Anistia não perdoa sumiço de corpos

STF julga tese de crime continuado para punir militares da ditadura

Por Redação com informações do Portal Vermelho
Nova interpretação da Lei de Anistia
Ministro Flávio Dino. Foto: Rosinei Coutinho/STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) pode abrir um precedente histórico para a justiça de transição no Brasil. Na próxima sexta-feira (13), a Corte inicia o julgamento de um recurso que pode consolidar uma nova interpretação da Lei de Anistia de 1979. O caso, relatado pelo ministro Flávio Dino, envolve o desaparecimento de militantes na Guerrilha do Araguaia e discute se o crime de ocultação de cadáver, por ser permanente, escapa do perdão concedido aos militares.

Essa tese jurídica é fundamental. Se o corpo nunca foi entregue à família, o crime continua acontecendo hoje, em 2026, muito depois do período coberto pela anistia (1961-1979). Portanto, a punibilidade não estaria extinta.

O caso concreto e a nova interpretação da Lei de Anistia

O processo original é uma denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra o tenente-coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel e o major Sebastião Curió (já falecido). Eles foram acusados de emboscada e ocultação de cadáveres de opositores do regime militar na região do Araguaia.


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A Justiça Federal rejeitou a denúncia baseando-se na leitura tradicional da anistia. Contudo, o recurso ao STF busca justamente essa nova interpretação da Lei de Anistia. O argumento é que a ocultação de cadáver se prolonga no tempo.

“A manutenção da omissão do local onde se encontra o cadáver impede o luto e configura situação de flagrante”, defendeu Flávio Dino ao aceitar o caso. Segundo o ministro, atos posteriores à lei de 1979 não estão anistiados.

Repercussão Geral e Direitos Humanos

O julgamento tem repercussão geral reconhecida. Ou seja, a decisão do STF deverá ser seguida por todos os tribunais do país em casos semelhantes. Isso alinha o Brasil à jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos, que já condenou o país no caso Gomes Lund pela falta de investigação dos desaparecimentos.

Além disso, a nova interpretação da Lei de Anistia pode destravar a busca por justiça para as famílias dos 210 desaparecidos políticos que o Estado brasileiro ainda não conseguiu localizar. Recentemente, apenas cinco corpos foram identificados, incluindo os de Grenaldo de Jesus e Denis Casemiro, encontrados em 2025.

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