Kássio censura verdade de Lula e mantém mentira de Flávio

Presidente do TSE indicado por Bolsonaro e envolvido com Vorcaro tem atuação parcial

Por Redação
Kassio TSE Flávio Lula
Vídeo da campanha do presidente Lula em que ele denuncia a corrupção do Banco Master, censurado por Kassio Nunes Marques como presidente do TSE. Imagem: Reprodução Vídeo Instagram

Para a publicação que liga Flávio Bolsonaro ao Banco Master e ao financiamento do filme Dark Horse — um vídeo apoiado em diálogos que a Polícia Federal já verificou no celular de Daniel Vorcaro —, o cronômetro do juiz correu rápido: 24 horas para o Instagram tirar do ar, identificação do responsável pelo perfil e proibição de novas republicações.

Para o vídeo da própria campanha de Flávio, que associa a vitória de Lula em 2022 à comemoração de criminosos — “os bandidos comemoraram a vitória do seu candidato… eles realmente venceram” —, o cronômetro parou. O pedido da coligação de Lula para remover o conteúdo e garantir direito de resposta foi negado: os elementos apresentados, segundo o ministro, “não comprovavam” que o vídeo era falso ou estava fora de contexto.

O árbitro da eleição usou o cronômetro. E o cronômetro correu só para um lado.

Kassio Nunes Marques

Kassio Nunes Marques, ministro bolsonarista do Supremo, presidente do TSE, em situação de flagrante total no celular de Daniel Vorcaro. Foto: Rosinei Coutinho/STF

O que a PF já tinha verificado

O vídeo derrubado em 24 horas não era invenção de militante. Reproduzia diálogos que a PF já tinha verificado entre Flávio e o banqueiro do caso Master. O PL alegou que a publicação atribuía envolvimento em irregularidades “sem comprovação”. Kassio acolheu: associar um candidato a “fatos criminosos sem elementos concretos” atingiria sua “honra e imagem” perante o eleitorado.

Isso é o que ele censurou, em nome da falta de comprovação: um conteúdo ancorado no relatório da própria polícia. E é o que ele manteve de pé, também em nome da falta de comprovação: um conteúdo que acusa o adversário sem relatório nenhum. A mesma régua, aplicada com as mãos trocadas.

As duas decisões são liminares, e o plenário do TSE ainda vai analisá-las. Mas o sinal já foi dado antes do voto.

O prazo generoso

E há o terceiro lance, o mais discreto e o mais revelador. À Meta, o mesmo juiz deu dez dias para explicar como seus sistemas aprovaram 13 anúncios irregulares — entre eles, uma imagem falsa de inteligência artificial de Donald Trump ao lado de Flávio com a mensagem “vote em Flávio” e uma imagem falsa do próprio Kassio anunciando mudança na data da eleição.

Repare no cronômetro: 24 horas para derrubar o vídeo contra Flávio apoiado em material da PF. Dez dias para a plataforma explicar anúncios que beneficiam Flávio — inclusive um deep fake com o rosto do próprio juiz. Ordens de remoção de conteúdo eleitoral analisadas pelo TSE costumam exigir prazos muito menores. Essas explicações, do jeito que o despacho desenhou, podem chegar ao tribunal só na reta final da campanha. Se chegarem.

Nem com o próprio rosto falsificado o juiz perdeu a paciência.

Quem aperta o cronômetro

Para quem ainda não juntou as peças: Kassio Nunes Marques é o presidente do TSE, a autoridade que vai validar o resultado de 4 de outubro. E é o mesmo ministro que aparece nas mensagens do celular de Vorcaro, segundo a PF — o caso que já foi documentado e que ele próprio reconheceu ao se declarar impedido de julgar, para depois voltar atrás.

O material encontrado pela PF inclui a minuta de um contrato, de março de 2024, prevendo honorários de até R$ 427 milhões ao escritório da advogada Camilla Ramos, mulher do desembargador Newton Ramos, do TRF-1 — a “Turma do KN”, sigla que, para a PF, apontaria para o ministro. Honorários condicionados ao êxito em ações que envolvem cerca de R$ 8,5 bilhões. Nenhum pagamento foi feito até agora — a acusação é de vínculo, não de repasse consumado.

O cerco está nas mensagens: comemoração de votos do ministro elogiados pela advogada, repasses de pedidos, diária no Fasano reservada para “KN”, seis nomes na lista do camarote da Sapucaí, ingresso de Fórmula 1. E, nas mesmas mensagens, o relato de um programa de R$ 10 mil supostamente alcovitado por uma agenciadora, que teria ocorrido num apartamento de um pastor.

Kassio nega tudo: nunca trocou mensagens com Vorcaro, nunca pediu favor, jamais autorizou terceiros a falar em seu nome, o filho “nunca foi remunerado pelo banco”, e o escritório diz que nenhum processo do Master tramita no STF. A negação é o protocolo.

A inversão do ônus

Não é preciso afirmar que o contrato foi pago nem que o encontro aconteceu para enxergar o que as decisões de terça-feira desenham. A lógica das duas liminares é a do ônus invertido: quem está sob investigação é tratado como vítima de difamação; quem cita a investigação é tratado como difamador. A verdade documentada ganha prazo de horas para calar. A mentira sem documento ganha prazo indefinido para circular. E a plataforma que aprova deep fake ganha dez dias — o bastante para atravessar o primeiro turno.

O árbitro não precisa roubar a partida para favorecer o time. Basta escolher o cronômetro, a régua e o lado da mesa. 24 horas para a verdade, dez dias para a mentira. E a eleição em 11 dias.

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