Existe um nonsenso nesta eleição que a anestesia coletiva quase engoliu. Um candidato à Presidência da República — o cargo máximo de um país de mais de 200 milhões de habitantes — é sócio, compadre e cliente de um homem que foi à Justiça, por escrito, em documento assinado, declarar que apostou quase R$ 9,8 bilhões em um único ano e perdeu R$ 163,2 milhões no jogo. E a Polícia Federal, que olhou para esses números, chegou à única hipótese que eles admitem: lavagem de dinheiro.
No sábado (18), veio a público o capítulo que fecha o círculo: a PF enviou ao Supremo Tribunal Federal um pedido de inquérito contra o senador Flávio Bolsonaro por suspeita de lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomaz — o homem dos bilhões, também investigado por repasses de recursos desviados do INSS. No STF, o relator sorteado foi o ministro Alexandre de Moraes — o mesmo ministro que o irmão do candidato passou meses tentando ver punido por Washington. O homem que Eduardo Bolsonaro quis ver sancionado pelos EUA é quem agora formalmente investiga o irmão, a seis dias do segundo turno.
É a segunda investigação de Flávio no STF. A primeira é o Dark Horse — o filme do pai financiado com o dinheiro do Banco Master, aquele cujo áudio em que Flávio cobra de Vorcaro o repasse de ao menos US$ 24 milhões (~R$ 122,7 milhões) já é matéria registrada. Agora há uma segunda frente, nascida exatamente onde este dossiê apontou primeiro: as apostas.
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A confissão assinada
Comece pelo absurdo que ninguém consegue contornar. Willer Tomaz não foi acusado por inimigo de ter apostado bilhões. Foi ele próprio que entregou à Justiça os números: moveu ação contra a Blaze na 44ª Vara Cível de São Paulo, anexou o comprovante anual da plataforma e declarou R$ 4,8 bilhões em ganhos e R$ 4,963 bilhões em perdas em 2025 — prejuízo líquido de R$ 163,2 milhões. Com base nesse prejuízo, pede a devolução dos valores alegando “vício em jogos”.
Pare um segundo sobre o que isso significa. Um advogado — um advogado — aposta R$ 9,8 bilhões em um ano. Não existe honorário, consultoria ou negócio lícito que explique a origem desse dinheiro. Ninguém simplesmente “tem” R$ 10 bilhões para girar numa casa de apostas. O único caminho que o dinheiro dessas proporções conhece é o que a PF formalizou: a hipótese de lavagem — o recurso ilícito entra, “aposta”, gira entre o fluxo de milhões de apostadores comuns e sai com a aparência de ganho honesto. O “vício em jogos” que ele alega na ação é, no máximo, o disfarce mais conveniente da história: um vício que só dá prejuízo no papel — mas ninguém explica de onde veio o bilhão para perder.
E o pior: ele entregou o mapa da própria suspeita. A PF não precisou invadir nada para saber quanto ele movimentou — foi à ação judicial que ele mesmo ajuizou, e lá estavam os comprovantes, assinados, datados, no processo que ele abriu para pedir de volta R$ 163 milhões.
O sócio do candidato
Agora junte o candidato ao quadro, porque é aqui que o nonsenso vira escândalo de Estado. Willer Tomaz não é um conhecido de Flávio. É o que a apuração vem registrando há meses: sócio, compadre, operador financeiro. Os registros da PF — já em mãos — incluem referências a festas, encontros e reuniões dos dois. A empresa de Tomaz pagou voos de Flávio para a Europa em 2025, como mostrou a Folha na sexta (16), atuando como intermediária de passagens para custear viagens de caráter pessoal dos dois núcleos familiares. A conta no Santander — aquela da offshore Alcazar Holdings, dona de um terço do jatinho ligado a Vorcaro — tinha o nome de Flávio como “usuário master” e uma conta descrita como “PF Willer” no mesmo contrato; a desvinculação de ambas foi pedida em 22 de maio de 2025, um mês após o estouro do escândalo do INSS, e executada pelo banco em duas horas.
