Plano B dos fascistas é golpe parlamentar contra Lula

Flávio Bolsonaro anuncia candidatura "antes de 2030" e lança Marinho ao comando do Senado

Por Frente Livre
Flávio Bolsonaro golpe contra Lula
A famosa foto de Flávio Bolsonaro com Sicário, o chefe da milícia privada de Daniel Vorcaro, que se matou no dia em que foi preso. Foto: Reprodução Redes Sociais

Seis dias. Foi o tempo que Flávio Bolsonaro levou para deixar de fingir. Em 25 de outubro ele perdeu a eleição por 4.430.191 votos. Em 28, publicou e apagou a autoproclamação como “presidente eleito”. Em 31, numa live transmitida dos Estados Unidos, entregou o plano completo — e o plano não é voltar em 2030. É um golpe parlamengtar contra o presidente Lula.

“Qualquer coisa que aconteça, eu vou estar aqui, pronto. Inclusive, se for preciso para disputar a Presidência da República de novo. Eu não estou falando de 2030, não. Eu estou falando de antes disso.”
Ele não explicou como. Nenhum dos aliados explicou. O lobista e blogueiro de estimação dos Bolsonaros, Paulo Figueiredo, que opera a partir dos Estados Unidos, foi mais direto no mesmo dia: “É bobagem esse negócio de que Flávio Bolsonaro será candidato em 2030. Se Deus quiser, teremos novas eleições muito antes disso.”

E, na mesma live, Flávio disse qual seria a “trincheira”: o Congresso. Ele falou duas vezes a palavra. E lançou Rogério Marinho — seu coordenador de campanha, o homem que dias antes admitiu em coletiva que o PL não tem prova nenhuma de fraude — como candidato à presidência do Senado em 2027.

Junte as três peças — “eleição antes de 2030”, “trincheira é o Congresso”, “Marinho no comando do Senado” — e o desenho aparece. Não é retórica de derrotado. É planejamento de golpe parlamentar.

 

Flávio Bolsonaro golpe contra Lula Rogério Marinho (PL-RN), candidato à Presidência do Senado. Foto: Ton Molina/Agência Senado

Por que o Senado, e não a Câmara

Aqui é preciso ser didático, porque a maioria dos eleitores não sabe o que a presidência do Senado faz. E o que ela faz explica tudo.

O presidente do Senado é quem decide se um pedido de impeachment da presidente da República é aberto ou enterrado. É ele quem recebe o pedido, quem avalia se há “justa causa”, quem manda arquivar ou quem instaura o processo. Não é o plenário, não é a Mesa, não é o Supremo: é uma pessoa. A peça que dá ao presidente do Senado esse poder é a Lei 1.079/1950, que define os crimes de responsabilidade, e o Regimento Interno da Casa.

Quem comanda o Senado, portanto, tem o gatilho do impeachment na mão. Pode engavetar pedidos contra um presidente aliado e pode desengavetar, no dia certo, um pedido contra um presidente adversário. Não é uma metáfora de poder: é o procedimento, escrito e literal.

E há o segundo instrumento, que o próprio Flávio mencionou sem nomear. No ar, ele insinuou que Davi Alcolumbre estaria negociando com bolsonaristas uma eventual anistia para Jair Bolsonaro em troca de apoio à reeleição. Flávio disse sem apresentar prova nem detalhar a negociação. Mas a menção é reveladora por outro motivo: mostra que ele entende a presidência do Senado como um balcão de trocas — votos por anistia, comando por impunidade.

A aritmética que ele está contando

Agora os números, porque é com eles que o plano deixa de ser fantasia.

O PL elegeu 19 senadores em 2026 — a primeira vez sob a Constituição de 1988 que um partido elege tantos numa só eleição. Somados aos 9 que já estavam no exercício, terá 28 dos 81 senadores a partir de fevereiro de 2027. É a maior bancada de um partido no Senado desde a redemocratização, acima do recorde anterior, do PMDB em 1999 (27).

Vinte e oito de oitenta e um. Mais de um terço da Casa. E na Câmara, o PL também fez a maior bancada.

Para efeito de comparação, é necessário um mínimo de 41 votos para condenar um presidente por crime de responsabilidade. Não 41 do PL: 41 do plenário. Mas o ponto é que o PL, sozinho, é o maior bloco — e com o apoio de parte do centrão, de bolsonaristas de outros partidos e da direita que se elegeu junto, o número de 41 deixa de ser distância e vira possibilidade.

Ele fez as contas. Está contando com elas.

O crime de responsabilidade que não existe

Aqui a tese tem que ser destruída por dentro, porque é o ponto em que ela se revela.

Para um impeachment não basta maioria. É preciso tipificar um crime de responsabilidade — a lei de 1950 lista os casos, e todos têm um núcleo: ato do presidente que atente contra a Constituição, contra a probidade, contra a lei orçamentária, contra o livre exercício dos Poderes.

Qual seria o crime de Lula? A live de Flávio sugere dois, e os dois são pó.

1️⃣ A prorrogação do horário eleitoral. Ele chama de “golpe”. Mas foi decisão de um ministro do STF, a pedido das duas campanhas — inclusive a dele —, e produziu 34.330 votos, ou 0,03% do total, contra 4,4 milhões de diferença. Não é crime de responsabilidade do presidente: é decisão judicial, em processo eleitoral, com efeito matematicamente irrelevante. E, se fosse crime, o crime seria do ministro, não de Lula.

2️⃣ “Abuso de poder econômico” e “uso da máquina”. Sobre isso o próprio PL já recuou. Rogério Marinho — o mesmo Marinho que Flávio quer na presidência do Senado — disse publicamente que o partido não pode afirmar que houve fraude porque não tem prova nenhuma disso. Se não há prova de fraude, e a cassação por abuso de poder é uma tese que precisa de prova em ação própria no TSE, o caminho do impeachment fica sem matéria.

