Venceram por pouco, roubaram muito, caem depressa

Fraude, plataformas e pilhagem: o mapa completo do padrão fascista na América do Sul

Por Frente Livre
fascismo América do Sul
Imagem: FLIA

O continente virou uma linha de montagem do fascismo emanado dos Estados Unidos — e agora se conhece a linha inteira, do começo ao fim do percurso. Entre novembro de 2024 e julho de 2026, cinco países da América do Sul elegeram presidentes da extrema direita por uma receita reconhecível: vitórias por margens curtas, resultados contestados por denúncias de fraude, manipulação por plataformas de redes sociais, bênção de Donald Trump e alinhamento com Washington. Menos de um ano depois, a fatura chega: desaprovação estratosférica, pacotes de choque e medidas absurdas contra a população pobre. E no fim da linha, onde o processo se completa, não há mais eleição — há um presidente sequestrado por fuzileiros americanos e um país pilhado no petróleo e no ouro. O Brasil, com o segundo turno em 25 de outubro, é a última barricada da resistência progressista democrática — e a única com um caso de manipulação algoritmica a caminho do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com número de processo.

 

>> >> O documentário sobre a Conspiração contra o Brasil, produzido na série Revelando Brasil, está disponível ao fim deste texto.

 

Acordo Trump PCC CV ‘Escudo das Américas’ é um clube de presidentes fascistas e aduladores de extrema direita, que concordam em transformar a América Latina em quintal dos EUA. Foto: Casa Branca

Peru: os 49 mil votos, a gasolina e a tesoura nas crianças

A estreiteza extrema é do Peru. Keiko Fujimori venceu o segundo turno de 7 de junho com 50,135% contra 49,865% de Roberto Sánchez — uma diferença de cerca de 49.641 votos em 18 milhões, na quarta tentativa da herdeira do fujimorismo. Sánchez não reconheceu o resultado:

É um fraude em andamento”, afirmou, antes de cravar: “Nessas condições de transgressão das normas, não reconheceremos o governo da senhora Fujimori”.

A contagem só terminou em 3 de julho, com os mercados aplaudindo — a Moody’s comemorou a liberação de projetos de mineração esperados com a chegada de Keiko Fujimori. Posse em 28 de julho, equipe pró-mercado com Elmer Cuba na Economia, aprovação de 60% nas primeiras semanas.

A lua de mal acabou rápido. Em setembro, a região de Ucayali entrou no terceiro dia de greve: o diesel chegou a 22 soles — cerca de R$ 33 — o galão, e o gasohol saltou de S$ 16 para S$ 20. O mundo vivia choque no preço do petróleo pela crise do estreito de Ormuz, e o governo repassou o custo ao povo sem qualquer proteção social. Transportadores e organizações sociais bloquearam a rodovia Federico Basadre, a principal via de Pucallpa. A resposta do governo foi a polícia, com cacetetes, g[as lacrimogênio e balas de borracha. Os manifestantes exigiram a presença de Keiko. Ela não foi. A crise se espalhou para quatro regiões — Ucayali, Loreto, Arequipa e Tacna —, com filas em postos, comércios fechados e aulas suspensas. O subsídio veio tarde e só para Ucayali. “O governo ilegítimo também é incapaz de solucionar os efeitos da economia”, cravou Sánchez.

Um mês depois, o governo virou a chave para dentro da sala de aula: decreto de disciplina para a rede pública que proíbe cabelo comprido em meninos e, para as meninas, maquiagem, cabelo tingido, unhas pintadas, brincos e piercings — além de definir o comprimento das saias, proibir celulares, retomar notas de disciplina e autorizar a expulsão de alunos. “A ordem não deve existir apenas nas ruas; ela também precisa retornar às nossas escolas”, justificou Keiko. E completou: “Há limites, há direitos, mas também há deveres (…). Os meninos devem usar cabelo curto. Está totalmente proibido tingir o cabelo ou usar maquiagem”. E mais: “Não vamos perturbar a tranquilidade da grande maioria, que vem para aprender, por causa de alguns poucos alunos indisciplinados”. A frase que não ela disse revela a lógica: a “ordem” que não conseguiu entregar contra a revolta da gasolina será aplicada em crianças. Especialistas chamaram o pacote de “décadas de retrocesso”.

Colômbia: o decreto do cacete na véspera da marcha

Na Colômbia, o segundo turno de 21 de junho foi decidido por 249 mil votos: Abelardo de la Espriella, 51,3%, contra Iván Cepeda, 48,70%. Cepeda impugnou cerca de 33.000 mesas e adiou o reconhecimento da derrota. E o então presidente, Gustavo Petro, foi mais longe: insistiu que o vencedor foi Cepeda e que houve fraude, urdida pelo Governo de Israel com ataque cibernético à totalização dos votos. Repreendido pelo Partido Conservador, respondeu: “Claro que minhas declarações são graves, mas não irresponsáveis, estão completamente provadas”.

