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ECONOMIA

No Brasil, ricos sugam o dobro do orçamento público que vai pros pobres

Enquanto os pobres recebem R$ 285 bilhões em benefícios sociais, os ricos abocanham R$ 615 bilhões em isenções tributárias

O Brasil gasta mais do que o dobro com isenções fiscais e subsídios para os mais ricos do que investe em políticas sociais voltadas à população pobre. A comparação, feita pela deputada federal Dandara Tonantzin (PT-MG), escancara uma distorção histórica e revela a hipocrisia de um discurso neoliberal que culpa o povo pelo rombo no orçamento, enquanto acoberta privilégios tributários de empresas e elites.

De um lado, o Estado destina R$ 285,9 bilhões a programas como o BPC (R$ 111 bi), Bolsa Família (R$ 168 bi), Vale Gás (R$ 3,5 bi) e Farmácia Popular (R$ 3,4 bi) — todos essenciais para garantir o mínimo de dignidade a quem mais precisa. De outro, concede R$ 615 bilhões em isenções fiscais e subsídios que beneficiam grandes grupos econômicos. Ainda assim, quem depende de ajuda estatal para comer é acusado de ser o problema do país.

A diferença de tratamento entre pobres e ricos no orçamento revela que o Brasil não sofre com excesso de gastos sociais, mas sim com o peso morto dos privilégios tributários. O dinheiro que falta em escolas, hospitais e moradia popular escorre silenciosamente pelos ralos das isenções generosas oferecidas aos setores mais abastados da sociedade — geralmente sob o pretexto de “incentivo à economia” ou “fomento à competitividade”.

Essa estrutura desigual é defendida por uma elite política e econômica que controla a narrativa pública com apoio da grande mídia, perpetuando a ideia de que o Estado é inchado por culpa dos pobres. Em vez disso, a verdadeira distorção está na renúncia bilionária de arrecadação que poderia bancar, com folga, uma renda básica digna, a universalização do SUS e o fortalecimento da educação pública.

[Gastos sociais x benefícios fiscais: Brasil e países da OCDE (2023)]

País Gasto social (%) do PIB   Isenções fiscais (%) do PIB   Observações
Brasil 12,7% 6,5% Gasto social elevado, mas menor que a média da OCDE; alta renúncia fiscal para ricos
Suécia 26,0% 1,2% Prioriza políticas sociais com tributação progressiva
França 31,5% 1,5% Um dos maiores gastos sociais do mundo, com baixa renúncia fiscal
Alemanha 25,1% 2,0% Gasto social robusto e controle sobre subsídios
EUA 18,7% 3,8% Gastos sociais moderados, renúncias concentradas em grandes corporações
Média OCDE   20,1% 2,7% Brasil está abaixo da média em gasto e acima em isenção

Fontes: OCDE, Ipea, Receita Federal, Banco Mundial (dados de 2023)

O Brasil na contramão do mundo

Nos países europeus com bem-estar social consolidado, como Suécia, Noruega e Alemanha, os subsídios fiscais para os mais ricos são mínimos, e os investimentos em políticas públicas são elevados. O Brasil opera no sentido inverso: retira de onde há carência e injeta onde há sobra, gerando um ciclo de concentração de renda que trava o desenvolvimento e alimenta desigualdades históricas.

Com Lula no governo, o foco tem sido reverter essa lógica perversa. A proposta de reforma tributária solidária, que busca tributar os super-ricos e desonerar os mais pobres, é um dos pilares dessa mudança. Mas enfrenta resistência feroz de setores que se beneficiam da desigualdade como se fosse um direito adquirido.

Para virar o jogo, é preciso mais do que projetos de lei: exige mobilização, conscientização e coragem política. Não há “rombo” no orçamento causado por quem recebe Bolsa Família. O buraco está nos bolsos furados dos super-ricos e nos tapetes onde se escondem seus privilégios fiscais.

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