A chapa do banco quebrado

Candidato a vice de Celina, Gustavo Rocha era homem de confiança de Ibaneis Rocha

Por Frente Livre
Gustavo Rocha Banco Master
Gustavo Rocha, cujo escritório de advocacia recebeu dinheiro do Banco Master, foi o vice escolhido a dedo na chapa de Celina Leão. Foto: Gui Gomes

O vice-governador na chapa de Celina Leão chama-se Gustavo do Vale Rocha, tem 46 anos, é do Republicanos e carrega no currículo a função que nenhum candidato ao Executivo do Distrito Federal deveria ostentar neste ano de 2026: foi secretário-chefe da Casa Civil do Distrito Federal de junho de 2020 a abril de 2026, do início até o último dia do governo Ibaneis Rocha. Isso significa, na aritmética fria dos cargos, que ele chefiou o cérebro administrativo do governo durante todo o período em que o BRB engoliu R$ 17 bilhões do Tesouro distrital e os cuspiu em títulos falsos do Banco Master, cerca de R$ 12,2 bilhões em papéis podres maquiados de carteiras de consignado, segundo a Polícia Federal. A Casa Civil não é um gabinete como outro qualquer. É a repartição que coordena os outros gabinetes, que assina, que circula, que sabe. Dizer que o chefe dela passou seis anos sem saber de uma operação que o próprio governador pilotava é pedir ao eleitor brasiliense que se declare idiota. E o eleitor brasiliense, sabe-se, não é.

O homem da sala ao lado

A cronologia que a PF costurou a partir do celular de Vorcaro não deixa dúvida sobre quem mandava no navio, e Gustavo Rocha estava na sala ao lado do comandante. Em 18 de setembro de 2024, o almoço na casa do banqueiro em Brasília. No dia seguinte, Ibaneis agradece o “excelente almoço”. Em outubro, o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, avisa a Vorcaro que o governador “autorizou seguir com os R$ 750 milhões” do aumento de capital, depois do primeiro socorro de R$ 500 milhões autorizado no jantar. Em janeiro de 2025, os três, Ibaneis, Vorcaro e Paulo Henrique, jantam em Zurique, na Suíça, e é dali, segundo o relatório da PF enviado ao STF em outubro deste ano, que sai a decisão de comprar o Master. Em fevereiro nasce o “Projeto Vértice”, nome pomposo para o assalto. Em março, Ibaneis fica “impaciente com o prazo”; oito dias depois, o BRB anuncia a compra de 58% do banco. Em maio, ele encaminha ao banqueiro, por mensagem, a decisão judicial que derrubava a liminar que impedia a assinatura do contrato. Em agosto, liga três vezes na semana da votação na Câmara Legislativa e manda a edição do Diário Oficial com a lei aprovada, a de número 7.739. Isso é o governador com a mão no manche, de decolagem ao pouso. E a delação de Vorcaro, mesmo recusada pela PF por inconsistências em maio de 2026, relata o detalhe que o tempo não apaga: propina de R$ 400 milhões exigida por Ibaneis, metade em vivo, metade em contrato fictício com um escritório de advocacia indicado pelo próprio governador, mais 5% do novo banco por empresa de fachada, com R$ 80 milhões adiantados em espécie, entregues em Brasília pelo motorista do banqueiro. Em dezembro de 2024, o motorista avisou que “Léo” ligara para buscar “todas as encomendas”. Encomendas, numa repartição pública. Numa repartição pública.

Meu garoto!

Comprovados os indícios, que são mais do que robustos, Ibaneis salta acrobaticamente do celular de Vorcaro como um ladrão, corrupto e irresponsável. Mas e Gustavo Rocha, o vice de Celina, que foi braço direito do bufão por quase todo o mandato? Bom, ele não aparece diretamente entre os contatinhos do Banco Master. Mas… em entrevista ao CB.Poder do Correio Braziliense, em agosto de 2026, ele se equillibrou no português, pra não se comprometer com nada que pudesse ser usado contra si mesmo no futuro, usando uma palavra fundamental. “Tenho uma relação de trabalho construída ao longo dos últimos anos, baseada em lealdade, diálogo e compromisso com o Distrito Federal.” Lealdade, disse ele. Guarde essa palavra, lealdade. Quase um ano antes, em setembro de 2025, quando Ibaneis foi prestigiar a filiação de seu Casa Civil ao Republicanos, o então governador discursou o seguinte: “O Republicanos nunca me faltou, sempre fez parte do meu governo desde 1º de janeiro de 2019. E queremos chegar juntos ao governo do DF com a indicação do presidente Marcos (Pereira) ao nome de Gustavo (Rocha) para nosso vice-governador. Então, isso é uma aliança que se consolida para que a gente possa levar adiante esse trabalho”. Esse convescote aconteceu um ano depois que Ibaneis e Daniel Vorcaro almoçaram na casa do banqueiro, no Lago Sul, e onde se combinou a venda do Master ao BRB e quanto isso renderia de propina aos envolvidos. Naquele tempo, tudo estava caminhando.

