O que era suspeita virou cartografia. Nesta segunda e terça (19 e 20), a imprensa — Estadão, Folha, Globo, DCM, Vermelho e o “Revelando” do Porchat — consolidou o que a Polícia Federal havia levado ao Supremo: a existência de uma república dos laranjas — empresas com donos de fachada, contas de offshore e casas registradas em outra empresa — a serviço do candidato Flávio Bolsonaro e do operador Willer Tomaz. “As empresas são da doméstica, as contas são de offshore e as casas são de outra empresa”, definiu Fábio Porchat ao lançar, hoje, o episódio da série jornalística “Revelando” que mapeou a engrenagem.
E cada peça do laranjal tem número, documento e endereço.
>> O documentário sobre a República dos Laranjas, produzido na série Revelando Brasil, está disponível ao fim deste texto.
A lavanderia da Blaze, com números oficiais
Comece pela engrenagem que a PF levou ao STF e que o Ministério da Fazenda já mediu. Uma nota técnica do Ministério da Fazenda apontou Willer Tomaz como a pessoa física que mais colocou dinheiro em empresas de apostas no país em 2025 — mais de R$ 258 milhões depositados na Foggo, a dona da Blaze, e cerca de R$ 5 bilhões movimentados em apostas no ano.
Agora ponha os detalhes, porque eles contam a história sozinhos:
➡️ 30 de outubro de 2025: Tomaz deposita R$ 7 milhões em 14 transferências de R$ 500 mil e saca R$ 6 milhões no dia seguinte — em 18 minutos.
➡️ 11 de novembro: 12 apostas somando mais de R$ 5 milhões em cinco minutos.
➡️ Ao longo do ano: 629 apostas de R$ 500 mil ou mais.
➡️ Entre março e maio de 2025: uma conta movimentou cerca de R$ 130 milhões — cifra da PF.
➡️ Na 7K (grupo Ana Gaming): R$ 1,3 milhão depositados, R$ 4,8 milhões apostados, R$ 426 mil sacados.
➡️ A PF suspeita que as operações “possam ter simulado apostas reais” — ou seja: dinheiro entra, gira entre contas ligadas a Tomaz e sai com a aparência de ganho honesto.
O advogado sem salário de banqueiro que deposita R$ 7 milhões em 14 fatias de meio milhão e saca R$ 6 milhões em 18 minutos não está apostando. Está girando. E o padrão dos 629 depósitos fracionados é o mesmo da lavagem de dinheiro clássica: fracionar para não chamar atenção, girar para apagar a origem, sacar em minutos para não deixar rastro.
O beneficiário do laranjal: a offshore com o nome do candidato
Agora junte o candidato ao mapa. O 2º inquérito no STF, decidido na semana passada e tornado público no domingo (18), investiga suspeitas de lavagem, movimentações irregulares e vínculos econômicos ocultos entre Flávio e Tomaz, com relatoria de Alexandre de Moraes. Entre os achados da PF:
➡️ E-mails revelaram que Flávio foi cadastrado como “usuário master” da conta bancária da Alcazar Holdings, de propriedade de Tomaz — a offshore da Ilha da Madeira que detinha um terço do jatinho ligado a Vorcaro.
➡️ Documentos de natureza pessoal vinculados a Flávio encontrados no iCloud de Tomaz; registros de viagens de Flávio, Tomaz e familiares em aeronaves custeadas por empresas ligadas ao advogado, inclusive a Alcazar.
➡️ Trecho do relatório da PF publicado pelo Estadão: “a análise da trajetória pessoal e dos dados relacionados a Willer revelou a existência de uma ampla rede de contatos com agentes públicos e figuras de projeção política, incluindo políticos, servidores públicos, integrantes do Ministério Público e pessoas vinculadas ao Poder Judiciário (…) Entre esses vínculos que merecem especial atenção está aquele relacionado ao senador Flávio Bolsonaro, cuja proximidade com o investigado aparece indicada nos elementos analisados”.
➡️ A PF afirma que há “elementos indicativos de vínculo de controle ou propriedade de fato de Willer Tomaz sobre a Rede Loto”, primeira bet autorizada pelo governo do Rio; e que ele pode estar envolvido com a Blaze numa movimentação de R$ 1,4 bilhão em transações financeiras.
➡️ A Justiça do Rio bloqueou, em julho, bens da RioPag por não devolver R$ 20,9 milhões à Loterj.
