A armadilha que Lula montou no debate da Band fechou nesta terça (20). Em São Luís, o presidente anunciou que seus advogados estavam, naquele momento, entregando em Brasília a autorização de quebra de sigilo — dele, dos cinco filhos e da primeira-dama Janja — ao Tribunal Superior Eleitoral e ao Supremo Tribunal Federal. Desafiado a fazer o mesmo, Flávio Bolsonaro respondeu com um silêncio constrangedor. A internet está tomada por posts com a hashtag #AbreoSigiloFlavio.
Os meus advogados estão lá em Brasília, no Supremo Tribunal Federal, entregando um documento meu, pedindo a quebra do meu sigilo bancário e telefônico, e exigindo que o Bolsonaro faça o mesmo. O meu e o dos filhos, da Janja. E que ele faça também da família dele, o pai dele que está preso”, disse Lula.
E o golpe final na retórica adversária veio na segunda (19), e não veio do presidente: veio do próprio Lulinha, o filho do presidente que a extrema direita pixa de corrupto diariamente. Marco Aurélio de Carvalho, advogado de Fábio Luís Lula da Silva, confirmou à CNN Brasil que colocou os sigilos fiscal, bancário e telemático do filho do presidente à disposição do ministro André Mendonça, do STF — relator de um dos três inquéritos da PF que investigam Fábio Luís por suspeitas de tráfico de influência e corrupção.
Eu estou pedindo para o seu advogado levar ao conhecimento da Polícia Federal e do ministro André Mendonça, que é relator de um dos inquéritos, a sua disposição voluntária e espontânea de abrir o seu sigilo fiscal, bancário e telemático”, relatou Carvalho, reproduzindo a conversa com Lula.
Carvalho foi a Brasília, reuniu-se com o ministro e disse que estava ali “para abrir as contas do Fábio, para colocar o Fábio à disposição da Justiça, para prestar qualquer esclarecimento”.
Pare nessa frase e reveja a campanha inteira. O homem que Flávio Bolsonaro usou como espantalho de corrupção em todos os debates entregou voluntariamente os próprios sigilos ao relator que o investiga. O homem que chama os outros de corruptos com a palavra escrita na palma da mão não responde ao desafio de fazer o mesmo, nem com os sigilos dele, nem das empresas, nem da família. O escudo que protegia o flanco adversário virou espelho — e no espelho está quem cala.
>> Relatório da PF: Lulinha é inocente da acusação de corrupção
A régua honesta para os dois lados
Aqui está o padrão que separa esta casa da campanha adversária: a entrega de sigilo não é prova de inocência — é prova de coragem. Fábio Luís segue investigado pela PF em três inquéritos (dois sob relatoria de Mendonça, um de Flávio Dino), e quem abre o sigilo o faz para que a Justiça apure tudo. É exatamente o mesmo rigor que vale para o outro lado: se Flávio abrir o dele, que seja apurado também. A diferença está no gesto: um se coloca à disposição da Justiça; o outro não dá uma resposta, há dois dias, a uma proposta que ele mesmo dizia querer (“não ter absolutamente nada a esconder”, declarou no debate). Quem nada tem a esconder assina em duas linhas. Quem assina em duas linhas não precisa de cinco dias.
O que Lula pede é a chave do cofre
Repare no detalhe que passa despercebido no barulho: o sigilo que Lula cobra é o da pessoa física e da pessoa jurídica — “Eu quero ver se ele tem coragem de abrir o sigilo bancário dele, o sigilo telefônico dele. Ou seja, da pessoa física e da pessoa jurídica”, disse em São Luís. E “Vamos ver se ele tem coragem de abrir a vida secreta dele”.