E há a engrenagem que o próprio tomaz financiou para circular dinheiro de apostas pelo Estado: a RioPag S.A., controlada por Tomaz “por meio de laranjas” segundo a representação do deputado Lindbergh Farias, com contrato de exclusividade com a Loterj para intermediar pagamentos de apostas esportivas — com R$ 20,9 milhões em recursos públicos cujo destino pede apuração. Na direção de 14 empresas ligadas a Tomaz aparece Lídia Mazelli, a empregada doméstica usada como laranja. E o beneficiário final de toda a estrutura, segundo o relato levado às autoridades, seria o candidato: “toda intermediação com as bets passava por ele”.
Tomaz, aliás, é também dono da Rede Loto, primeira bet a conseguir licença de operação no país, em maio de 2023, emitida pelo governo do Rio de Janeiro. E a Revista Fórum revelou os diálogos em que ele e a Blaze combinavam driblar a regulamentação federal: saques liberados sem reconhecimento facial, sugestões de apostas em criptomoedas.
O candidato não explica
Diante de tudo isso — o inquérito no STF, o sócio bilionário, a conta offshore, os voos pagos, a RioPag — qual foi a resposta de Flávio Bolsonaro? Nenhuma. Zero explicação sobre o que o nome dele fazia como usuário master de uma offshore. Zero explicação sobre a parceria com o homem que aposta R$ 10 bilhões por ano. O que sobra é o gesto de sempre: apontar o dedo para o filho do adversário e gritar “Lulinha” para qualquer microfone que se aproxime.
É o espelho invertido desta campanha. O candidato que acusa o filho do presidente de corrupção tem um sócio sob investigação da PF por lavagem, uma conta de paraíso fiscal no próprio nome, duas investigações formalmente abertas no STF e um áudio cobrando US$ 24 milhões do financiador do filme do golpe. Se cada suspeita contra o Lulinha valesse uma linha de manchete, as suspeitas documentadas contra o próprio candidato já teriam escrito um dossiê — e é exatamente isso que este site publica, tijolo por tijolo, desde julho.
A comparação que faz o eleitor acordar
Para que ninguém siga anestesiado com “mais um escândalo do Flávio”, ponha os números na balança do que eles significam. R$ 163,2 milhões — só o prejuízo que ele declara — é mais do que o orçamento anual da maioria absoluta dos municípios brasileiros. R$ 9,8 bilhões movimentados em apostas em um ano é mais que o PIB de mais de cinquenta países. R$ 13 bilhões — o total que a PF apura até junho de 2026 — é uma soma que a maior parte dos governadores do Brasil não movimenta em quatro anos de gestão.
E esse dinheiro girava numa casa de apostas — o setor que, como este dossiê documentou, se tornou a máquina preferencial para invisibilizar recurso ilícito: a mesma Blaze que liberava saques sem biometria para o sócio do candidato, o mesmo setor cuja intermediação com a Loterj tinha um beneficiário final oculto que, segundo o relato das autoridades, era o próprio presidenciável.
Agora o nonsenso final, o que precisa ser gritado nos sinos: este homem pede o voto de 165 milhões de eleitores para comandar o cofre da República — e o sócio dele acaba de ser motivo de um pedido de inquérito por lavagem de dinheiro no Supremo. Se eleito, ganha imunidade temporária contra processo criminal por fatos anteriores ao mandato. Ou seja: os bilhões girados nas apostas, os US$ 24 milhões do Dark Horse, a offshore do jatinho — tudo isso poderia esperar, protegido pela faixa presidencial, até o fim de um eventual governo.
Faltam seis dias. O eleitor não está escolhendo entre dois projetos: está escolhendo entre um país que processa quem desvia e um país governado por quem desvia — com o inquérito parado na porta e o relator esperando o mandato acabar. O nonsenso tem nome, tem CPF, tem conta offshore e tem um sócio que aposta bilhões. Chama-se candidato.

