Em 1964, os Estados Unidos não precisaram desembarcar um soldado. Bastou deslocar para o litoral brasileiro uma força-tarefa liderada pelo porta-aviões USS Forrestal, com destróieres e navios-tanque, na Operação Brother Sam, o apoio logístico ao golpe que os militares já tinham decidido dar. O navio jamais atracou. Não precisou. A ameaça, pairando no horizonte, foi o bastante para garantir que o golpe acontecesse sem resistência. Neste domingo (4), o Brasil vota. E o porta-aviões voltou, só que desta vez não veio pelo mar. Veio pelo medo, pelo algoritmo e pela embaixada trancada.
Segundo informações obtidas pela Revista Fórum junto à Polícia Federal e confirmadas por um embaixador relevante do governo Lula, a ordem do governo Trump para suspender o atendimento presencial na Embaixada dos EUA em Brasília e nos consulados “por questões de segurança”, na véspera do voto, foi lida pelos serviços de inteligência brasileiros como uma operação psicológica, uma Psyops coordenada pela Casa Branca em conluio com a campanha de Flávio Bolsonaro. Dentro do Sistema Brasileiro de Inteligência, a operação tem nome próprio: Operação Brother Sam II.
O nome não é coincidência. É o reconhecimento, pela própria inteligência brasileira, de que o império está repetindo 1964 com as ferramentas do século XXI.
Canhões que não bastam
O Brasil de 2026 tem mais de 200 milhões de habitantes, economia continental, Forças Armadas próprias e um povo que já viu esse filme. Canhões, fuzileiros e caças já não são suficientes para tomá-lo. O império sabe disso. Por isso a conquista mudou de método: precisa apenas de um sabujo na presidência e do controle da mídia e do algoritmo. É exatamente isso que está em curso, em tempo real, a 24 horas do voto.
A embaixada fechada é a peça do medo. A ideia, explicou um agente da PF à Fórum, é fazer o eleitor pensar “está tenso, será que eu vou sair de casa hoje para votar?”, e no medo, ou votar no outro, ou não votar. Aumentar a abstenção, culpar Lula pelo “clima de violência”, favorecer o candidato do império. Guerra híbrida, com as big techs como tropa. Brother Sam II, com o bode expiatório trocado: não é mais “o comunismo e a corrupção”, é “o Estado brasileiro censurador e a extensão no Judiciário”, como resumiu a fonte ouvida pela revista.
O subsolo na mira
O interesse mudou desde 1964. Não é mais “conter o comunismo”. É o petróleo e as terras raras. O Brasil descobriu uma imensa bacia petrolífera na Margem Equatorial e detém, no subsolo, os minerais críticos e as terras raras que o mundo inteiro disputa, com o agravante de que Washington quer eliminar a China das Américas.
O espelho do que significa se curvar está a poucos voos de distância. As 31 toneladas de ouro da Venezuela, avaliadas em US$ 4 bilhões, estão sendo transferidas do Banco da Inglaterra para o Federal Reserve de Nova York. O país “recupera o direito legal” sobre o próprio patrimônio, sem poder vendê-lo, movê-lo ou usá-lo fora do controle americano. Primeiro o petróleo, depois o ouro; o New York Times documentou o roteiro inteiro, com as barras empilhadas na Sala Roosevelt como troféu de caça e o secretário do Interior americano contando a investidores que “trouxe para casa US$ 100 milhões em ouro, fisicamente, o ouro”.
A Doutrina Monroe tem 203 anos e nunca dormiu. Em agosto, o Departamento de Estado publicou um vídeo de propaganda declarando a América Latina quintal dos EUA, no mesmo dia do tarifaço e da foto dos Bolsonaros negociando entregas para Trump. Três movimentos coordenados. Uma coreografia imperial. E o corolário, nas palavras do historiador Vijay Prashad, é explícito: “os EUA devem ter domínio sobre todas as Américas, incluindo o Brasil”.
O sabujo
Imagem: FLIA
E o sabujo já se apresentou, de joelhos e de braços abertos. Flávio Bolsonaro, o neofascista traidor da pátria, não esperou a lista de exigências chegar; ele já estava vendendo a submissão antes de ela ser exigida. O documento americano das negociações do tarifaço contém 21 exigências ao Brasil; o plano de governo e as declarações do candidato coincidem com 16 delas. Dezesseis de vinte e uma. Não é coincidência, é currículo.
- Terras raras: em 26 de maio, na Casa Branca, prometeu a Trump uma “parceria estratégica de longo prazo”, apresentando o Brasil como alternativa para reduzir a dependência americana da China.
- Pix: em 2 de julho, ofereceu ao USTR um “compromisso legislativo” para desconectar o sistema brasileiro de mecanismos de compensação “não ocidentais”.
- Comércio: defendeu a AFTA, a área de livre comércio com os EUA, com abertura a produtos importados.
- Liberdade de expressão: prometeu o “Tesouraço na Censura” e a revogação de atos considerados restritivos, ou seja, permitir que a extrema direita lance livremente mentiras e ódio na internet.
- Sanções: o irmão Eduardo e Paulo Figueiredo atuaram em Washington pela aplicação de sanções contra ministros do STF.
- Eleições: pediu “pressão diplomática” e monitoramento internacional do pleito brasileiro.
- Anistia: em 10 de julho de 2025, depois do tarifaço, foi direto: “O governo tem que aceitar o que foi imposto por Trump.”
