A Polícia Federal (PF) cumpriu nesta quinta-feira (29) quatro mandados de busca e apreensão na nona fase da Operação Unha e Carne, em salas comerciais na Barra da Tijuca, Zona Sudoeste do Rio de Janeiro. As ordens foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A ação investiga lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial de uma organização criminosa que registrava imóveis de alto padrão, veículos de luxo e aeronaves executivas em nome de laranjas.
Segundo a PF, o grupo usava familiares, colaboradores próximos e terceiros formalmente desvinculados do núcleo investigado para esconder os verdadeiros donos dos bens. A investigação também apurou uso de dinheiro em espécie, movimentações financeiras sem rastreabilidade e empresas nacionais e estrangeiras — inclusive em paraísos fiscais. Há ainda indícios de envolvimento de entidades religiosas e holdings patrimoniais na engrenagem de desvinculação de bens.
Nesta fase, são alvos o pastor Márcio Poncio, preso na quinta etapa da operação e hoje em prisão domiciliar, e Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho.
O tamanho da máquina
A Unha e Carne não é uma investigação de esquina. O grupo usava uma rede de 96 postos de combustíveis no Grande Rio e na Região dos Lagos como plataforma de lavagem, com participação de agentes públicos. O relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) enviado à PF aponta movimentação superior a R$ 7,6 bilhões em seis anos, entre 2020 e 2026.
A oitava fase, deflagrada em 15 de outubro, resultou em seis prisões preventivas e 16 mandados de busca em sete municípios — entre os alvos, o ex-chefe da Polícia Civil do Rio, Marcus Amim, e o deputado estadual eleito Marcio Canella (União) — com quem o fascista derrotado Flávio Bolsonaro gravou um vídeo chamando de “amigo” e dizendo confiar 100% nele. A PF classificou o grupo como “organização criminosa armada”, com “participação de agentes públicos e articulação político-institucional”. Em maio, outra fase prendeu o deputado estadual Thiago Rangel.
E há o detalhe que revela o método: segundo o G1, a PF acredita que a sexta fase da operação vazou para os investigados, com um dos alvos retirando documentos e provas na semana anterior à deflagração. Vazamento, no vocabulário da casa, tem outro nome: cumplicidade.
A pergunta que a PF ainda não respondeu
A Operação Unha e Carne desenha o mapa do crime organizado fluminense entrelaçado ao poder político e à fé como instrumento de negócio. O que as fontes oficiais desta fase não estabelecem é o vínculo direto com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Mas o perímetro é eloquente: um ex-chefe da Polícia Civil, um deputado estadual eleito do campo bolsonarista, um pastor, um bicheiro e 96 postos. Esse é o ecossistema em que o clã político do Rio construiu sua base. Enquanto Flávio disputa a Presidência com discurso de “mão dura” contra o crime, a PF segue cumprindo mandados na Barra da Tijuca — e cada fase nova encosta em alguém que posa ao lado dele. Investigação não é condenação, e a casa respeita o devido processo. Mas que o cheiro é forte, é.

