O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) reduziu nesta quarta-feira (5) a taxa básica de juros da economia brasileira de 14,25% para 14% ao ano. É a quarta queda consecutiva. A inflação desacelera: o IPCA-15 foi de 0,06% em julho, e a taxa em 12 meses caiu para 4,52%, abaixo dos 4,80% do período anterior. A economia responde. Os juros caem. E a dívida pública, que explodiu durante o período de Selic a 15%, começa a ter folga.
De junho de 2025 a março de 2026, a Selic ficou em 15% ao ano, o maior nível em quase 20 anos. Nove meses de juros na estratosfera. A dívida pública bruta saltou de 71,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em dezembro de 2022 para 81,9% em junho de 2026, alcançando R$ 10,8 trilhões. A Instituição Fiscal Independente (IFI) projeta que a dívida pode chegar a 95,7% do PIB no último ano do próximo governo. Mas a pergunta certa a se fazer é: por que a dívida cresceu?
A conta que sangra
A dívida cresceu porque o governo é o maior devedor da economia. E paga juros de rentista. A cada 0,25 ponto percentual de Selic, o Tesouro Nacional economiza bilhões em juros da dívida pública. A Selic esteve a 15% durante nove meses. O mercado financeiro recebeu essa taxa. Agora que os juros começam a cair, a mesma dívida que cresceu por causa da taxa de juros começa a se desinflar. A aritmética é simples: juro menor, dívida menor.
O BC justificou o corte dizendo que o ajuste é “compatível com a estratégia de convergência da inflação para o redor da meta do próximo período”. A meta é 3%, com intervalo de tolerância entre 1,50% e 4,50%. A inflação em 12 meses está em 4,52%, acima do teto, mas em queda. O Copom iniciou o corte dos juros em março, num cenário de desaceleração da inflação, mas alerta que a guerra no Oriente Médio, que se refletiu no aumento dos preços de combustíveis e alimentos, dificulta a queda da taxa.
A hipocrisia do ajuste
A queda da Selic expõe a hipocrisia do discurso do ajuste fiscal. Enquanto a Selic esteve a 15%, a dívida pública explodiu e o mercado financeiro lucrou. Agora que os juros caem, os mesmos analistas que lucraram com a taxa alta aparecem pedindo corte de BPC, salário mínimo e gastos sociais. Arminio Fraga, ex-presidente do BC, diz que “o maior devedor da economia é o governo e isso põe pressão nas taxas de juros”. Marcus Pestana, da IFI, defende “meta fiscal pura” e ajuste no primeiro trimestre de 2027. Fábio Giambiagi, da Fundação Getulio Vargas (FGV), defende revisão do BPC.
A conta que sangra o Orçamento não é o BPC. É a Selic. A cada corte de 0,25 ponto, o Tesouro respira. A cada mês a 15%, o rentista engorda. A dívida pública não é fruto de gasto social descontrolado. É fruto de juros de rentista. E o rentista não quer abrir mão dos juros. Quer abrir mão do BPC.





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