Ferve em Brasília uma intensa guerra de bastidores envolvendo a liquidação do Banco Master. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, foi arrastado para o campo de batalha. Não por acaso. Sua esposa tem ou teve um apetitoso contrato de R$ 129 milhões para dar assessoria jurídica ao Master, que, sabe-se, era um encrencado e fraudador membro do sistema financeiro nacional. Xandão, é o que se diz e ele nega, andou por aí tentando salvar o Master da caneta liquidadora do Banco Central.
O pulo do gato é: quem ataca Xandão está fazendo força para manter a liquidação, que é questionada pelo ministro Dias Toffoli, colega do primeiro no STF. Ninguém ousou ainda falar abertamente, é um assunto que vem sendo tratado apenas quando os microfones estão desligados na capital. Mas a pergunta é: se revertida a liquidação e um ressuscitado Master for finalmente vendido, o que aparecerá nas milhares de operações de tesouraria apropriadas pelo novo dono?
Frente Livre vai descrever em seguida a hipótese mais inflamável com que se trabalha nos bastidores. Trata-se de uma trama fraudulenta conhecida no mundo da auditoria financeira como Jogo de Espelhos. Consiste em um Banco A vender pelo valor de face um título de crédito a um Banco B, sendo que ambos sabem que aquele papel vale 10% ou menos.
Por que eles fariam isso? Qual a vantagem para cada um dos lados nesse tipo de negócio?
1. “Maquiagem” de balanço e ocultação de prejuízo (para o Banco A)
Este é o motivo mais comum. O Banco A tem um ativo em seu balanço registrado por R$ 10. Devido à deterioração do crédito, ele sabe que o valor real é apenas R$ 1.
- O problema: Se o Banco A “marcar a mercado” esse ativo, ele precisa reconhecer uma perda de R$ 9 em seu resultado. Isso impacta negativamente o lucro do trimestre/ano, afeta bônus de executivos, derruba o valor das ações e levanta bandeiras para reguladores e investidores.
- A “solução” fraudulenta: O Banco A combina com o Banco B a “venda” do ativo pelo valor de face de R$ 10. Contabilmente, o Banco A se livra do ativo sem registrar nenhuma perda. A transação sai como: Valor de Venda (R$ 10) – Valor Contábil (R$ 10) = R$ 0 de perda. O problema (o prejuízo de R$ 9) foi magicamente transferido para o Banco B.
2. Geração de lucro artificial (variação do Ponto 1)
Pior ainda, se o Banco A comprou o título originalmente por um valor abaixo de R$ 10 (digamos, R$ 8), a venda por R$ 10 cria um lucro artificial de R$ 2. Isso transforma uma perda real e massiva em um ganho fictício, enganando completamente o mercado.
3. Transferência de problema para o futuro (“pedalada”)
A gestão atual do Banco A quer a todo custo evitar o registro da perda em seu mandato. Ao vender para o Banco B, eles adiam o problema. O prejuízo de R$ 9 ainda existe, mas agora está escondido no balanço de outra instituição. A expectativa é que o problema só venha à tona no futuro, quando o Banco B for vendido, por exemplo.
A pergunta crucial: por que o Banco B aceitaria?
O Banco B não está fazendo caridade. Ele só aceitaria participar dessa farsa se houvesse uma “operação casada” ou um acordo por baixo dos panos. O Banco B está sendo compensado de alguma forma. As possibilidades incluem:
- Recebimento de “pedágio”: O Banco A paga uma comissão (em dinheiro ou através de outros negócios) para o Banco B “fazer o favor” de segurar o ativo podre por um tempo.
- Troca de favores: O Banco B também tem seus próprios “esqueletos” no balanço. O acordo pode ser: “Eu compro o seu ativo podre hoje se você comprar o meu no próximo trimestre”. Ambos se ajudam a manipular seus resultados.
- Outros negócios vantajosos: O Banco A pode oferecer ao Banco B condições extremamente favoráveis em outras transações legítimas (empréstimos com juros subsidiados, taxas de serviço preferenciais, etc.) como forma de compensação pela perda que o Banco B terá que assumir.
- Lavagem de dinheiro: Embora mais complexo, a transação pode ser um pretexto para movimentar grandes quantias de dinheiro entre as instituições para fins ilícitos, usando o título sem valor como justificativa documental.
Nesta hipótese meramente esplanativa, o banco B seria o Master. Quem quer que seja o Banco A, sua revelação cairia como uma bomba no sistema financeiro nacional.






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