Mesmo com a atual governadora do DF estando “dentro” da tramoia que quebrou o BRB, nas palavras do banqueiro corrupto Daniel Vorcaro, pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (24) mostra a bolsonarista Celina Leão (PP) na liderança da disputa ao governo do Distrito Federal, com 42% das intenções de voto no cenário sem José Roberto Arruda (PSD) — que teve o registro barrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O candidato progressista Leandro Grass (PT) aparece com 23%. No segundo turno, a atual governadora tem 53% contra 34% do petista apoiado pelo presidente Lula.
O problema é que a campeã da pesquisa governa um Distrito Federal cujo banco público foi roubado e quebrou — e levou junto o caixa do GDF. O BRB afundou sob a gestão Ibaneis Rocha/Celina Leão, que autorizou a compra bilionária de carteiras do Banco Master, de Daniel Vorcaro. E ela, que agora pede reeleição, fez parte de tudo isso. A desmemória, como sempre, é conveniente.
Conversa entre Daniel Vorcaro e Thiago Miranda: Celina “não ficou de fora, não”. Foto: Reprodução
A vice que não sabia de nada
Em abril de 2025, quando o BRB anunciava a compra de 49% das ações ordinárias e 100% das preferenciais do Master, operação avaliada em cerca de R$ 2 bilhões, a então vice-governadora jurava inocência: “Não tenho conhecimento sobre a operação. Não fui consultada, fiquei sabendo pela imprensa”. O negócio era público e era defendido pelo próprio governador, Ibaneis Rocha, que o chamou de “um dia de festa”.
Um ano depois, com o escândalo estourado e Vorcaro preso, a versão mudou. “Sempre fui contra a compra do Master pelo BRB”, afirmou em sabatina à Jovem Pan em 3 de setembro, dizendo ainda que “me opus publicamente à transação na época”. Não há registro público de oposição dela em 2025. As duas versões não podem ser verdade ao mesmo tempo — e ela assina as duas.
A trapaça documentada
O que a cronologia mostra é a roubalheira em câmera lenta: em 28 de março de 2025, o fato relevante da compra; em 3 de setembro do mesmo ano, o Banco Central indefere o perímetro do negócio; em 18 de novembro, a Polícia Federal deflagra a operação que prende Vorcaro e afasta Paulo Henrique Costa da presidência do BRB.
O laudo da PF concluiu que houve gestão fraudulenta de ex-dirigentes em operações de compra que somaram R$ 17,5 bilhões em carteiras do Master formadas por títulos falsificados, que não valiam um vintém e custaram a vida do banco público de Brasília. O Banco Central aponta prejuízo potencial de R$ 11,4 bilhões. O GDF, quebrado, pede socorro ao Fundo Garantidor de Créditos, num empréstimo de R$ 6,6 bilhões que está no STF.
E a “inocente” que nunca teve contato com o banqueiro? Em mensagem apreendida no celular de Vorcaro, ele diz a um interlocutor que Celina “não ficou de fora” da operação de compra do Master pelo BRB. Ela negou: “Eu nunca tive nenhum contato com o Vorcaro”. A PF investiga telefonemas trocados entre os dois. O presidente Lula resumiu a farsa:
“A governadora Celina, de forma cínica e mentirosa, tenta jogar a responsabilidade do BRB no governo federal. Deveria estar preocupada com a prisão do Ibaneis. Ele tá escondido aonde? Gastando o dinheiro que foi roubado”.
A reeleição do caos
Enquanto o BRB sangra e o caixa do DF afunda, a saúde pública do Distrito Federal registrou seis mortes em menos de um mês na rede pública — uma das faces da conta que a gestão empurrou para o povo. Os empresários mancomunados com Celina, os mesmos que lucraram com a gestão, lançaram manifesto para “tirar a crise do BRB da disputa eleitoral”. Técnica, dizem. Choro, é o que é.
A pesquisa mede intenção de voto, não mérito. Mas o eleitor do DF tem direito de saber o que está escolhendo: a governadora do banco roubado, do caixa quebrado, da saúde em colapso e das duas versões contraditórias sobre o maior escândalo financeiro da história de Brasília. O Datafolha diz que ela lidera. O laudo da PF diz que ela “não ficou de fora”. Uma dessas pesquisas não mente.
