A fórmula “Israel Palestina duas narrativas” parece equilibrada, quase civilizada: de um lado, israelenses; de outro, palestinos; no meio, uma disputa antiga em que cada povo teria sua versão dos fatos. Mas essa linguagem, repetida por telejornais, autoridades ocidentais e comentaristas de gabinete, costuma esconder o ponto central: não há simetria entre uma potência militar que controla fronteiras, espaço aéreo, circulação e recursos, e uma população submetida à ocupação, ao bloqueio e à expulsão.
Reconhecer essa desigualdade não significa comemorar a morte de civis israelenses, nem relativizar crimes contra pessoas inocentes. Significa recusar a fraude moral que trata colonizador e colonizado como se tivessem o mesmo poder, a mesma responsabilidade e o mesmo arsenal. Quando a realidade é desfigurada, a barbárie ganha assessoria de imprensa.
Israel Palestina, duas narrativas e uma relação de força
Toda guerra produz propaganda. Israelenses carregam memórias históricas profundas de perseguição antissemita, pogroms, Holocausto e guerras regionais. O medo não é uma invenção e o antissemitismo continua sendo uma ameaça real, inclusive quando aparece travestido de crítica política. Nenhuma análise séria pode tratar esse fato com desprezo.
Mas o sofrimento histórico do povo judeu não concede licença permanente para um Estado violar direitos de outro povo. O Estado de Israel não é sinônimo de todos os judeus do mundo, e criticar suas políticas de ocupação, colonização e ataque contra civis não é antissemitismo. Confundir as duas coisas é um expediente conveniente para silenciar jornalistas, pesquisadores e movimentos de direitos humanos.
Do lado palestino, não existe apenas uma narrativa de “ódio ancestral”, como frequentemente se vende por aí. Há uma história concreta de perda de território, expulsões em massa em 1948, conhecidas como Nakba, ocupação militar da Cisjordânia desde 1967, expansão de assentamentos israelenses e controle cotidiano sobre a vida de milhões de pessoas. Há famílias que vivem com postos de controle no caminho da escola, agricultores separados de suas terras, prisões sem julgamento e casas demolidas.
A pergunta correta, portanto, não é apenas quem sofreu mais em cada episódio. É quem controla as condições materiais da violência. Quem dispõe de caças, drones, inteligência militar, apoio diplomático das potências e domínio das passagens de fronteira? Quem não consegue sair de um território sitiado sem autorização? Colocar essas situações na mesma balança é menos jornalismo do que lavagem de contexto.
O que a palavra “conflito” esconde
Chamar tudo de “conflito” pode soar neutro, mas neutralidade sem contexto é uma forma sofisticada de tomar partido do mais forte. Conflitos pressupõem forças relativamente equivalentes. No caso palestino, a palavra frequentemente apaga a ocupação e transforma uma estrutura de dominação em mera briga de vizinhos.
Gaza é o exemplo mais brutal. O território, densamente povoado, vive há anos sob bloqueio israelense, com severas restrições de circulação de pessoas e mercadorias. Israel argumenta que medidas de segurança são necessárias diante de ataques de grupos armados, especialmente do Hamas. Segurança de civis é um direito, claro. Só que segurança não pode virar senha para punição coletiva, destruição de infraestrutura civil, fome, deslocamento em massa e morte de crianças.
O Hamas cometeu crimes graves contra civis, incluindo assassinatos e sequestros. Dizer isso não diminui em um milímetro a responsabilidade do governo israelense por operações militares que atingem hospitais, abrigos, escolas e bairros inteiros. A esquerda que defende direitos humanos não precisa escolher entre passar pano para fundamentalistas armados ou aplaudir um Estado que responde à violência com devastação indiscriminada. Essa escolha binária é uma armadilha para gente que prefere torcida a política.
Na Cisjordânia, onde o Hamas sequer governa, a realidade também desmonta a tese de que tudo se resume a “combate ao terrorismo”. Assentamentos israelenses avançam sobre terras palestinas, protegidos por aparato militar e por políticas estatais. A ocupação não é um acidente causado por uma crise recente. É o mecanismo que organiza a desigualdade no terreno.