➡️ Tomaz foi alvo de buscas na Operação Sem Desconto (INSS), onde a PF o aponta como “membro central” do esquema — e empresas ligadas a ele teriam repassado mais de R$ 11 milhões à mulher do senador Weverton Rocha (PDT-MA).
E as respostas do adversário até agora? O senador chamou a investigação de “fake news”. É a resposta inteira. O homem que pede seu voto para comandar o cofre da República responde a um inquérito do Supremo com a palavra que seu irmão usou para as urnas eletrônicas: “fake news”. A palavra que o bolsonarismo usa para tudo — urna, inquérito, dossiê, sigilo aberto de Lula e dos filhos — tem agora uma função única: ser o placebo do eleitor que não quer se incomodar com números.
Reportagem da Frente Livre publicada em 30 de novembro, antes do 1º turno. Imagem: Reprodução
O senador do laranjal: Hiran Gonçalves e a Carbon Cer
E o laranjal cresceu para dentro do Senado — para a casa onde Flávio já não tem mais a imunidade do senador, mas tem o poder de viva voz. O senador bolsonarista Hiran Gonçalves (PP-RR) é sócio da Carbon Cer, empresa que tem entre seus participantes a Alcazar Brasil, ligada à holding portuguesa Alcazar Holdings citada no inquérito do STF que apura lavagem entre Tomaz e Flávio. A Carbon Cer é uma SPE no mesmo endereço da WT Administração — outra empresa de Willer Tomaz — numa casa no Lago Sul, em Brasília. Hiran afirma que desconhecia o compartilhamento do endereço.
Pare nessa frase e reveja a campanha adversária: enquanto o adversário grita “Lulinha” em todos os debates, o senado do próprio partido tem uma empresa com o endereço do operador que a PF investiga por lavagem — e um senador bolsonarista sócio dela. E lembrando: em julho deste ano, a PF também apontou que empresas ligadas a Tomaz repassaram R$ 11 milhões à mulher do senador Weverton Rocha, de outra legenda. Não é um senador. São dois senadores tocando a rede do operador.
O vídeo que levou o laranjal a 538 milhões de olhos
O momento cultural-político desta reta final é o lançamento, hoje, do episódio “República dos Laranjas” da série “Revelando” (equipe do Calma Urgente, com apoio do ICL, Mídia Ninja, 342 Artes e Intercept Brasil) apresentado por Fábio Porchat. A série já soma mais de 538 milhões de visualizações em seis episódios. O episódio de hoje citou Willer Tomaz — “tinha dinheiro escondido dentro de livro e movimentou cinco bilhões de reais em site de aposta” — e o ministro Kassio Nunes Marques, presidente do TSE, no mesmo dossiê. O Rio definido por Porchat como “a grande escola do crime organizado do Brasil, a Harvard da bandidagem”.
Esse é o dado que a campanha adversária não consegue controlar: o laranjal saiu do nicho e virou cultura. 538 milhões de visualizações é audiência de Globo. Enquanto a Globo almoça com Flávio, o Porchat leva o dossiê a meio bilhão de olhos — e a anestesia, essa, agora tem antídoto com nome, endereço e 538 milhões de visualizações.
Cinco dias: o sigilo que não abre é a resposta
E aqui fechamos o arco com o desafio que o adversário não responde há três dias: “abre o sigilo, Flávio”. O sigilo de Lula, Janja e dos cinco filhos já está entregue ao TSE e ao STF; o de Lulinha, à disposição do relator Mendonça — voluntariamente. O de Flávio, pessoa física e jurídica, segue trancado.
Repare no que isso significa: cada dia de silêncio é uma resposta. E o que está atrás do sigilo dele é exatamente o que a PF descreve no relatório do Estadão — a rede de contatos, as contas fracionadas, a offshore do usuário master, as viagens custeadas por empresas de Tomaz. Não é o adversário que não abre o sigilo: é o subsolo do dossiê que não quer sair antes do domingo.
Faltam cinco dias. O eleitor moderado — o bloco que decide — está vendo um lado que abriu a vida dele, da esposa e dos filhos, e o outro que responde a um inquérito do Supremo com “fake news”. A pergunta que fica para o povo brasileiro: quem tem algo a esconder assina em duas linhas; quem tem algo a esconder de verdade chama o inquérito de fake news. Em 25 de outubro, o Brasil assina o que o adversário não assinou: o voto — a única assinatura que o adversário não vai conseguir impugnar.

