Mendonça é pego de arrasto no escândalo do Master

Encontro secreto com Vorcaro, audiência secreta com Vorcaro

Mendonça Vorcaro Master
Condução de André Mendonça no Caso Master se atolou na corrupção de Daniel Vorcaro. Foto: Luiz Silveira/STF

André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e relator do Caso Master, foi pego de arrasto nesta quarta-feira (2) no escândalo do banqueiro Daniel Vorcaro. De um lado, veio à tona o encontro secreto em que ele possivelmente cometeu um crime: recebeu o investigado central do caso que viria a julgar, em março de 2025, e escondeu a reunião até ser descoberto. Do outro, o depoimento quase clandestino de Vorcaro, tomado dentro do gabinete do ministro, sem a presença da Polícia Federal (PF), autoridade investigativa, e sem a presença do Ministério Público, titular da ação penal. A condução de Mendonça sobre o caso Master entrou no pântano da corrupção de Vorcaro. E lá está atolada.

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O encontro que ele escondeu

A reunião foi revelada pelo jornalista Paulo Motoryn, na newsletter Noites Húngaras. As mensagens extraídas do celular de Vorcaro mostram como o encontro foi articulado. Em 7 de fevereiro de 2025, o advogado Ciro Rocha Soares escreveu ao banqueiro: “Opa, Dani!!! Preciso muito falar com você. O A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”. No dia seguinte, Ciro enviou foto ao lado do ministro e afirmou que estava “trabalhando por você” enquanto levava o magistrado a uma alfaiataria. Em 14 de março, Vorcaro teria ido a um endereço privado na Alameda Santos, em São Paulo, onde permaneceu cerca de duas horas com Mendonça. O endereço abriga um instituto de ensino fundado pelo próprio ministro, que recebeu R$ 380 mil da Prefeitura de São Paulo, de Ricardo Nunes, sem licitação.

Mendonça só admitiu o encontro depois do vazamento. Disse que se “limitou a ouvi-lo” e que mantém “os memoriais escritos recebidos por ocasião do encontro”. Receber o interessado num caso que viria a julgar, ouvir seus argumentos sobre a situação do Banco Central e guardar memoriais é motivo de impedimento. O juiz que recebeu a parte antes de julgar não pode julgar.

O depoimento sem autoridade

A segunda revelação do dia veio da coluna de Bela Megale, no jornal O Globo. Vorcaro prestou depoimento no gabinete de Mendonça sem a presença da PF, conduzido pelo juiz auxiliar João Moreira Azambuja, sob sigilo. A assessoria do ministro afirmou que a oitiva foi pedida pela defesa do banqueiro, que relatou “graves intimidações”, e que “não foram abordados temas relacionados” ao colega de Corte Alexandre de Moraes. A data não foi revelada.

O detalhe que a nota não explica: ao ouvir o relato de Vorcaro, o juiz auxiliar de Mendonça chegou a dizer que tinha “empatia” pela “coragem” do banqueiro de apresentar as acusações. O dono do Banco Master, preso por fraude bilionária, foi ouvido na mesma semana em que Mendonça pediu um relatório específico sobre as mensagens entre Moraes e Vorcaro. Ao final, por um alegado problema técnico, o depoimento de Vorcaro para a PF acabou não ocorrendo.

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A gaveta que abre e a que tranca

A reação não demorou. Deputados de PT, PCdoB, PSOL e Rede acionaram o presidente do STF, Edson Fachin, para pedir o fim do sigilo das investigações do caso Dark Horse e a apuração de suspeição de Mendonça. O pedido é cirúrgico: Mendonça levantou o sigilo da investigação que alcançou o senador Jaques Wagner (PT-BA) e da que envolve Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Mas mantém sob sigilo três procedimentos do Dark Horse que alcançam Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do PL à Presidência. “Pede-se que o critério já aplicado a senador do Partido dos Trabalhadores e a ministro desta Corte seja aplicado ao candidato do Partido Liberal, e nada além disso”, afirma a representação.

O ministro que retirou o sigilo contra Moraes e Jaques Wagner, que acelerou três inquéritos contra Lulinha em uma semana, agora ouve Vorcaro sem a PF, sem o Ministério Público, sob sigilo, com um juiz auxiliar que declara “empatia” pela “coragem” do banqueiro. E dorme sobre o Dark Horse, o caso que alcança o candidato do partido do homem que o nomeou. Mendonça foi advogado-geral da União e ministro da Justiça durante o governo Jair Bolsonaro, que o indicou ao STF. A condução do caso Master afundou no pântano da corrupção de Vorcaro. E lá está atolada.