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BC não liquida BRB
Imagem: FLIA
ECONOMIA

Por que o BRB ainda não foi liquidado?

Se o BC bater o martelo, o FGC evapora e a farra política acaba

O Banco Central pediu explicações ao Banco Regional de Brasília (BRB). Quer saber quanto do capital de giro diário do banco é composto atualmente de recursos do Tesouro do Distrito Federal, controlador da instituição. O regulador não justificou a finalidade da pergunta, o que, no jargão dos corredores de Brasília, significa que já sabe a resposta e quer ver se o banco tem coragem de dizer. O prazo para a resposta venceu na quarta-feira (22). O BRB, em nota, negou que sua liquidez decorra de “medidas extraordinárias” e afirmou que “honra compromissos.” A frase é de quem sabe que está sendo observado e precisa parecer normal. Não está. Não é.

A pergunta do BC é a pergunta que todo Brasil deveria estar fazendo. Afundado em corrupção bilionária, insolvente, transformado num peso morto que arrasta o Tesouro do Distrito Federal para o buraco e prejudica a vida da população, com seis mortes registradas na rede pública de saúde em menos de um mês por falta de recursos, por que o BRB ainda não foi liquidado? A resposta tem três camadas, e nenhuma delas é bonita.

A primeira camada: o risco sistêmico

A primeira razão pela qual o BC não bateu o martelo é a mais técnica e também a mais cínica. O Brazil Economy noticiou em 28 de maio que o Banco Central acelerou discussões internas sobre a liquidação do BRB, mas que o “risco sistêmico” mobilizou o governo e bancos privados. Um colapso desordenado do BRB, segundo fontes próximas às negociações, “teria capacidade de ampliar a pressão sobre instituições médias e elevar os custos.”

Em linguagem de rua: se o BRB cai, o Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que é o fundo que protege o dinheiro depositado por milhões de brasileiros em bancos de todo o país, pode simplesmente evaporar.

O FGC é a almofada que o sistema financeiro usa para garantir depósitos até R$ 250 mil por CPF por instituição. Se o BRB for liquidado, o FGC terá que cobrir os depósitos de todos os correntistas, e o rombo é tão grande que pode furar a almofada. Ou seja, o BC não liquida o BRB não porque o banco mereça sobreviver, mas porque a sua morte pode matar junto o sistema de garantia que protege o dinheiro de gente que nunca ouviu falar do Banco Master, do Daniel Vorcaro, do Ibaneis Rocha ou da Celina Leão. O banco é grande demais para cair. É a lógica do “too big to fail” aplicada a um banco que é pequeno em tamanho, mas gigantesco em rombo.

O Valor Econômico, em 23 de março, registrou que o BC “reluta em dar prazo adicional para o BRB sem que o seu controlador apresente uma proposta de solução viável” e que o regulador “deve avaliar todas as opções.” A frase é diplomática. A tradução é: o BC sabe que o banco está morto, mas não tem instrumento legal para enterrá-lo sem causar dano colateral. O Congresso ainda não aprovou a nova lei de resolução bancária que daria ao BC mais opções para preservar o valor do banco sem liquidação sumária. Sem a lei, o BC está com a mão amarrada. Com a lei, talvez não esteja, mas a lei não vem.

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A segunda camada: a proteção política

A segunda razão é política, e é aqui que a coisa fica obscura. O caso do BRB não está sendo resolvido apenas no Banco Central, que é onde deveria ser resolvido. Está sendo resolvido no Supremo Tribunal Federal, por meio de dois ministros, em dois processos distintos, que correm no mesmo tribunal sem que um converse publicamente com o outro.

O primeiro ministro é Luiz Fux. Fux é o relator da Ação Cível Originária (ACO) 3755, que é a ação movida pelo governo do DF para compelir a União a participar do socorro financeiro ao BRB. Fux mediou duas audiências de conciliação no STF e, em 28 de maio de 2026, homologou o acordo entre União, Distrito Federal, Banco Central, BRB e FGC que autoriza o DF a contratar operação de crédito de até R$ 6,6 bilhões junto ao Fundo Garantidor de Créditos. O acordo prevê financiamento do FGC ao governo do DF, com garantia de bancos privados e sem uso direto de recursos da União. Em 24 de junho, o GDF sancionou a lei que autoriza a operação.

Mas o dinheiro não veio. O empréstimo enfrenta “resistência de bancos privados, que questionam os riscos jurídicos das garantias oferecidas”, segundo a Bloomberg. Os bancos privados não querem emprestar porque sabem que as garantias oferecidas pelo DF, que tem um rombo de R$ 1 bilhão no caixa valem menos que o papel em que foram escritas. O acordo que Fux homologou existe no papel, mas não no caixa.

O segundo ministro é André Mendonça. Mendonça é o relator do Caso Master, ou seja, da investigação criminal sobre as fraudes de Daniel Vorcaro, as prisões, a delação premiada, o iCloud do “Sicário” de Vorcaro, os indiciamentos. É o processo penal. Mendonça, nomeado para o STF por Jair Bolsonaro, de quem foi ministro da Justiça, é o mesmo ministro que dividiu o palco da 34ª Marcha Para Jesus, em São Paulo, com Flávio Bolsonaro em 4 de junho. O mesmo Flávio Bolsonaro que tem áudio pedindo dinheiro a Vorcaro, que aparece em foto ao lado do Sicário, e que é pré-candidato à presidência pela extrema direita.

