Todo mundo quer o voto das mulheres

ARTIGO DE OPINIÃO - Somos a maioria do eleitorado e temos o poder de decidir a eleição

Por Adriana Vilela Toledo
Voto das mulheres
Adriana Vilela Toledo. Foto: Reprodução LinkedIn

Faltam 12 dias para as eleições. As mulheres representam 52,84% do eleitorado brasileiro. São quase 84 milhões de eleitoras. Mais da metade dos votos. Mas esse número me provoca uma pergunta que considero ainda mais importante: somos maioria apenas na hora de votar ou também somos protagonistas nos projetos de país?

Não basta falar em “políticas para mulheres”.

É preciso olhar para a vida real.

Para a mulher que trabalha fora e, ao chegar em casa, começa uma segunda jornada.

Para a mãe que precisa de creche para trabalhar.

Para quem empreende, produz no campo, pesquisa, sustenta uma família, ocupa o serviço público.

Para quem ainda recebe menos.

E para quem vive sob ameaça ou violência.

A vida das mulheres não cabe em uma única política pública.

Ela passa por renda, moradia, trabalho, saúde, segurança, cuidado, tempo e autonomia.

Nesta eleição, vale olhar para o que cada candidatura propõe. Mas também considero legítimo olhar para aquilo que já foi feito.

No governo do presidente Lula, as mulheres não aparecem apenas como destinatárias de políticas públicas. Há uma escolha clara de colocá-las em posição central em áreas como renda, moradia, cuidado, trabalho e enfrentamento à violência.

Essa é uma visão de sociedade com a qual me identifico: a mulher não como personagem secundária da família ou da economia, mas como sujeito de direitos, de autonomia e de decisão.

No Bolsa Família, cerca de 84% das famílias beneficiárias têm mulheres como responsáveis familiares. No Minha Casa, Minha Vida, famílias chefiadas por mulheres estão entre as prioridades, e os contratos são formalizados preferencialmente em nome delas.

Isso não é um detalhe.

Renda e moradia também são políticas de autonomia feminina.

Quando uma mulher tem renda própria, uma casa em seu nome e condições para decidir sobre a própria vida, muda a sua história — e muitas vezes a de toda a família.

A discussão sobre o fim da escala 6×1 também precisa entrar nessa conversa.

É uma pauta de trabalhadores e trabalhadoras, mas seu impacto tem dimensão particular para milhões de mulheres que acumulam emprego, tarefas domésticas e cuidados não remunerados. O próprio Ministério das Mulheres tem relacionado a redução da jornada à sobrecarga feminina e à Política Nacional de Cuidados.

Tempo também é autonomia.

Assim como renda.

Assim como moradia.

Assim como segurança.

E falar da vida das mulheres exige falar de violência.

O governo instituiu, em 2023, o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios e, neste ano, Executivo, Legislativo e Judiciário passaram a atuar conjuntamente no Pacto Brasil contra o Feminicídio, com medidas de prevenção, proteção e responsabilização.

Porque há uma verdade que não comporta relativização: uma mulher precisa estar viva para exercer qualquer outro direito.

Mas proteger não basta.

Mulheres não querem apenas proteção. Querem autonomia, voz e poder de decisão.

É justamente aí que aparecem diferenças importantes entre projetos políticos. No bolsonarismo, a valorização da mulher aparece frequentemente associada aos papéis de mãe, esposa e cuidadora, com forte centralidade da família e da maternidade. A questão é saber se essa visão dá conta da mulher em toda a sua dimensão: como mãe, se quiser ser, mas também como trabalhadora, cidadã, produtora, liderança e sujeito de parte ativa das decisões do país.

Poder trabalhar. Poder empreender. Poder produzir. Poder cuidar — e também ser cuidadas.

Poder decidir. Poder ocupar os lugares onde as decisões são tomadas.

E aí aparece uma das grandes contradições da nossa democracia: somos maioria entre quem escolhe, mas ainda estamos longe de ser maioria entre quem decide.

Isso precisa nos incomodar.

Inclusive quando pensamos nas mulheres do campo, do agro, da pesca, das águas e das florestas.

Elas produzem alimentos, conhecimento, renda e desenvolvimento.
Não são coadjuvantes do Brasil. São parte de quem faz o Brasil acontecer.

Mas há também uma reflexão que precisa ser feita por nós mesmas.

Ser maioria nas urnas traz responsabilidade.

Não a responsabilidade de pensar igual.

Muito menos de votar igual.

Mulheres têm histórias, valores, crenças e visões de mundo diferentes. E isso é democracia.

Nossa responsabilidade é outra: perceber a força que temos.

É não entregar nosso voto ao slogan mais eficiente, ao medo ou à emoção do momento.

É comparar propostas.

É olhar para políticas realizadas.

É perguntar quem fala de renda, cuidado, saúde, trabalho, violência, autonomia e participação.

E, principalmente: que lugar este projeto de país reserva para mim?

Apenas o de mãe?

O de cuidadora?

O de alguém que precisa ser protegida?

Ou também o de trabalhadora, produtora, empreendedora, pesquisadora, dirigente e protagonista das decisões?

A força numérica das mulheres só se transforma em força política quando vem acompanhada de informação, reflexão e escolha consciente.

Faltando poucos dias para irmos às urnas, talvez essa seja uma pergunta tão importante quanto “em quem vou votar?”: que Brasil estou ajudando a escolher?

Todo mundo quer o voto das mulheres.

Mas 52,84% do eleitorado é muito mais do que um público a ser conquistado durante uma campanha.

É uma força democrática.

E força democrática também significa responsabilidade.

Responsabilidade de comparar. De questionar. De lembrar o que já foi feito. De olhar para o que está sendo proposto.

E, sobretudo, de perguntar: que lugar nós, mulheres, queremos ocupar no Brasil que sairá das urnas?

Porque não queremos apenas ser maioria na hora de escolher. Queremos ser protagonistas do país que ajudamos a escolher.

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ADRIANA VILELA TOLEDO
é pedagoga especialista em Pedagogia Empresarial e Administração Pública.

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