O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou nesta terça-feira (8) o afastamento preventivo do diretor-geral da Polícia Federal (PF), Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência, Leandro Almada da Costa. A decisão foi monocrática — ou seja, tomada por um único ministro, sem aval do colegiado nem do governo —, a menos de um mês das eleições de 4 de outubro, atendendo a um pedido do partido Novo. O “terrivelmente evangélico” indicado por Jair Bolsonaro gerou com a própria caneta a tempestade perfeita na reta final da campanha presidencial. A crise que já era abissal tornou-se apocalíptica.
A caneta que decapita
Na decisão, Mendonça alega ter sido alvo de “monitoramento sistemático e ilegal” por mais de 30 dias, com ao menos seis relatórios de inteligência produzidos entre 3 e 31 de agosto. Fala em “superlativa gravidade” e em “ilicitude” na divulgação de relatórios da PF pelo ministro Alexandre de Moraes — documento que o relator chama de “apócrifo, sem timbre ou qualquer símbolo gráfico”. Além do afastamento dos dois diretores, Mendonça determinou que a Corregedoria da PF investigue Rodrigues e Almada e suspendeu a produção de análises de inteligência sobre magistrados.
O efeito prático é devastador. A PF é o órgão que conduz as investigações do caso Master, da megafraude do Banco Master e do caso Dark Horse — exatamente os procedimentos que podem atingir o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Decapitar a direção da corporação na reta final significa desmontar, por dentro, a máquina que investiga o esquema. Não é reforma. É golpe institucional.
A turma que referenda
A Segunda Turma do STF referendou o golpe. Na sessão virtual extraordinária, aberta às 10h, Gilmar Mendes pediu vista cinco minutos depois e suspendeu o julgamento. Mesmo suspenso, o placar já foi construído: Luiz Fux e Kassio Nunes Marques anteciparam o voto e acompanharam Mendonça — três votos pela manutenção do afastamento.
A composição da turma diz tudo. Mendonça e Nunes Marques foram indicados por Jair Bolsonaro ao Supremo. Fux, embora nomeado por uma presidente petista, votou pela manutenção — prova de que o problema não é partidário, é estrutural: a toga bolsonarista encontrou eco onde precisava. Dias Toffoli não votou. O ministro, envolvido com Daniel Vorcaro a ponto de se declarar suspeito em desdobramentos do caso Master, preferiu o silêncio. A liminar segue em vigor, sem data para retomar. William Murad, diretor-executivo, assume interinamente.
As reações em três frentes
A resposta veio em três frentes. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ligou para Andrei Rodrigues e marcou reunião presencial para esta terça-feira. A Advocacia-Geral da União (AGU), comandada por Jorge Messias, vai recorrer, alegando violação de competência privativa da Presidência da República — o diretor-geral da PF é cargo de livre nomeação do presidente, não pode ser decapitado por caneta de ministro. Parte dos 27 superintendentes regionais da corporação discute a entrega coletiva de cargos em apoio ao diretor afastado. E o PSOL-Rede articula, com partidos de esquerda, pedido de impeachment de Mendonça, apelidado nos bastidores de “Novo Moro” — referência ao juiz que transformou a toga em instrumento de campanha contra Lula.
O histórico que condena
Mendonça não é personagem novo nessa trama. É o relator do caso Master que já admitiu encontro privado com Daniel Vorcaro após o vazamento de áudios; retirou o sigilo de mensagens entre Vorcaro e Moraes no momento exato em que o bolsonarismo precisava de munição; e mantém a delação do Dark Horse dormindo na gaveta há semanas. O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, é o principal beneficiário de cada movimento do relator. Já não se fala em Dark Horse, no envolvimento de Flávio, de Nikolas Ferreira e da caverna bolsonarista com Vorcaro e o Banco Master: a crise virou o próprio Supremo. E o instituto ligado a Mendonça, segundo apuração, faturou R$ 10,8 milhões em 55 contratos públicos sem licitação.
O plenário é a última trincheira
Resta o plenário. Gilmar Mendes tenta desfazer a confusão levando o caso ao colegiado completo, onde rege o bom senso: André Mendonça será derrotado. Mas cada dia de liminar em vigor é um dia de investigação paralisada, um dia de campanha contaminada, um dia de democracia sangrando. A decisão da próxima semana decidirá não apenas o destino da PF, mas se a Corte ainda é capaz de se defender dos próprios membros. Que o plenário não negocie a sobrevivência. O país espera a resposta — e o relógio corre.