O endossado por Trump assumiu em 7 de agosto, em Cali, e no primeiro dia declarou as conversas de paz com as guerrilhas “completamente esgotadas”. Três dias depois, operação militar matou seis supostos guerrilheiros. Em agosto, o governo entregou às entidades de controle um “livro branco” com o que dizia serem irregularidades da gestão Petro — o desmonte organizado do legado da primeira esquerda presidencial colombiana. Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, voou a Bogotá em setembro para celebrar “uma nova era” nas relações bilaterais.

Depois veio a rua — e o cacete veio antes dela. Na terça-feira (13), poucas horas antes da primeira grande marcha da oposição, Espriella assinou o decreto que flexibiliza o uso da força policial em caso de danos ou bloqueios de vias — na prática, a legalização da repressão contra manifestações pacíficas. A justificativa, na fala dele: “Combater o terrorismo urbano disfarçado de protesto”. Na véspera, um ataque ordenado pelo presidente contra um acampamento guerrilheiro deixou quatro mortos, entre eles uma adolescente, e três militares gravemente feridos em campo minado — o quarto ataque em dois meses. O cardápio: “prisão ou túmulo” aos insurgentes e extradições em massa para os Estados Unidos.

A marcha de 14 de outubro reuniu milhares em seis cidades — sindicatos, professores, estudantes, comunidades indígenas e a oposição de Petro, gritando “vai cair!” contra os cortes e as reformas trabalhista e previdenciária. O próprio Espriella contabilizou 62.000 pessoas e apressou-se a registrar que 98% foram pacíficas — o número do governo confirmando, sem perceber, a força da oposição dois meses após a posse. A oposição já discute greve nacional em novembro.

No meio desse caminho descobriu-se que Espriella, que é colombiano mas morou parte da vida em Miami, era advogado de traficantes de drogas quando morava nos EUA.

 

alerta da Colômbia

Ultra-direitista Abelardo de la Espriella discursa atrás de cabines blindadas: discurso de terror, fake news e dinheiro de Israel na eleição colombiana. Foto: RS/Fotos Públicas

Equador: a fraude acusada dos dois lados

O Equador segue o roteiro. Em 2023, Daniel Noboa venceu Luisa González por pouco mais de dois pontos — e ela denunciou fraude e pediu recontagem. Noboa, repetindo exatamente o mesmo argumento de Jair Bolsonaro no Brasil três anos antes, disse que “houve muitas irregularidades” e que tinha “evidência” de um fraude que o impedira de vencer “com uma cifra maior”. Em abril de 2025, com Noboa reeleito, González voltou a denunciar fraude e pedir recontagem — e, no fim, foi Noboa quem alegou irregularidades sem provas, descartadas por observadores internacionais. No comando, o pacote: “conflito armado interno” contra as facções, estados de emergência em série, 2025 como o ano mais letal da história do país, corte do subsídio do diesel que deflagrou a greve nacional com caminhões militares nas ruas. A organização Human Rights Watch registrou que a resposta de segurança “fracassou em conter a violência” e aumentou as denúncias de violações de direitos humanos. Em novembro de 2025, Noboa pôs em votação um referendo sobre a instalação de bases militares estrangeiras em solo equatoriano. Mais de 60% dos eleitores disserão um rotundo “não” e derrotaram a agenda do presidente — e a aprovação seguiu caindo.

Bolívia: o diesel que subiu 83% em uma noite

Rodrigo Paz venceu, em outubro de 2025, o primeiro segundo turno da Bolívia em duas décadas, com 54,5%, e assumiu em 8 de novembro com a melhor aprovação da América do Sul: 55,6% em maio. O resto veio em velocidade de decreto. Em 19 de setembro, horas depois de o Senado aprovar um crédito de US$ 1,9 bilhão com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Decreto Supremo 5716 mandou o diesel de Bs 9,80 para Bs 17,95 o litro — 83% da noite para o dia. O ministro da Economia, Christian Morales, anunciou o fechamento de oito a dez empresas públicas deficitárias.

Evo Morales, o ex-presidente que governou por 14 anos, desmontou o acordo:

Tem como único objetivo vender a Bolívia”, disse. E ampliou: “Este acordo demonstra que o futuro da Bolívia é planejado de fora: manda-se politicamente desde os Estados Unidos, economicamente desde o FMI e militarmente desde o Comando Sul”.