A falsa equivalência da mídia
Parte expressiva da cobertura internacional começa quando foguetes são disparados ou quando ocorre um atentado, como se a história tivesse começado naquela manhã. A ocupação, o bloqueio e a colonização aparecem depois, em uma nota de rodapé, quando aparecem. Assim, a violência palestina é narrada como origem, e a violência estatal israelense como reação inevitável.
As palavras entregam o enquadramento. Palestinos “morrem” ou “são encontrados mortos”; israelenses são “assassinados”. Bombardeios viram “operações”. Expulsões viram “disputas imobiliárias”. Assentamentos ilegais, segundo grande parte do direito internacional, são descritos como “comunidades”. Não é mero detalhe semântico. Linguagem decide quem merece luto, quem recebe rosto e quem vira estatística.
No Brasil, esse filtro ainda vem embalado pela importação preguiçosa do debate dos Estados Unidos e da Europa. Políticos de extrema direita adoram transformar bandeira israelense em adereço de guerra cultural, como se apoiar qualquer ação de um governo estrangeiro fosse prova de civilização. É a turma que relativiza violência policial nas periferias, despreza povos indígenas e se emociona seletivamente quando a morte cabe em sua ideologia.
Não há paz sem direitos palestinos
A chamada solução de dois Estados segue sendo defendida por setores diplomáticos, e pode parecer a saída mais pragmática. Em tese, um Estado israelense e um Estado palestino, com segurança e soberania para ambos, encerrariam o ciclo. Na prática, essa proposta esbarra em um problema colossal: como criar um Estado palestino viável em um território fragmentado por muros, postos militares e assentamentos?
Também há quem defenda um único Estado democrático, com igualdade de direitos para judeus, palestinos, muçulmanos, cristãos e pessoas sem religião. A ideia enfrenta resistências profundas, porque toca no caráter étnico-nacional do Estado israelense e no trauma de séculos de perseguição contra judeus. Não existe fórmula mágica, e prometer solução simples para uma tragédia construída por décadas seria charlatanismo.
Mas alguns princípios são inegociáveis. Civis não podem ser alvo. Reféns devem ser libertados. A ajuda humanitária não pode ser usada como instrumento de pressão. A ocupação e os assentamentos precisam acabar. Palestinos devem ter autodeterminação, liberdade de circulação, direitos políticos e condições materiais para viver. E Israel precisa ter segurança sem transformar essa segurança em supremacia permanente.
Isso exige pressão internacional real, não discursos vazios enquanto governos poderosos fornecem armas, blindagem diplomática e impunidade. Exige também responsabilização por violações de direitos humanos, venha ela de grupos armados palestinos ou de autoridades israelenses. Direito internacional não pode ser cardápio de restaurante: cada potência escolhe a regra que serve ao próprio apetite.
Disputar a narrativa é não abandonar as pessoas
A disputa sobre Israel e Palestina é também uma disputa sobre quais vidas são consideradas plenamente humanas. Quando uma criança palestina morta vira número e uma criança israelense vira símbolo nacional, algo essencial já foi corrompido. O mesmo vale no sentido inverso: a dor de famílias israelenses não pode ser tratada como irrelevante porque o governo de Israel pratica opressão.
A diferença está em não deixar a empatia ser sequestrada pela propaganda. A solidariedade deve alcançar vítimas de todos os lados, mas a análise política precisa enxergar as estruturas que produzem vítimas em escala industrial. Não se combate racismo reproduzindo racismo; não se enfrenta terror aceitando massacre; não se defende democracia terceirizando a consciência para governos em guerra.
Para quem acompanha o tema do Brasil, o gesto mais útil é desconfiar de respostas fáceis, cobrar contexto da imprensa e recusar a chantagem que tenta transformar defesa dos direitos palestinos em ódio aos judeus. A paz não nascerá de slogans nem de bandeiras usadas como figurino por oportunistas. Ela começa quando o mundo para de chamar ocupação de detalhe e passa a reconhecer, sem maquiagem, a humanidade e os direitos do povo palestino.