E não é só discurso. O operador da Rockbridge Network, a rede de financiadores da extrema direita americana fundada por J.D. Vance, trabalhava dentro do QG da campanha em São Paulo, numa sala no segundo andar, ajudando a montar a estrutura física do comitê. O memorando “Prosperity Partnership”, escrito em inglês, propõe a parceria de um governo Flávio com os EUA para exploração de minerais críticos e terras raras. O senador filho do ex-presidente golpista chegou ao extremo de oferecer cargos ao governo dos EUA numa eventual equipe transição, caso ele vença a eleição. Nem Joaquim Silvério dos Reis, que entregou a cabeça de Tiradentes ao reino português, chegou tão longe em seus planos de traição à pátria.
O resto do currículo do sabujo está documentado neste dossiê, tijolo por tijolo: o jatinho do banqueiro Vorcaro, o financiamento do filme do golpe, o lobista-geral com Rolex de R$ 305 mil e caixa paralelo, o lobby com o juiz da eleição, a máquina de bets com R$ 13 bilhões sob investigação da PF, a aposta ilegal do Polymarket vendida como pesquisa, o candidato que o próprio círculo de Trump anunciou, em letras garrafais, como “vitória dos EUA”.
A engrenagem
Para entregar o país, o império montou a engrenagem inteira, e cada peça está documentada.
O algoritmo. Na Colômbia, o presidente Gustavo Petro denunciou fraude algorítmica que teria alterado cerca de 7 milhões de votos, com a firma israelense BlackCore operando 500 mil bots, a mesma empresa suspeita de interferir na França, na Escócia, em Nova York, em Angola e em Togo. “A democracia do século XXI não morre com tiro. Morre com código.” No Brasil, a Meta derrubou os anúncios de Lula a 10 dias do voto, o X calou a CNBB quando os bispos defenderam soberania, o shadow ban contra a esquerda foi admitido por escrito, e a Anistia Internacional viu 8 de 14 anúncios com desinformação serem aprovados pelo Facebook. E quando o vídeo do humorista Fábio Porchat ousou furar a bolha tecnológica e viralizou contando a história da corrupção de Daniel Vorcaro e sua ligação com os Bolsonaros… aí a plataforma simplemente tirou a conta do ar.
O dinheiro. Washington destinou US$ 1 milhão a um programa para atacar o STF, o “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, dentro de um pacote de US$ 176,9 milhões em projetos conservadores, com Marco Rubio assinando um memorando para atropelar os bloqueios do próprio Congresso americano.
O espantalho. O “Escudo das Américas”, o clube de presidentes aduladores organizado por Trump, classificou PCC e Comando Vermelho como “ameaças compartilhadas”, o narcoterrorismo como novo comunismo, o inimigo inventado para justificar a “polícia continental” que os EUA nunca conseguiram implantar. Como resume o professor Gilberto Maringoni: “Você inventa um inimigo, você inventa um espantalho para poder intervir em qualquer situação.”
O guru. Fernando Cerimedo, o “Steve Bannon latino”, guru de Eduardo e Flávio, preso na Bolívia, e o procurador que o investigava, Roger Mariaca, preso dias depois de Washington cassar seu visto, na mesma noite em que vieram a público as fotos de Cerimedo com o filho de Trump. “Si hablo, caen 8 gobiernos.” O homem que diz poder derrubar oito governos está preso; o único que insistia em ouvi-lo, também.
O outro lado
E há o outro lado, o lado que o império não consegue comprar nem calar. Na tribuna da ONU, a 12 dias do voto, Lula nomeou cada frente da interferência diante de 193 países:
“Na América Latina e Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável, sobretudo no contexto do recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém.”
O presidente respondeu à chantagem de segurança com a frase que poderia ter sido escrita para 1964:
“Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas; precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastece o crime organizado.”
E respondeu à disputa pelo subsolo com projeto de país. Sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos, que condiciona a participação estrangeira à transformação industrial no território nacional, “explorar aqui e vender o produto acabado aqui”, e quer usar os recursos da imensa bacia petrolífera da Margem Equatorial para financiar um programa de educação capaz de catapultar o Brasil ao seu destino.
Presidente Lula abre a Assembleia da ONU denunciando a interferência dos EUA no Brasil e a falência do multilateralismo da ONU. Foto: Ricardo Stuckert
“O Brasil não se curvará à arrogância de nenhum presidente de nenhum país do mundo.”
Um quer transformar o que o Brasil tem em indústria, escola e futuro. O outro quer entregar o que o Brasil tem em troca de alinhamento. Um responde com soberania. O outro, com submissão. Não há terceira opção.
A hora da verdade
Amanhã o Brasil vota. O porta-aviões não voltou ao litoral; voltou ao medo, ao algoritmo, à embaixada trancada, ao sabujo que já se ofereceu para entrar no quintal. A inteligência brasileira chama a operação pelo nome que a história reconhece: Brother Sam II.
Canhões não bastam mais para tomar o Brasil. Mas o voto ainda pode entregá-lo, se o eleitor aceitar o medo como conselheiro, o algoritmo como juiz e o traidor como presidente.
A escolha de amanhã é a mais simples e a mais grave da nossa história recente: Brasil livre e soberano, dono do seu destino, do seu petróleo e das suas terras raras, ou vassalo do neofascismo global chefiado por Trump, com o ouro indo para Nova York e o futuro indo para o quintal.
Em 1964, o porta-aviões não precisou atracar porque o golpe já estava dado por dentro. Em 2026, o golpe também está sendo dado por dentro, com um candidato, uma embaixada e um algoritmo. A diferença é que, desta vez, o povo decide antes. Amanhã, na urna, o Brasil responde se é dono do próprio destino ou quintal de um império. A resposta, desta vez, não vem de Washington. Vem do voto.