Pessoa jurídica. É aí que o desafio encosta no dossiê tijolo por tijolo: a Alcazar Holdings, a offshore da Ilha da Madeira cuja conta tinha Flávio como “usuário master”; a RioPag, controlada pelo sócio Willer Tomaz “por meio de laranjas” com exclusividade da Loterj; a empresa de Tomaz que pagou os voos pessoais do candidato para a Europa; a mansão de ~R$ 10 milhões, à vista; o áudio dos US$ 24 milhões cobrados de Vorcaro para o filme do pai. Cada um desses tijolos passa por uma conta de pessoa jurídica. A quebra formal que Lula propõe é o atalho do jornalismo de investigação para a jurisdição da Justiça Eleitoral e do STF — com prazo, competência e força de execução.
No SBT, na segunda, Lula foi mais direto: “Vamos quebrar os sigilos bancário, civil e jurídico. Vamos quebrar o sigilo telefônico. Eu tô cansado, nesse país, de falar em corrupção e terminam as eleições e nada é apurado. Mas agora estou desafiando meu adversário: você, que é um miliciano, você, que está provado, sabe, a quantidade de mentira, porque só no caso Vorcaro você mentiu 43 vezes dizendo que não conhecia o Vorcaro e aí aparece numa foto comendo churrasco com ele, você no avião dele.” E completou: “Eu e minha família estamos preparando uma procuração para entregar ao Ministério Público, no Tribunal Superior Eleitoral e na Suprema Corte. Eu quero que você, da sua família, você, seus irmãos. Vamos deixar investigar para deixar saber onde é que está a corrupção nesse país.”
O silêncio custa caro onde decide a eleição
E há um número que explica por que o desafio é jogada de campanha de primeira grandeza. A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça mostra que, entre os eleitores não polarizados — o segmento que a própria Nexus define como quem não se identifica com posições antilulistas, antipetistas ou antibolsonaristas, e que pode ser decisivo no segundo turno — a rejeição de Flávio supera a de Lula: 44,1% dizem que não votariam de jeito nenhum no candidato do PL, contra 42,2% que descartam o presidente. No voto exclusivo desse grupo, Lula lidera por 35,1% a 31% — quatro pontos e uma décima de vantagem. Ainda há 21,4% de não polarizados que poderiam votar em Flávio e 20,1% que poderiam votar em Lula — o bloco flutuante em disputa.
No eleitorado total, os números são apertados: rejeição de 47,8% para Lula e 46,9% para Flávio; voto exclusivo de 42,5% e 41,4%. Ou seja: a eleição se decide nos não polarizados, e é exatamente neles que Flávio está pior. Cada dia de silêncio diante do desafio “abre o sigilo” atinge em cheio esse segmento — o eleitor moderado não tolera quem grita “corrupto” com a mão esticada e foge da única prova que interessa. Flávio, no debate, respondeu com ironia (que Lula “não usa celular”) e contra-atacou cobrando explicações sobre a lobista Roberta Luchsinger, investigada junto com Fábio Luís no caso INSS — a mesma Luchsinha cujo sigilo agora pode ser quebrado no mesmo pacote de apurações, com o Lulinha à disposição da Justiça.
Cinco dias: quem abre e quem cala
Faltam cinco dias para o segundo turno. O tabuleiro está assim: o sigilo do incumbente, da esposa e dos cinco filhos entregues ao TSE e ao STF; o sigilo do filho acusado, à disposição do relator que o investiga; e o sigilo do adversário — pessoa física e jurídica — fechado, sem resposta formal, com uma mansão, uma offshore, um áudio e um sócio bilionário atrás da porta.
A pergunta que Lula fez no debate já não precisa de resposta verbal: “abre o sigilo Flávio” — o cartaz escrito à mão em Porto Alegre virou a pergunta da campanha inteira. O silêncio dele é a resposta. E o eleitor dos cinco dias finais não está escolhendo entre duas biografias: está escolhendo entre o candidato que abriu a vida dele, da mulher e dos filhos — e o candidato cuja “vida secreta”, como disse Lula, continua trancada com cinco dias para a urna.
Quem abre, apura. Quem cala, teme. Em 25 de outubro, o Brasil responde o que fez da frase que o adversário escreveu na própria mão.