E há a frase que entrega tudo: “Não perdi para meu adversário, perdi para o sistema.” Um impeachment exige um ato do presidente. Ele não tem um ato. Ele tem um resultado. Quando não se tem o ato, o que se pede não é impeachment — é anulação da eleição. E anulação de eleição não é competência do Senado: é do TSE, que já proclamou o resultado, e do STF, que já reconheceu.

Ou seja: o plano de Flávio depende de um crime que ninguém sabe qual é, praticado por um presidente que ganhou a eleição, num processo que o próprio partido dele reconheceu. É um impeachment de resultado, não de conduta.

O sequestro do mandato de 59,8 milhões

E é aqui que a operação passa a ter um custo que o eleitor precisa sentir.

Ele não está organizando a oposição. Está tentando converter votos em poder sem passar pela urna — e para isso precisa de três coisas: um Congresso com maioria relativa do seu partido, um presidente do Senado disposto a abrir o processo e uma narrativa de ilegitimidade que sustente a manobra. A live de 30 de outubro entregou as três, juntas, em vinte minutos.

Repare também no que ele não mencionou: os 4,4 milhões de votos que perdeu. Em nenhum momento da live ele falou do resultado. Falou de “gol de mão”, de “sistema”, de “jogar a biografia no lixo”. Os 59,8 milhões de votos que recebeu, esses ele citou como “eleitores reais” — insinuando, sem dizer, que os 64,2 milhões de Lula não seriam.

É a mesma operação de 2022, com um detalhe novo e mais grave: desta vez, o derrotado está fora do país, foragido de uma ordem judicial, e comandando a operação por live, do território de um aliado estrangeiro. E os números desta vez são outros — 28 senadores, não a esperança de uma quartelada.

O que já está em curso e ninguém está olhando

Enquanto o país discute se a carta foi ridícula, o processo eleitoral do Senado está em andamento. A eleição para a presidência da Casa acontece em fevereiro de 2027 — e Flávio já colocou seu nome: Marinho. Se o PL tem a maior bancada e costura com o centrão, não é fantasia imaginar o comando da Casa nas mãos de quem coordenou a campanha de um candidato que se diz presidente eleito.

E o que isso significa na prática? Significa que um pedido de impeachment protocolado por qualquer deputado, contra qualquer presidente, seria recebido ou arquivado por um aliado de Flávio Bolsonaro. Significa que a pauta do Senado — inclusive anistias, inclusive CPIs, inclusive a pauta econômica do governo — passaria por uma mesa comandada por quem opera com um foragido. Significa que a “trincheira” de Flávio não é retórica de oposição: é uma posição institucional estratégica, armada para o dia em que ele precisar dela.

O que fazer

A oposição democrática tem três tarefas concretas, e nenhuma delas é esperar.

➡️ Expor a aritmética antes que ela vire fato. Toda eleição para a presidência do Senado tem que ser disputada em público, com o eleitor sabendo o que está em jogo. Não é uma disputa interna entre senadores: é a escolha de quem segura o gatilho do impeachment. Quem vota em Marinho precisa dizer ao eleitor que está votando no coordenador de campanha de um homem que se autoproclamou presidente dos Estados Unidos.

➡️ Cobrar a resposta institucional que já existe. Há duas ações em curso — o ofício do PSOL a Alcolumbre pedindo apuração de abandono de mandato e a ação popular que pede a suspensão do salário de R$ 46.366,19 por mês. O Senado não pode seguir pagando um senador que não comunica ausência, não pede licença e não aparece. Flávio já usou o voto remoto para votar a emenda da escala 6×1 enquanto fazia campanha — ou seja, ele sabe como aparecer. Ele escolheu não aparecer.

➡️ Registrar a contradição que desmonta o personagem. Ele diz que é perseguição política e que o sistema é uma farsa. Mas o mesmo sistema que ele diz farsante elegeu, neste ano, quatro pessoas da própria família: os irmãos Carlos (Senado) e Jair Renan (Câmara), a madrasta Michelle (Senado) e o tio Renato (deputado). Elegeu o partido dele como maior bancada das duas Casas. Ele aceitou tudo isso. Só não aceitou perder a Presidência.

Um homem que contesta o sistema apenas quando perde — e usa o mesmo sistema para eleger a família inteira e comandar o Senado — não está defendendo democracia. Está fazendo a conta de quantos votos precisa comprar com o mandato dos outros.

E o dado mais eloquente da semana não veio dele. Veio de Trump: perguntaram ao presidente americano se ele se encontraria com Flávio. A resposta foi que não tem planos para o encontro, mas que ele pode ficar nos Estados Unidos o tempo que quiser. E Marco Rubio, secretário de Estado, apressou-se a dizer que Washington não esteve “diretamente envolvido” na fuga — embora o New York Times e o Wall Street Journal apontem que o avião foi fretado por Jason Miller, assessor de Trump, e o diretor da companhia aérea tenha dito à AFP que o voo foi pago por um intermediário a partir de uma conta bancária americana.

Traduzindo: o império deu o visto, deu o avião, deu o silêncio, mas não quer ser visto ao lado dele. Flávio é um hóspede tolerado — e é a partir desse lugar, sem apoio formal, sem encontro, sem endosso, que ele pretende comandar o Senado brasileiro e derrubar um presidente eleito por 64 milhões de votos.

Faltam três meses para a eleição da presidência do Senado. É o prazo que o país tem para entender que o golpe de 2026 não será uma invasão de prédio: será uma votação em plenário, com quórum, ata e a assinatura de gente de terno.

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