Chamou o pacto de “traição à pátria” e acusou a gestão de Paz de ser dirigida por Fernando Cerimedo, operador digital bolsonarista exilado, “e desde os Estados Unidos”. Foi Evo quem previu o golpe no bolso: “Em questão de semanas haverá um novo gasolinazo”. Acertou na semana seguinte. Estado de emergência desde maio, prorrogado em setembro com autorização para o Exército abrir estradas — e apoiadores de Evo marcharam sobre La Paz em 13 de outubro mesmo assim.

Chile: 240 dias sem o Congresso

Kast venceu Jeannette Jara, que denunciou fraude na eleição.

José Antonio Kast é o único do grupo que venceu folgado — mais de 58% contra Jeannette Jara, em dezembro de 2025. Engana quem pensa que ele foge do padrão: as outras engrenagens giraram todas. Assinou decretos de muros anti-imigração na fronteira norte em março, recusou subsidiar o combustível quando o preço disparou pela crise Irã-Estados Unidos — e tomou os primeiros protestos de rua do governo no mesmo mês — e mandou ao Congresso uma reforma constitucional de segurança que permite declarar estado de exceção por segurança pública sem aprovação prévia do Legislativo, por 120 dias prorrogáveis a outros 120: 240 dias em que o presidente pode suspender garantias sozinho. Ou seja, instalar uma semi-ditadura temporária. O ex-ministro do Interior Álvaro Elizalde cravou o diagnóstico: é “a primeira reforma explicitamente iliberal” do governo de Kast. E subiu o tom: “Fizeram às pressas e no fim virou uma porcaria”. Acadêmicos chamam a peça de “constitucionalismo autoritário”. Oito meses depois: aprovação de 27%, desaprovação de 64%, 51% dos chilenos querendo a reforma retirada e 64% achando que o governo não tem plano de segurança — o tema que o elegeu, freneticamente alardeado pelas redes sociais à época.

Argentina: o pior placar do modelo

Javier Milei não venceu apertado nem precisou de fraude — seu padrão é outro: o desgaste acelerado e as medidas contra o mais pobre. A pobreza oficial chegou a 32,3% no primeiro semestre de 2026, segundo o Indec — subindo de 28,2% —, com a renda dos lares subindo 11,5%, bem abaixo do avanço de 20% no preço da cesta básica no mesmo período. No 1.000º dia de governo, em 16 de setembro, 58,2% dos argentinos avaliavam o governo negativamente — o pior registro do modelo. Com os números derretendo e Trump pisando no tema, Milei foi à televisão reativar a reivindicação das Malvinas, o nacionalismo de emergência para quem não tem o que oferecer na mesa.

Além disso, Milei conseguiu aprovar no Congresso um pacote de reformas trabalhistas que retrocedem a legislação a níveis pré-industriais. A proposta é agressiva: ampliou o período de experiência de três para até oito meses (facilitando demissões sem custo), permite jornadas de até 12 horas diárias sem pagamento de horas extras (através de um banco de horas) e autoriza o parcelamento de indenizações rescisórias em até 12 vezes para pequenas empresas. Além disso, o texto ataca o próprio poder de mobilização dos trabalhadores. Ao classificar diversos setores como “essenciais”, a lei obriga a manutenção de 50% a 75% do efetivo durante greves, o que, na prática, anula o impacto de qualquer paralisação futura.

Como se não bastasse o ataque frontal aos direitos dos trabalhadores, o presidente argentino coleciona episódios de misoginia institucional, aparelhamento do estado com empregos altos a influenciadores de extrema direita e um ruidoso escândalo de corrupção envolvendo criptomoedas. Com o caos econômico fabricado por Milei, desde que ele assumiu o número impressionante de 32 mil empresas simplesmente fecharam as portas na Argentina.

Venezuela: o fim da linha — presidente sequestrado, petróleo e ouro pilhados

No extremo do padrão, não há eleição manipulada. Simplesmente não há eleição. Em janeiro de 2026, uma operação conduzida pelo exército dos Estados Unidos resultou na captura do presidente Nicolás Maduro — o filho dele descreveu o momento à imprensa: “Pensávamos que ele ia morrer naquele dia”. Desde então, o país é conduzido pela presidente interina Delcy Rodríguez, com participação da Assembleia Nacional e sob supervisão do governo dos Estados Unidos. O Tesouro americano retirou as sanções contra Jorge Rodríguez, líder do Legislativo e peça central na abertura do setor petrolífero a Washington, em 14 de outubro — foi uma espécie de recompensa pelo serviço.

