O presidente da Argentina, Javier Milei, voou a São Paulo no dia 25 de julho para fazer palanque na convenção do PL que oficializou a candidatura neofascista de Flávio Bolsonaro à Presidência. Chamou Lula de “presidiário” e “lixo”. Chamou o ministro Alexandre de Moraes, do STF, de “lixo careca”. Disse que apenas Flávio Bolsonaro poderia “parar Lula”. Em território brasileiro, em evento partidário, um chefe de Estado estrangeiro fez campanha eleitoral para um candidato brasileiro e xingou o presidente da República e um ministro do Supremo. O objetivo era ajudar Flávio. O resultado foi ajudar Lula. Em dois países.
Na Argentina, pesquisa da Zuban Córdoba y Asociados, realizada entre 8 e 10 de agosto com 1.200 pessoas em todo o território, mostra que 70,5% dos argentinos rejeitam os ataques de Milei contra Lula. Apenas 20% aprovam. Outros 9,5% não souberam responder. Mais de dois terços da população argentina consideram que o seu presidente não deveria estar xingando o presidente brasileiro.
Gustavo Córdoba, diretor da Zuban Córdoba y Asociados e mestre em Comunicação Política pela Universidad Austral, disse ao ICL Notícias: “Uma maioria consistente dos argentinos não acompanha a agressão de Milei a Lula. Apenas 20% dos que responderam à pesquisa apoiam essa postura. Podemos considerar esses 20% como uma espécie de ‘núcleo duro’, que acompanha qualquer conduta ou declaração de Milei, não importa em que direção ele se pronuncie.” O núcleo duro. Vinte por cento. Um em cada cinco. É a base que aplaude qualquer coisa, que ri de qualquer insulto, que segue o líder não importa o que ele diga. O resto, 80%, olha e se envergonha.
E a rejeição não é uniforme. É mais forte onde menos se esperaria. Entre as mulheres argentinas, 72,3% desaprovam os ataques e apenas 14,3% aprovam. Diferença de 58 pontos percentuais. Entre os homens, 67,6% desaprovam e 25,5% aprovam. Entre os argentinos de 31 a 45 anos, 73,1% desaprovam, o maior índice da pesquisa. Entre os maiores de 60, 71,6%. A faixa em que Milei encontra maior receptividade é a dos mais jovens, 16 a 30 anos, onde 33,3% aprovam e 44,4% desaprovam. Mesmo ali, na sua base mais fiel, a rejeição é maior que a aprovação.
E aqui entra o dado que destrói a tese de Milei. Quando perguntados sobre a importância do Brasil e de sua economia para a economia argentina, 88,9% dos entrevistados responderam que consideram o país importante. Mesmo entre os eleitores de Milei no segundo turno de 2023, 79,8% reconhecem a importância do Brasil. Ou seja, o eleitorado que votou em Milei sabe que o Brasil importa, e rejeita que o seu presidente xingue o presidente de um país que importa.
E se a Argentina rejeita, o Brasil responde. A pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 10 de agosto, entrevistou 2.004 eleitores brasileiros entre 31 de julho e 3 de agosto, com margem de erro de dois pontos e nível de confiança de 95%, registrada no TSE sob o número BR-06591/2026. O recorte é devastador para a estratégia bolsonarista: 34% dos brasileiros afirmam que o apoio de Milei a Flávio Bolsonaro aumenta suas chances de votar em Lula. Outros 27% dizem que o endosso os aproxima de Flávio. Diferença de sete pontos. O apoio de Milei a Flávio produz mais voto em Lula do que em Flávio. O capanga que veio ajudar acabou ajudando o adversário.
O Vermelho, em reportagem de Lucas Toth, noticiou com precisão: “O apoio do presidente argentino Javier Milei à candidatura de Flávio Bolsonaro produz um efeito eleitoral mais favorável a Luiz Inácio Lula da Silva do que ao próprio senador apoiado pelo argentino.” A frase é a sentença. O apoio produz efeito mais favorável ao adversário. É o que os marqueteiros chamam de “presente envenenado”. É o que a história chama de “efeito bumerangue”. É o que o senso comum chama de “tiro no pé”.
A Quaest mostra ainda que 55% dos entrevistados não sabiam que Milei havia declarado apoio a Flávio. O desconhecimento chega a 64% no Nordeste e 58% no Norte e Centro-Oeste. No Sul, metade conhece. No Sudeste, 49%. Ou seja, quando o brasileiro descobre que Milei apoia Flávio, tende a votar em Lula. A informação não ajuda Flávio. Ajuda Lula. E quanto mais a informação se espalha, mais Lula cresce.
E há o dado das redes. O Instagram da Mídia NINJA, em 10 de agosto, publicou gráfico com o número que circula nos bastidores: Milei acumula 84% de rejeição nas redes sociais após as ofensas a Lula. Oito em cada dez. O presidente argentino que se vende como fenômeno digital, que governa por X e por Instagram, que construiu sua carreira em viralização de provocações, atingiu 84% de rejeição nas redes depois de xingar o presidente brasileiro. O instrumento que o elevou é o instrumento que o derruba. O algoritmo que o celebrizou é o algoritmo que o enterra.
O cientista político argentino Vicente Palermo, pesquisador do Conicet, já havia publicado carta a Lula no Clarín, o maior jornal da Argentina, dizendo: “Fiquei sabendo que o presidente da República da qual sou, com todo direito, cidadão, insultou você. Melhor nem entrar em detalhes. Foram insultos obscenos que todo mundo conhece.” E completou: “Você é muito melhor político do que aquele que o insultou, e sabe disso. Meu presidente tem apenas uma de suas virtudes: a força de vontade. Mas a força de vontade ligada ao fanatismo é sinistramente perigosa.” A palavra é fanatismo. O diagnóstico é de um argentino, publicado no maior jornal da Argentina, sobre o presidente da Argentina. Não é o Brasil falando. É a Argentina falando.
O Itamaraty chamou o embaixador de volta. Rebaixou a representação diplomática em Buenos Aires a encarregado de negócios. A Federação Brasil da Esperança acionou a PGE contra Milei por ingerência eleitoral. O STF, por meio de Fachin, classificou as declarações como “incompatíveis com as relações entre Estados soberanos.”
A estratégia bolsonarista de buscar vitória de fora para dentro, usando Trump e Milei como agentes de ingerência, está produzindo o efeito contrário ao planejado em ambos os países. Na Argentina, isolou Milei. No Brasil, fortaleceu Lula. O capanga que veio xingar acabou sendo o presente que Lula não pediu mas recebeu de bom grado. Cada insulto de Milei é um voto em Lula. Cada aparição de Milei ao lado de Flávio é um empurrão no eleitorado brasileiro para o lado oposto. E cada argentino que diz “tenho vergonha” é mais um atestado de que o projeto de neocolonização da América Latina, que usa capangas como Milei para instalar fantoches como Flávio, está fracassando no exato momento em que parece se expandir.
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