Reforma trabalhista e o preço da precarização

A reforma trabalhista de 2017 prometeu emprego, mas ampliou a precarização. Veja seus efei

Reforma trabalhista e o preço da precarização

Em 2017, venderam a reforma trabalhista como uma espécie de remédio milagroso: bastava cortar direitos, enfraquecer sindicatos e dar mais poder às empresas que os empregos apareceriam aos montes. A promessa era uma. A conta chegou em outra moeda: insegurança, renda instável e trabalhadores cada vez mais sozinhos diante de patrões, plataformas e um mercado que trata gente como custo a ser espremido.

A Lei nº 13.467, aprovada no governo Michel Temer após o impeachment de Dilma Rousseff, não foi um ajuste técnico da CLT. Foi uma escolha política. Em nome de uma alegada modernização, alterou mais de uma centena de dispositivos da legislação trabalhista e deslocou o equilíbrio das relações de trabalho para o lado de quem já detém poder econômico.

O que a reforma trabalhista mudou de verdade

A reforma entrou em vigor em novembro de 2017 e mexeu em temas centrais: negociação coletiva, jornada, remuneração, acesso à Justiça e formas de contratação. Seus defensores repetiam que a CLT era velha, rígida e inimiga do emprego. Curioso: o problema nunca foi a idade de uma lei, mas a resistência de setores empresariais em reconhecer que lucro não pode ser construído sobre a exaustão e a vulnerabilidade de quem trabalha.

Uma das mudanças mais emblemáticas foi o princípio do chamado “negociado sobre o legislado”. Em várias matérias, acordos e convenções coletivas passaram a poder prevalecer sobre a lei, incluindo jornada, banco de horas, intervalo intrajornada e plano de cargos. Na propaganda, parecia valorização da negociação. Na vida real, negociação só é livre quando os dois lados têm força parecida. Um trabalhador isolado, ou um sindicato sufocado financeiramente, não negocia de igual para igual com uma grande empresa.

Também foram ampliadas formas de contratação mais frágeis. O trabalho intermitente permitiu que a pessoa fosse convocada apenas quando a empresa precisasse, recebendo pelas horas ou dias efetivamente trabalhados. Na prática, isso transforma a renda em uma loteria. O trabalhador precisa manter disponibilidade, mas não tem garantia de jornada, salário suficiente ou previsibilidade para organizar aluguel, comida, transporte e a própria vida.

A terceirização, que já avançava antes da reforma, ganhou terreno em atividades centrais das empresas. O resultado costuma ser conhecido: salários menores, maior rotatividade, condições mais precárias e dificuldade para organizar coletivamente quem exerce a mesma função em uma mesma fábrica, escola, hospital ou escritório, mas aparece no crachá de empresas diferentes.

A promessa de empregos não se confirmou

A ideia de que retirar direitos automaticamente gera postos de trabalho é uma das fábulas favoritas do receituário neoliberal. Empresa contrata quando há demanda por bens e serviços, crédito, investimento e perspectiva de crescimento. Não é a redução do intervalo de almoço ou a ameaça de uma ação trabalhista que cria mercado consumidor.

Nos anos posteriores à reforma, o país não viveu um salto estrutural de empregos formais por causa dela. Houve oscilações ligadas ao ciclo econômico, à pandemia, à recuperação posterior e às políticas públicas, mas a informalidade continuou sendo um traço brutal do mercado de trabalho brasileiro. Cresceram também ocupações sem proteção adequada, especialmente em plataformas de entrega, transporte e serviços por aplicativo.

A reforma não inventou a precarização, claro. Ela já fazia parte de um país marcado por desigualdade racial, salarial e regional. Mulheres, pessoas negras e jovens sempre enfrentaram barreiras maiores para conseguir trabalho decente. O que a lei de 2017 fez foi oferecer uma moldura jurídica mais amigável para a transferência de riscos das empresas para o colo de quem depende do salário.

Quando uma trabalhadora não sabe quanto vai receber no mês, quando um entregador arca com bicicleta, celular, combustível e acidente, ou quando um terceirizado é dispensado a cada troca de contrato, a suposta flexibilidade tem nome: insegurança. E insegurança não é liberdade.