A circularidade é esta: Vorcaro fraudou o BRB. Mendonça investiga Vorcaro. Fux autoriza o socorro ao BRB. Os dois processos correm no mesmo tribunal, no mesmo prédio, no mesmo andar, sem que a mão direita saiba o que a esquerda faz, ou pelo menos sem que o público saiba se sabe. O banco que foi fraudado pelo criminoso que Mendonça investiga está sendo salvo pelo acordo que Fux homologou. E nenhum dos dois ministros tem, até agora, conectado os pontos publicamente. O crime destruiu o banco. O STF socorre o banco. O STF investiga o crime. Mas o crime e o socorro seguem em prateleiras separadas, como se um não tivesse causado o outro.

E há mais. O Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF), em fevereiro de 2026, já alertou que o BRB pode sofrer intervenção do BC ainda em 2026, porque as medidas de recuperação são “frágeis” e a capitalização pode violar a Lei de Responsabilidade Fiscal. O prazo para o banco apresentar o balanço de 2025 com solução para o rombo venceu. O banco não apresentou. Nem balanço, nem solução. E o BC, que poderia ter liquidado naquela manhã, não liquidou. Porque a política disse não.

A política, neste caso, tem nome. Ibaneis Rocha (MDB), o governador bolsonarista que nomeou o presidente do BRB que comprou os papéis podres do Master, renunciou em março e deixou o DF quebrado para Celina Leão (PP), sua vice, que era parte da gestão o tempo inteiro e agora diz “precisamos melhorar” depois de seis mortes no SUS. O secretário de Economia do DF, Valdivino de Oliveira, afirmou publicamente que os recursos do Tesouro assumiriam a liquidez que seria dada pela Quadra, a gestora que faria a antecipação de até R$ 4 bilhões em troca de recuperar até R$ 15 bilhões em ativos do Master. O distrato com a Quadra aconteceu. O dinheiro não veio. E o Tesouro do DF passou a depositar mais dinheiro no BRB para garantir a “folga” que permite ao banco operar no negativo, sem recursos para fazer operações como pagamentos e empréstimos.

O governo do DF, em nota, informou que “não corresponde à realidade dos fatos que o GDF esteja usando recursos do Tesouro distrital para apoiar o Banco de Brasília.” E completou que “qualquer ilação a respeito disso é um grave desserviço à economia popular dos brasilienses e uma inequívoca tentativa de terceiros de interferir nas negociações em andamento para a assinatura de um acordo com o FGC, determinada pelo Supremo Tribunal Federal.” A nota é uma obra de ficção. O secretário de Economia disse publicamente o que a nota nega. Assessores da governadora, sob reserva, confirmaram ao UOL que o BRB passou a operar no negativo e que o Tesouro precisou cobrir a liquidez. E o BC, com sua pergunta, está pedindo o número exato. Se o número for o que todos sabem que é, a nota do GDF vira evidência de mentira.

A terceira camada: o custo humano

A terceira razão pela qual o BC não liquida o BRB é a mais cruel, porque não é razão, é consequência. O BRB não é liquidado porque a sua morte exporia o tamanho do rombo, e o tamanho do rombo exporia o tamanho do desvio, e o tamanho do desvio exporia o tamanho da tragédia humana que ele causou. Se o BRB for liquidado, o balanço terá que ser publicado. Se o balanço for publicado, a iliquidez será confessada. Se a iliquidez for confessada, a cadeia que liga o dinheiro do Tesouro distrital ao buraco do Master, e o buraco do Master à falta de médico na UPA, e a falta de médico na UPA à morte de Vilmar Pereira da Silva na recepção do Recanto das Emas, e à morte de Maria Aparecida Galdino com a placenta esquecida no corpo em Samambaia, ficará nua, crua, irreversível.

O BRB não é liquidado porque a sua liquidação é a confissão de que a corrupção do Banco Master matou gente. E matou. Seis pessoas em menos de um mês. Cada real que entrou no BRB para cobrir o rombo do Master é um real que não entrou no IGES, que não contratou médico, que não abriu leito, que não comprou medicamento. O banco é mantido vivo artificialmente, como paciente em UTI com máquina ligada, porque desligar a máquina é assinar o atestado de óbito não só do banco, mas de toda a gestão que permitiu que ele chegasse até aqui. A gestão de Ibaneis, que nomeou e afastou. A gestão de Celina, que fez parte alegremente de todo o processo e só agora resolveu romper com o antecessor. A gestão do STF, que mediou e protelou. A gestão do BC, que perguntou e esperou.

O Banco Central pediu explicações. O prazo venceu. O BRB negou. O GDF negou. Mas o dinheiro não mente. O caixa não mente. O balanço, quando vier, não mente. E as seis mortes no SUS do DF, essas já não podem ser negadas, porque já não podem ser desfeitas. A pergunta que o BC fez ao BRB é a mesma que o povo do DF deveria fazer a quem o governa: quanto do dinheiro que deveria estar salvando vidas está salvando um banco que já morreu? A resposta, quando vier, será um número. E o número, atrás dele, terá nomes. Vilmar. Maria Aparecida. E quatro outros que não precisavam ter morrido, mas morreram, porque o dinheiro que os salvaria estava depositado na conta de um cadáver.

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