Depois da porta arrombada, STF passa o cadeado

Cármen Lúcia relata Código de Ética com dois ministros suspeitos de corrupção

código de ética do STF
Edson Fachin, presidente do STF, ainda precisa vencer resistência de outros ministros. Foto: Antonio Augusto/STF

O Supremo Tribunal Federal finalmente resolveu elaborar um anteprojeto de código de ética para seus ministros. A novidade, apresentada pelo presidente da Corte, Edson Fachin, chega com atraso e num momento em que o tribunal tenta responder à própria crise de credibilidade. O texto deve ser relatado por Cármen Lúcia e pode até ser votado ainda neste ano.

A proposta pretende estabelecer regras para temas que, até agora, ficaram no terreno da autorregulação: participação de ministros em eventos e palestras bancadas por empresas com processos no STF, atuação de parentes de ministros em escritórios de advocacia que litigam na Corte e outras situações sensíveis que há muito alimentam suspeitas sobre os limites entre julgamento, influência e interesses privados.

O anúncio não nasceu no vazio. Ele ocorre em meio às investigações do Banco Master e às citações envolvendo os nomes de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Moraes negou ter conversado com Daniel Vorcaro, enquanto Toffoli se retirou da relatoria de um inquérito após reportagens apontarem que a empresa dele, a Maridt, que detinha participação societária no resort Tayayá, no Paraná, recebeu dinheiro do fundo Clava Fort, pertencente a Fabiano Zettel, pastor da Igreja da Lagoinha e cunhado de Daniel Vorcaro.

Em qualquer corte minimamente séria, esse tipo de ruído já bastaria para ter sido tratado antes. No STF, aparentemente, virou estímulo para começar a escrever regras.

Fachin diz que conversa com os demais ministros para reduzir resistências internas. E é aqui que o retrato fica mais incômodo: a Corte que julga o país agora discute, com muita cautela, se seus ministros devem ou não avisar previamente sobre palestras e situações que configurem conflito de interesses. É quase poético — se não fosse trágico — que o tribunal precise descobrir, depois de décadas de poder sem contrapeso, que conflito de interesse não se resolve no improviso.

Um código de ética para corrigir o óbvio

O anteprojeto é um reconhecimento tardio de que a confiança pública no Supremo não se sustenta apenas com solenidade, toga e discurso sobre institucionalidade. Quando ministros circulam por ambientes privados, acumulam relações políticas e veem parentes atuando em escritórios com interesses no próprio tribunal, o problema deixa de ser formal e passa a ser estrutural.

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