O ataque aos sindicatos foi parte do projeto

Outro ponto decisivo da reforma trabalhista foi o fim da contribuição sindical obrigatória. O imposto sindical tinha problemas reais e não merece nostalgia automática: havia estruturas burocráticas, pouca transparência e sindicatos distantes de suas bases. Mas retirar, de uma vez, a principal fonte de financiamento de entidades sem criar um modelo sólido de custeio aprovado democraticamente pelos trabalhadores foi uma operação com alvo evidente.

Sindicatos fortes incomodam porque organizam greves, pressionam por reajustes, fiscalizam abusos e tornam visível aquilo que o discurso meritocrático tenta esconder: salário e direitos são resultado de conflito social, não de generosidade patronal. Enfraquecer a organização coletiva foi uma forma de baratear a força de trabalho sem precisar anunciar isso em letras garrafais.

Há uma diferença fundamental entre reformar o sindicalismo e desmontá-lo. O primeiro caminho exige democracia interna, prestação de contas, presença nos locais de trabalho e participação de categorias precarizadas. O segundo interessa a quem quer empregados individualizados, com medo de reclamar e agradecendo por não terem sido substituídos por outro CPF disponível.

Justiça do Trabalho virou terreno mais hostil

A reforma também tentou desestimular processos trabalhistas. Criou regras de honorários sucumbenciais e custos que passaram a assustar trabalhadores de baixa renda. Afinal, quem se arriscaria a cobrar horas extras, assédio ou verbas rescisórias se uma derrota parcial pudesse virar dívida?

O Supremo Tribunal Federal corrigiu parte desse ataque ao afastar, em 2021, a cobrança automática de honorários periciais e advocatícios de beneficiários da justiça gratuita que não tivessem créditos suficientes em outro processo. Foi uma contenção importante, mas não apagou o efeito político da mudança: espalhar a mensagem de que recorrer à Justiça seria abuso ou aventura.

Isso inverte a realidade. A maioria das ações trabalhistas não nasce de capricho. Nasce de salário atrasado, demissão sem pagamento correto, jornada fraudada, adoecimento, discriminação e direitos básicos negados. Tratar a Justiça do Trabalho como inimiga da economia é repetir a conversa de quem acha que cumprir a lei é um obstáculo ao negócio.

Nem tudo se resolve com uma canetada

A crítica à reforma não exige fingir que a CLT de antes de 2017 resolvia todos os problemas. Não resolvia. O mundo do trabalho mudou, as plataformas digitais desafiam as categorias tradicionais e parte da estrutura sindical precisa ser democratizada. A questão é: adaptar direitos ou adaptar pessoas à exploração?

Uma revisão séria precisa combinar proteção e realidade concreta. Isso inclui reconhecer direitos para trabalhadores de aplicativos, combater a fraude do falso autônomo, limitar contratos que deixam pessoas em permanente prontidão, reforçar a inspeção do trabalho e recuperar a capacidade de negociação coletiva. Também exige políticas econômicas que gerem emprego de qualidade, porque direito trabalhista sem desenvolvimento vira promessa em folha de papel.

É preciso atenção ao debate sobre a jornada. Reduzir horas de trabalho sem redução salarial, enfrentar escalas desumanas e ampliar o tempo de descanso não são extravagâncias. São medidas de saúde, dignidade e distribuição de produtividade. O trabalhador brasileiro não precisa trabalhar mais para provar seu valor. Precisa trabalhar melhor, com renda capaz de sustentar a vida.

Reforma trabalhista: quem pagou a conta?

A resposta não é abstrata. Pagou a conta quem passou a conviver com renda picotada, quem perdeu poder de barganha, quem deixou de procurar a Justiça por medo e quem se viu obrigado a aceitar qualquer condição para sobreviver. E pagou também a sociedade, porque precarização reduz consumo, adoece famílias, sobrecarrega serviços públicos e aprofunda desigualdades.

Os defensores da reforma costumam chamar isso de modernidade. Mas modernidade de verdade seria usar tecnologia e ganhos de produtividade para ampliar bem-estar, não para ressuscitar relações de trabalho em que só um lado escolhe as regras. Não há inovação em trocar carteira assinada por incerteza, nem eficiência em transformar descanso em privilégio.

Reverter danos não significa copiar o passado. Significa recolocar uma ideia simples no centro da política: trabalho não é mercadoria, e quem produz a riqueza do país merece voz, salário justo, tempo para viver e proteção quando o mercado decide virar as costas. Essa disputa não termina no Congresso. Ela passa pelo local de trabalho, pelos sindicatos, pelas ruas e pela recusa coletiva em aceitar precariedade como destino.