A pilhagem tem duas bochechas. No petróleo: no dia 3 de janeiro, Trump anunciou que os Estados Unidos assumiam o controle das reservas venezuelanas — cerca de 300 bilhões de barris, as maiores do mundo. Uma ordem executiva de emergência protege as receitas detidas nos EUA contra tribunais e credores. Trump reuniu as petroleiras na Casa Branca — norte-americanas, a italiana Eni e a espanhola Repsol — e reservou o direito de usar força militar para proteger os interesses petrolíferos e os trabalhadores americanos em território venezuelano. O coroamento veio em 28 de agosto, com Delcy Rodrigues anunciando: “A Venezuela anuncia um acordo histórico com o governo dos Estados Unidos, que terá um impacto significativo no renascimento da nossa nação” — um protocolo para desenvolver 17 campos estratégicos com potencial comprovado de 65 bilhões de barris. Era a fala de uma presidente fraca, com a arma apontada para a cabeça. Trump classificou-o como “o maior acordo de petróleo da história mundial”.

Delcy Rodrigues ao assumir o poder na Venezuela, após o sequestro criminoso de Nicolas Maduro.

O petróleo comprado abastece a reserva estratégica americana e o uso militar. E o plano de fundo, segundo a apuração: usar as reservas venezuelanas para derrubar o barril a US$ 50 e arrancar da Opep o controle da oferta global. O próprio governo venezuelano, no primeiro comunicado após o ataque, cravou o diagnóstico: a operação buscava “apoderar-se dos recursos estratégicos da Venezuela, em particular do seu petróleo”.

No ouro: as reservas do Banco Central — 31 toneladas avaliadas em US$ 4 bilhões, confiscadas pelo Reino Unido em 2019 — estão sendo transferidas do Banco da Inglaterra para o Federal Reserve Bank de Nova York. A condição: a Venezuela não pode vender o ouro nem trazê-lo de volta — fica congelado sob guarda americana, e Delcy “não teria acesso direto às reservas”. O destino do ouro entrou na agenda de Lula em Nova York, em setembro. O balanço: um presidente sequestrado, um governo interino tutelado, 65 bilhões de barris sob controle majoritário americano e 31 toneladas de ouro presas em Nova York.

Brasil: a última bancada e o teste final

O Brasil é a peça que fecha a linha de montagem — e a que melhor documenta a engrenagem das plataformas. Flávio Bolsonaro (PL) venceu o primeiro turno e disputa o segundo com Lula em 25 de outubro, com o mesmo cardápio regional: pago por hora como Milei, 6×1 flexível, discurso exacerbado de segurança pública inflado nas redes sociais e tesouraço no melhor estilo do chileno Kast.

E com a mesma arquitetura: a campanha de Lula denunciou ao TSE que a Meta restringe o alcance do presidente e impulsiona artificialmente perfis cabo eleitorais de Flávio. Os advogados Gean Ferreira e Evelyn Santos escreveram:

A entrega de conteúdos da plataforma é seletiva. De um lado, os conteúdos do candidato Luiz Inácio Lula da Silva e de seus apoiadores sofrem restrições de entrega sem qualquer justificativa ou transparência. Por outro lado, perfis que atuam como cabos eleitorais da candidatura adversária de Flávio Bolsonaro, a exemplo do deputado Nikolas Ferreira, recebem um alcance desproporcional e artificial”.

A Meta reconheceu desativar indevidamente a conta de anúncios da campanha em setembro, errar a contagem dos Reels em outubro — e sua inteligência artificial bloqueou imagens com o nome de Lula, mas gerou com o de Flávio. O ministro Marco Aurélio Bellizze ordenou ainda a remoção, em 24 horas, do vídeo falso que associava uma mulher cheirando cocaína ao comício de Lula na Avenida Paulista — peça divulgada por Flávio, Carlos Bolsonaro, Pablo Marçal, Rony Gabriel e o governador Tarcísio de Freitas. Sem multa: a mentira teve um dia inteiro de vida.

A rede de bênçãos é a mesma de sempre. O “Tigre” colombiano foi endossado por Trump e saudado por Milei, Noboa, Kast, Peña e Fujimori — a mesma turma que Rubio cortejou em três capitais em setembro. É a bancada continental da extrema direita fascista: eleita apertada ou imposta à força, governando contra o povo e desmoronando rápido. O antídoto foi testado em Brasília na semana passada: uma PEC do fim da 6×1 aprovada por 75 a 1, com o povo na rua e o presidente cobrando.

Em 25 de outubro, o continente inteiro vai assistir ao que acontece quando a linha de montagem tenta produzir sua última peça na terra do maior eleitorado do bloco — e à resistência do povo que se organizou para impedir.

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