Os R$ 7,3 milhões

Aqui a história cruza o nome do vice de Celina, e cruza em notas fiscais, que são mais difíceis de negar do que memórias. Entre junho de 2024 e dezembro de 2025, o Banco Master e o Fundo de Investimento Reag, rebatizado de Pedra Azul, pagaram R$ 7,3 milhões ao advogado Engels Augusto Muniz, o homem que administrava o escritório de advocacia de Gustavo Rocha durante todo o período em que o candidato era secretário da Casa Civil. O levantamento é de Juliana Dal Piva e André Uzêda, do ICL Notícias, publicado em 11 de setembro deste ano, e detalha que o primeiro pagamento, de R$ 6,3 milhões, veio do fundo Reag em junho de 2024, seguido de nota de R$ 1 milhão emitida em maio de 2025, quando o Master pagou por “consultoria jurídica”, justo o mês em que Ibaneis encaminhava a Vorcaro a decisão que destravava o contrato. Engels Muniz, que ocupava cargos no conglomerado BRB durante parte desses pagamentos, responde a investigações da Operação Compliance Zero, a mesma que prendeu Vorcaro em novembro de 2025 e afastou a cúpula do banco estatal. E o que responde Gustavo Rocha? Que o escritório que ele mantinha com a mulher, Marcela Passamani, secretária de Justiça de Ibaneis e candidata derrotada à Câmara Distrital, estava “inativo”, que colocou o “amigo” para gerir o CNPJ para “não perdê-lo”. Um CNPJ vale R$ 7,3 milhões de honorários do banco que seu chefe de governo estava quebrando?

A ata, o STF e a descompatibilização

Ainda falta um capítulo, e ele diz menos sobre o dinheiro e mais sobre a vocação do candidato para estar sempre no lugar certo da história. O Ministério Público Eleitoral impugnou, em 21 de agosto deste ano, o registro da candidatura de Gustavo Rocha porque a ata de uma audiência de conciliação realizada no Supremo Tribunal Federal em 26 de maio, na qual se discutia o acordo entre União, DF e Banco Central para viabilizar a operação de crédito ao BRB, o registrou como “representante do governo”, depois de ele já ter deixado formalmente o cargo para se candidatar. Resposta do candidato: foi como “advogado pessoal” de Celina, a ata estava “errada”, pediu retificação. O ministro Luiz Fux retificou o documento no dia 22, consignando que Rocha participara “como ouvinte”, e o MP Eleitoral, em 25 de agosto, mudou de posição e passou a defender a elegibilidade dele. Pode ser mesmo que tudo tenha sido um erro de datilógrafo do Supremo, hipótese custosa de admitir, mas anote bem o quadro, leitor: o homem que não podia mais ser representante do governo foi visto representando o governo exatamente na reunião que decidia como o contribuinte do DF pagaria a conta do banco quebrado. E, ouvinte ou não, pagou-se: a lei aprovada antes da saída de Ibaneis autorizou socorro de até R$ 6,6 bilhões ao BRB, com o Tesouro distrital já com R$ 1 bilhão de buraco no caixa e seis mortes em menos de um mês no SUS, enquanto o dinheiro da saúde ia virar papel falso na gaveta de Vorcaro.

O silêncio conveniente

O que se espera, nesse ponto, é uma pergunta simples, feita em voz alta, em debate televisionado, com a bandeira do DF atrás: Gustavo Rocha, o senhor sabia da compra do Banco Master quando chefiava a Casa Civil? O que o escritório do senhor, administrado pelo senhor Engels Muniz, fez para merecer R$ 7,3 milhões das empresas do escândalo? Por que o senhor estava na audiência do STF sobre o socorro ao BRB se já era só um cidadão advogado? Não existe, até onde a vista alcança, nenhum registro público de oposição dele à compra do Master em 2025, nenhum pedido de auditoria quando era seu dever institucional pedir, nenhuma nota de repúdio quando as carteiras falsas vieram à tona. Celina, que jurou não ter sido consultada em 2025 e depois jurou ter se oposto “publicamente” à transação, sem que exista registro público de uma única oposição dela, escolheu para vice o homem que administrava a casa. A dupla se apresenta ao eleitor brasiliense prometendo continuidade, e pela primeira vez na campanha, é unânime: a chapa de Celina Leão e Gustavo Rocha é, de fato, a continuidade perfeita. Da sala de comando à herdeira, do herdeiro ao manche vazio. A homenagem à corrupção do Banco Master não poderia ter sido melhor escolhida.

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