Mensagens encontradas pela Polícia Federal (PF) no celular de Daniel Vorcaro mostram que Roberto Campos Neto, então presidente do Banco Central (BC) — hoje comandante do Nubank –, convidou o dono do Banco Master para uma reunião em sua casa, na Fazenda Boa Vista — um condomínio de multimilionários — em Porto Feliz (SP), no fim de 2023. O encontro foi cancelado depois que Campos Neto relatou uma dedetização no imóvel.
Campos Neto presidiu o BC de 2019 até o fim de 2025, indicado por Jair Bolsonaro e com mandato adentrando o governo Lula. Foi justamente sob seu comando que Vorcaro ganhou o “brevê” de banqueiro. Em outubro de 2019, a autarquia autorizou a compra do Banco Máxima, instituição que depois adotou o nome Banco Master. A operação havia sido negada em fevereiro daquele ano, quando Ilan Goldfajn comandava o órgão, no governo de Michel Temer. O que fracassou no Temer passou na gestão bolsonarista.
O pedido de “conversa rápida”
Vorcaro procurou o chefe do BC em 21 de novembro de 2023. Pediu uma conversa presencial e rápida. Disse que queria “apresentar o trabalho que estamos desenvolvendo no banco e nossas perspectivas” e se colocou à disposição para viajar a Brasília.
Campos Neto respondeu que pediria o agendamento para a semana seguinte, pois participaria do Comitê de Estabilidade Financeira. Uma assistente do então presidente do BC entrou em contato com Vorcaro no mesmo dia. Durante as tratativas, Campos Neto disse que entraria no período de silêncio do Comitê de Política Monetária, o Copom, quando não poderia conversar com agentes do mercado financeiro.
O convite para a fazenda
Em 20 de dezembro de 2023, após um cancelamento, Campos Neto ofereceu recebê-lo na Fazenda Boa Vista: “Se por acaso for na Fazenda Boa Vista na outra semana podemos fazer lá também. Vou estar lá com a família”. Vorcaro respondeu que a alternativa seria perfeita.
No dia seguinte, o empresário perguntou se a reunião seria presencial. Campos Neto confirmou: “Sim. Correto. Podemos fazer na minha casa. Eu moro no condomínio do Furla. Acho que sabe o de fica. Abraço”. Esclareceu que se referia a Rafael Furlanetti, sócio da XP.
Na data marcada, 22 de dezembro, ele cancelou o encontro e propôs transferi-lo para uma unidade do BC na avenida Paulista: “Minha esposa que está na fazenda Boa Vista mandou detetizar a casa e não me falou. Entrei e fiquei tossindo muito. Podemos mudar a reunião aqui para o BC na paulista?” Vorcaro aceitou.
Em 12 de março de 2024, o histórico volta a registrar mensagens. Campos Neto enviou uma imagem não identificada. Vorcaro respondeu com emojis de palmas e escreveu “merecido! Parabéns!”. No dia seguinte, Campos Neto agradeceu e desejou “sucesso”.
Receber banqueiros em reuniões não é algo estranho a um presidente do BC. Porém, recebê-los em casa, fora da agenda, sem registro público da pauta, do que foi falado e do foi acertado, isso não é só estranho. É altamente suspeito e, por isso mesmo, inadimissível. Campos Neto foi quem permitiu Vorcado a se tornar o vilão que se tornou, capitão da maior fraude bancária da história do Brasil.
Meses depois daquilo, ele estaria organizando festas privê com modelos européias junto com ex-ministro do governo Bolsonaro e, mais que isso, botando milhões de dólares numa operação que supostamente pagaria pelas despesas de produção de Dark Horse, o filme que tenta embelezar a imagem golpista de Jair Bolsonaro. Isso sem contar na irmandade declarada com Flávio Bolsonaro.
