O cerco ao financiamento do filme “Dark Horse”, sobre o ex-presidente golpista Jair Bolsonaro, está se fechando por todos os lados. Nesta segunda-feira (24), o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal (PF) a acessar os dados brutos e os registros da cadeia de custódia dos materiais apreendidos pela Polícia Civil de São Paulo em endereços ligados à produtora da obra. No mesmo dia, o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) evitou responder sobre o pedido de R$ 134 milhões ao banqueiro corrupto Daniel Vorcaro para financiar a produção.
A PF pediu que o repasse incluísse não apenas documentos apreendidos e relatórios de análise, mas também os arquivos obtidos na extração forense de mídias e os registros que comprovam a integridade do material. Fontes afirmam que Dino aceitou o pedido na íntegra. Com os arquivos, os investigadores poderão verificar a coleta e o armazenamento do conteúdo e examinar dados que não entraram na análise inicial da polícia paulista.
O senador que cobrava e agora foge
Questionado por jornalistas sobre o caso na coletiva de segunda-feira (24), Flávio reagiu: “Vocês vão parar no tempo?”. Ele classificou a relação com Vorcaro, dono do Banco Master, como uma operação privada, de fundo privado, e afirmou que ela não teve “contrapartida pública em nada”. O caso ganhou repercussão em maio, quando veio a público um áudio no qual o senador cobrava o repasse para a produção. O total mencionado chegaria a R$ 134 milhões.
Flávio disse que a prestação de contas havia sido entregue na investigação em curso em São Paulo, mas não apresentou detalhes sobre documentos, valores pagos ou o destino dos recursos. Ao ser pressionado, deslocou o assunto: “Quem tem que prestar contas não sou eu, é o Lula”, afirmou, citando uma suposta reunião entre o presidente, Vorcaro e Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master, além do senador Jaques Wagner e do ex-ministro Rui Costa. Também lançou perguntas sobre o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha: “Cadê o Lulinha? Está onde? Na Espanha? Está morando naquele hotel luxuoso mesmo? Quem está pagando as contas dele?”, disse, repetindo tropegamente os vazamentos sistemáticos do inquérito relatado pelo ministro André Mendonça, o terrivelmente evangélico indicado por Bolsonaro.
Como se sabe, Mendonça também relata o caso Master, portanto, o dinheiro sujo que saiu de Vorcaro para os Bolsonaros no caso Dark Horse está igualmente sob a presidência do terrivelmente evangélico. O inquérito contra Lulinha não só anda apressadamente como pedaços das investigações vazam abundantemente, sem que haja prova de nenhum crime. A investigação sobre Flávio Bolsonaro e Vorcaro dorme em berço esplêndido na gaveta de André Mendonça.
A produtora que muda a versão
Enquanto Flávio desvia, a produtora troca a versão. O Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG comandada por Karina Ferreira Gama, apresentou versões diferentes à Prefeitura de São Paulo sobre o uso de R$ 850 mil em emendas destinadas a dois eventos realizados em 2025. A área técnica da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT) apontou divergências, documentos ausentes, atrasos e descumprimento de obrigações, mas recomendou apenas advertências formais.
O demonstrativo financeiro do ICB indicava a Vamoz Comunicações e Eventos, empresa de um conselheiro da entidade, como destinatária de dois pagamentos, enquanto as notas fiscais saíram em nome da Continua Educação, ligada a uma ex-assessora da Assembleia Legislativa de São Paulo. A Polícia Civil também investiga se recursos de outro contrato do ICB, para instalação e manutenção de pontos de wi-fi na periferia paulistana, ajudaram a financiar o filme.
A Polícia Civil cumpriu sete mandados de busca e apreensão em junho em endereços ligados à produtora. Entre os pontos investigados está a doação de dinheiro de Vorcaro para o filme. A frente sob relatoria de Dino apura a suspeita de que deputados bolsonaristas tenham destinado recursos de emendas parlamentares para financiar a produção. O deputado Mário Frias (PL-SP) figura entre os citados, nega irregularidades e pediu o arquivamento do caso.
As cobranças que vêm de todos os lados
As cobranças por explicações partiram até de nomes fora da esquerda. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD), também pré-candidato ao Planalto, escreveu nas redes sociais que Flávio havia admitido ter pedido e recebido dinheiro de Vorcaro e questionou a demora para divulgar a prestação de contas. O secretário de Comunicação do Partido dos Trabalhadores (PT), Éden Valadares, afirmou que Flávio prometeu divulgar o suposto contrato com o Banco Master: “Noventa dias. Não deu explicações aos eleitores, para a Polícia Federal nem à Justiça. Até quando?”, publicou.
A imagem é digna de roteiro, e o roteiro é o do próprio filme: um pré-candidato que cobrava R$ 134 milhões de um banqueiro preso, uma ONG que muda a versão sobre emendas destinadas à periferia, notas fiscais em nome de terceiros e um ministro do STF liberando a PF para ir atrás dos dados brutos. Flávio diz que quem deve explicações é o Lula. A PF, Dino, Caiado, a oposição e o contribuinte acham que quem deve explicações é ele. O “Dark Horse” está longe de ser só um filme: é o retrato em movimento da roubalheira bolsonarista.
