Adivinha quem foi achado como sócio do jatinho de Vorcaro

Flávio Bolsonaro era o cara que controlava o dinheiro da offshore num paraíso fiscal

Por Frente Livre
Flávio Bolsonaro usuário master
PF aponta Flávio como "usuário master" de offshore do jatinho ligado a Vorcaro

A Polícia Federal apontou que Flávio Bolsonaro constava como “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, empresa sediada na Ilha da Madeira, em Portugal — a offshore que detinha 33,33% da Fraction 024, proprietária do jato Embraer Legacy 650, o avião usado pelo candidato em janeiro de 2025 para voar de Brasília a Fort Lauderdale e voltar. O relatório, revelado pela jornalista Malu Gaspar no Globo e confirmado nos documentos do inquérito, diz o que isso significa com todas as letras: perfil com “nível elevado de acesso e gerenciamento” e “acesso operacional relevante”, condição que “sustenta a hipótese de sua eventual participação econômica ou societária de fato na empresa”.

Traduza. O candidato que se apresenta como vítima do sistema tinha seu nome no topo do controle de uma conta de paraíso fiscal que administrava o jatinho do círculo de Daniel Vorcaro — o dono do Banco Master, o financiador do filme do golpe. Não é boato. É documento bancário de abertura de conta, no relatório da PF, publicado em jornal e confirmado no inquérito.

O avião, a offshore e o banqueiro

A cadeia é curta e fecha o círculo que este dossiê vem desenhando desde julho:

➡️ Alcazar Holdings (Ilha da Madeira, Portugal) — a offshore cuja conta no Santander tinha Flávio como usuário master.

➡️ 33,33% da Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A. — a empresa dona do Embraer Legacy 650, matrícula PP-NLR.

➡️ Os outros dois terços: o empresário Laerte Cosentino e a Prime You — empresa da qual Daniel Vorcaro foi sócio entre setembro de 2021 e setembro de 2025.

➡️ O jato: o mesmo usado por Flávio em janeiro de 2025 na viagem Brasília–Fort Lauderdale.

O banqueiro do Banco Master, a offshore portuguesa, o jatinho e o nome do candidato na conta. Para a PF, o vínculo com a holding é “relevante para esclarecer as relações indiretas em torno do patrimônio compartilhado”.

O detalhe que cheira a limpeza de rastro

E aqui está o momento que a matéria não pode deixar passar — porque é o que transforma o documento de abertura em indício de consciência. Em 22 de maio de 2025, um mês após a deflagração das apurações públicas sobre o esquema de fraudes no INSS, uma funcionária do advogado Willer Tomaz enviou mensagem à área de clientes corporativos do Santander pedindo a desassociação de duas contas ligadas ao perfil master: uma em nome de Flávio Bolsonaro e outra descrita como “conta PF Willer”. O banco confirmou a exclusão das duas contas do contrato duas horas depois.

Dois pontos que precisam ecoar:

  1. O e-mail de desvinculação foi recuperado do iCloud de Willer Tomaz — o onipresente, o operador, o “compadre”, o alvo da PF nas bets, o homem do jatinho.
  2. A desvinculação aconteceu depois do escândalo do INSS virar público. Ou seja: enquanto ninguém olhava, Flávio estava lá; quando a luz acendeu, o nome foi retirado em duas horas.

Não é prova de crime — é prova de pressa. E pressa, em investigação, é o que se procura.

A resposta que não responde

A assessoria de Flávio negou “nunca manteve conta tendo como usuário master o Sr. Willer Tomaz ou qualquer de suas empresas” e chamou as afirmações de falsas. Repare na manobra: a defesa respondeu a uma pergunta que ninguém fez. A PF não disse que Flávio era master da conta de Willer — disse que Flávio era master da conta da Alcazar, a offshore do jatinho. O advogado de Willer também negou vínculo financeiro com Flávio.

Nenhuma das negativas explica o que o documento de abertura mostra: por que o nome do candidato à Presidência constava como usuário master, com acesso operacional relevante, numa conta offshore ligada ao jato do círculo de Vorcaro? O relatório da PF não precisa de explicação da defesa para existir; é a defesa que precisa explicar o relatório.

E o Dark Horse vira segunda etapa

Enquanto isso, a outra ponta da investigação ganhou arquitetura. PF e PGR avaliam separar a apuração do caso Dark Horse em duas etapas: a primeira conclui a suspeita de evasão de divisas contra Daniel Vorcaro; a segunda trata dos possíveis crimes atribuídos a Flávio — corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. O Intercept Brasil informou que Flávio negociou diretamente com Vorcaro o repasse de ao menos US$ 24 milhões (cerca de R$ 122,7 milhões) para a produção do filme. A delação do doleiro conhecido como Mineiro ajudou a reunir elementos sobre as remessas — transferências destinadas ao Havengate Development Fund, o fundo administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O doleiro disse que não conhecia o destino final do dinheiro e que acreditava que os valores seriam usados em “um empreendimento imobiliário no Texas”.

O procedimento estava sob relatoria de André Mendonça e foi puxado pelo presidente do STF, Edson Fachin, para o gabinete dele em setembro. A investigação anda — mesmo com o candidato na reta final.

A contagem regressiva que ninguém quer ver

Agora a parte que deve fazer cada eleitor acordar. Segundo o próprio jornalismo que cobre o caso, se Flávio assumir a Presidência, terá imunidade temporária contra processo criminal por fatos anteriores ao mandato e sem relação com o cargo — a investigação pode prosseguir, mas o processo fica suspenso, e a prescrição é interrompida na suspensão.

Traduza a gravidade disso em calendário: faltam 11 dias para o segundo turno. Se o eleitorado confirmar na urna o que as investigações estão desenhando, o usuário master da offshore, o negociador dos US$ 24 milhões, o passageiro do jatinho do banqueiro e o lobista-geral da República pode ganhar de presente exatamente o que ele mais precisa: tempo.

É por isso que este tijolo precisa ser gritado, e não cochichado. As pessoas estão anestesiadas — mas não por cansaço: por overdose. São tantas as camadas de roubalheira que cada notícia nova parece mais do mesmo. E é isso que a defesa do candidato quer. Quanto mais ruído, menos espanto. Quanto mais acúmulo, menos reação. Quanto mais “todo dia um escândalo”, menos lembrança do escândalo de ontem.

Mas olhe o que a PF — a Polícia Federal, não a Frente Livre — acaba de entregar: o nome do candidato no comando operacional de uma conta offshore do jatinho do banqueiro do filme do golpe. Não é opinião. Não é campanha. É o relatório de investigação, com documento bancário, com e-mail recuperado, com desvinculação apressada duas horas depois do pedido, no mês seguinte ao escândalo.

Chame pelo nome o que isso parece. A PF ainda não condenou — mas a PF já apontou, e isso é o que basta para o eleitor entender o risco que está na urna.

A 11 dias do voto, a pergunta não é se Flávio é ladrão — isso o eleitor responde com a própria história dele, tijolo por tijolo, do Queiroz às rachadinhas, do Rolex ao lobista-geral, da offshore ao Dark Horse. A pergunta é se o Brasil vai entregar a um usuário master de paraíso fiscal o cofre da República, o acesso ao sistema financeiro e a imunidade que o processo aguarda.

Os sinos estão tocando. Quem quiser ouvir, ouve. Quem quiser continuar anestesiado, daqui a 11 dias vai acordar com o nome dele no cargo — e o processo, do outro lado da porta, esperando o mandato terminar.

Canal no whatsapp

Receba notícias da Frente Livre direto no celular.
Seguir