A bolsa brasileira fechou esta segunda-feira (26) em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, e o dólar subiu 8,21%, a R$ 5,403 — maior alta diária desde janeiro de 1999. A B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde 2020. O volume negociado foi de R$ 88,6 bilhões, contra média diária de R$ 25 bilhões. Quer saber o que houve? A gente responde: bets. Não aqui, porque estão proibidas. Mas nos EUA.
A aposta que virou pânico
Vamos por partes, porque a explicação é mais simples do que o pânico sugere.
Numa plataforma de apostas chamada Polymarket — proibida no Brasil desde abril de 2026 por decisão do Conselho Monetário Nacional (CMN) e bloqueada pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) —, o mercado dava 89% de chance de vitória a Flávio Bolsonaro em 9 de outubro. No sábado (24), 80,2% de apostas na vitória do fascista. Na manhã do domingo, quando começou a movimentação de eleitores para as urnas no segundo turno, 79,6%.
Às 17h, quando o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), prorrogou a votação, Lula subiu de 28% para 34%. Flávio caiu para 66,1%. O volume total negociado na página da eleição brasileira passou de US$ 202 milhões (aproximadamente R$ 1 bilhão).
O dinheiro que entrou antes
O fluxo cambial prova o movimento. Entre 5 e 9 de outubro, logo após Flávio liderar o primeiro turno, entraram no país US$ 4,127 bilhões pelo canal financeiro — a maior entrada semanal da série histórica do Banco Central para o período pós-primeiro turno.
Em outubro, o capital estrangeiro aportou R$ 20,15 bilhões na B3, com recorde de R$ 10 bilhões apenas no dia 5. O Ibovespa subiu 6,9% e o dólar caiu 4,4%.
Todo esse dinheiro estava posicionado numa aposta. Quando a aposta morreu, o dinheiro teve que sair — e a saída se chama desmonte de posições. Quem trouxe o dinheiro pra cá, estava apostando alto na vitória de Flávio. Quando começou a ficar claro que ele iria perder, os apostadores começaram a fazer apostas na vitória de Lula. Assim, perdiam nas de Flávio, mas zeravam parte das perdas com as de Lula. Para isso, precisaram de dinheiro. Tiraram daqui, vendendo as ações que haviam comprado (daí a queda na bolsa) e levaram para lá (daí a alta na taxa de câmbio).
A conta que sobrou para você
A queda de 13,88% não significa que o Brasil ficou 13,88% mais pobre em um dia. Significa que quem apostou contra o voto popular correu para vender ao mesmo tempo. Juros futuros subiram até 280 pontos-base, o risco-Brasil avançou 18%, e empresas endividadas sentiram primeiro.
É sempre assim: o lucro da aposta é privado, o prejuízo da correção é socializado. O mercado errou e quem paga é o trabalhador que nunca especulou nada.
O que o mercado escondeu
Flávio prometeu cortar R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões. Nunca explicou de onde. A coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, foi questionada sobre como chegaria a 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) e respondeu à Folha de S.Paulo: “Eu não sou a Mãe Dináh”.
O mercado confiou numa planilha que não existia. A urna respondeu.

