Bolsonaros no jatinho do banqueiro

Flávio voou no avião de Vorcaro no dia em que o Dark Horse era fechado

Por Redação
Vorcaro jatinho Flávio
Flávio Bolsonaro voou no avião de Daniel Vorcaro, o corrupto do Master, no dia em que o Dark Horse era fechado. Foto: Vittor Sales/ Campanha Flávio Bolsonaro

Antes da bomba, o voo. Em 19 de janeiro de 2025, o senador Flávio Bolsonaro desembarcou em Brasília num jatinho ligado a Daniel Vorcaro — o mesmo Legacy 650 que, sete meses depois, transportaria o ministro Alexandre de Moraes e a mulher. A bordo, além do senador, a esposa, as duas filhas e Willer Tomaz, advogado e empresário investigado no caso das fraudes do INSS. O banqueiro do golpe, o candidato do clã e o homem do INSS, todos no mesmo voo.

E o voo não foi num dia qualquer. Foi no exato momento em que se negociava o financiamento do Dark Horse, a cinebiografia do pai. O cronograma previa um aporte de US$ 2 milhões um dia depois do desembarque. No dia seguinte ao voo, Flávio escreveu ao intermediário pedindo “um gás na resposta do jurídico do investidor”.

O círculo de Vorcaro, mais uma vez, fechou.

Vorcaro fundo Eduardo Bolsonaro Imagem: Montagem Site do PT

O jatinho e a cotas

A aeronave, de prefixo PP-NLR, não era de um estranho. Na data da viagem, a Prime You — que tinha Vorcaro entre os sócios — já detinha um terço das cotas do Legacy, adquiridas no fim de 2024, e administrava o avião. Outra cota pertencia a Willer Tomaz, via Alcazar Holdings, empresa na Ilha da Madeira, em Portugal. A terceira, a Laércio Cosentino, fundador da Totvs.

Ou seja: o candidato à Presidência viajou com a mulher e as filhas num avião cujo dono, naquele momento, era o banqueiro que financiaria o filme sobre o pai dele — e cujo parceiro de cota era o investigado do INSS que viajava junto. A intimidade não é suspeita de militante. É registro de voo, de cota e de cronograma.

A ressalva que nos separa do adversário

Sejamos honestos, porque é isso que faz a matéria resistir: o DCM, que apurou o voo, é explícito — “a coincidência temporal não demonstra que o voo tenha sido pago por Vorcaro nem estabelece contrapartida entre a viagem e o financiamento do filme.” A primeira parcela de US$ 2 milhões só foi transferida em 13 de fevereiro, quase um mês depois. E Willer Tomaz diz que só descobriu em abril de 2026 que Vorcaro tinha participação na aeronave — sem esclarecer se Flávio e a família estavam naquele voo como convidados seus.

O voo é fato. O que ele prova, não. A matéria forte monta o quadro sem cravar o elo que a cronologia não fecha. É assim que se documenta sem se queimar.

A bomba que vem aí

E é aqui que o círculo se fecha de novo. Hoje, quinta-feira (24), é esperado um novo lote de dados extraídos do celular de Vorcaro — com informações que devem atingir a campanha de Flávio: o financiamento do Dark Horse, movimentações financeiras, empresários e possíveis referências a ministros do STF. Nos bastidores de Brasília, circulam os nomes de Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e André Mendonça — este ligado ao Iter, a empresa de cursos da qual foi fundador.

E o candidato já se adiantou. Antes de o lote sair, Flávio negou que Luciano Hang financiou o filme, negou orçamento de R$ 400 milhões, negou passagem por paraíso fiscal. Disse que o dinheiro saiu de uma empresa, passou pelo Banco Central para autorização da conversão cambial e chegou a um fundo criado para o filme. E reagiu, na quarta-feira: “Uma bomba na minha campanha, agora vocês me pegaram.”

A pergunta que fica, e que a reação preventiva torna inevitável: por que se defender tão rápido de acusações que ainda não foram feitas? Por que nomear Hang, o orçamento e o paraíso fiscal antes de qualquer conteúdo vir a público? O candidato sabe o que está no celular. A pergunta é se o eleitor vai saber antes de 4 de outubro.

O círculo

Junte as peças e olhe para o tabuleiro. O jatinho que levou Flávio levou depois Moraes. O banqueiro que financiou o filme do pai é o mesmo que aparece no celular com o presidente do TSE. O advogado do INSS viaja com o candidato no avião do financiador. E o novo lote do celular, que sai hoje, pode tocar ministros do Supremo — incluindo o árbitro da eleição.

O círculo de Vorcaro não é uma teoria. É um endereço: o jatinho, o banco, o filme, o INSS, o STF, o TSE. Todos os caminhos levam ao mesmo centro. E o centro, hoje, tem um candidato à Presidência que voou de graça no avião dele, no dia em que o financiamento do filme do golpe estava sendo fechado.

A bomba pode até não explodir hoje. Mas o círculo já está desenhado — e o voo é a prova física de que o candidato estava dentro dele.

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