment é, por definição, golpe também impede uma discussão séria sobre responsabilidade presidencial. A lição mais honesta é outra: mecanismos constitucionais podem ser usados de modo formalmente ritualizado e politicamente fraudulento quando instituições, elites econômicas e aparelhos de comunicação atuam para substituir a vontade popular por uma rearrumação de poder.

Quando o impeachment protege a democracia

O impeachment faz sentido quando há evidências consistentes de crimes de responsabilidade graves e quando o processo preserva contraditório, defesa e transparência. Ele é um freio constitucional contra governantes que tentam se colocar acima das regras do jogo.

Esse ponto ganhou peso depois da experiência bolsonarista. A gestão da pandemia, os ataques sistemáticos às urnas eletrônicas, a sabotagem de medidas de proteção, a propaganda anticientífica e a cumplicidade política com aventuras golpistas mostraram o estrago que um presidente pode causar quando transforma o Estado em trincheira ideológica da extrema direita. Pedidos de impeachment não faltaram. Faltou, durante boa parte daquele período, disposição da cúpula da Câmara para deixar o rito caminhar.

Isso também é uma lição: a existência do instrumento não garante sua aplicação. Presidentes da Câmara podem engavetá-lo, partidos podem negociar proteção e setores empresariais podem tolerar abusos enquanto seus interesses estão preservados. A democracia não se defende sozinha por meio de artigos constitucionais. Ela depende de mobilização social, imprensa livre, organizações populares, Justiça independente e memória histórica.

Nem atalho para crise, nem tabu intocável

Há quem trate impeachment como solução milagrosa para toda frustração com o governo. Há também quem o trate como uma palavra proibida, mesmo diante de ataques evidentes à Constituição. As duas posições erram porque fogem da pergunta central: que fato foi cometido, qual regra foi violada e qual interesse está movendo a ofensiva?

A democracia brasileira precisa ser firme contra golpistas, mas igualmente firme contra golpes com gravata, rito televisionado e discursos vazios sobre responsabilidade fiscal. Defender o mandato popular não é defender impunidade. É exigir que uma ruptura tão grave tenha prova, devido processo e legitimidade social, e não apenas a contabilidade de um Centrão farejando vantagem.

A melhor vigilância não é a que grita por impeachment a cada manchete, nem a que fecha os olhos para abusos de poder. É a que cobra instituições funcionando, informação verificável e compromisso real com o voto popular. Quando a democracia vira moeda de troca, quem paga a conta quase nunca é quem está no plenário: é o povo.