O ex-analista e ex-oficial de operações da CIA John Kiriakou afirmou, nesta terça-feira (6), ter ouvido de um colega da agência que os Estados Unidos estão plantando matérias estratégicas em favor de Flávio Bolsonaro na imprensa brasileira e internacional. A declaração, dada no programa Briefing Room, apresentado pelo próprio Kiriakou e veiculado pelo ICL, não veio com prova na mão. Veio com a franqueza de quem conhece a máquina por dentro: “Ouvi um rumor de um ex-colega meu da CIA, neste fim de semana, de que a agência está ativamente trabalhando nos bastidores para apoiar Bolsonaro. E a forma como estão agindo é plantando histórias pró-Bolsonaro tanto na imprensa brasileira como na imprensa internacional.”
O rumor, sozinho, não prova nada. É preciso dizê-lo com todas as letras, porque é exatamente aí que o adversário vai morder. Mas o rumor não entra no vazio: entra num tabuleiro em que cada peça já está documentada, datada e assinada. E é isso que transforma a fala de Kiriakou de boato em eco. O eco de uma interferência que o Estado brasileiro, a imprensa internacional e a história já tinham registrado antes dele abrir a boca.
Quem é o homem que fala
Antes de julgar a fonte, é preciso saber quem é a fonte. Kiriakou serviu na CIA entre o fim dos anos 1990 e 2004. Em 2007, tornou-se o primeiro ex-integrante da agência a confirmar publicamente a prática de tortura por waterboarding, a simulação de afogamento. Em 2012, foi condenado sob a Lei de Espionagem dos EUA por revelar a identidade de um agente encoberto a um jornalista, e cumpriu pena. Hoje não fala em nome do governo americano.
É o perfil que a máquina de desinformação vai tentar derrubar, e é o perfil que a sustenta: o homem que confirmou a tortura e pagou o preço por falar é exatamente quem a agência não consegue desmentir com facilidade.
O que já estava documentado antes dele
Agora monte a pirâmide do chão para cima. Tudo vai se encaixar perfeitamente.
Documentado e público: Trump endossou Flávio. A Casa Branca age abertamente a favor do candidato, isso é fato incontestável, registrado em reuniões, fotos e declarações.
Documentado pelo Estado brasileiro: A Abin confirmou a uma delegação franco-alemã, em Brasília, entre 9 e 11 de setembro, a existência de interferência dos Estados Unidos em assuntos nacionais. A atuação americana foi descrita como indo “de ações judiciais até interferência abertamente reconhecida”. E a agência elevou, em relatório confidencial de fim de agosto ao Planalto, ao Ministério da Justiça e ao Tribunal Superior Eleitoral, o risco de pressão dos EUA a nível crítico.
Documentado pela imprensa internacional: O jornal inglês The Guardian revelou que Washington destinou US$ 1 milhão ao programa “Countering Lawfare and Censorship in Brazil”, o dinheiro para financiar grupos que ataquem o Supremo Tribunal Federal, dentro de um pacote de US$ 176,9 milhões em projetos conservadores. Para movimentar o dinheiro, o tresloucado secretário de Estado de Trump, Marco Rubio, assinou um memorando de próprio punho anulando bloqueios do Congresso americano a esse tipo de despesa.
Documentado pela história: O financiamento americano à oposição a João Goulart via IBAD e IPES, nas eleições de 1962, foi comprovado por investigações e pela Comissão da Verdade. Documentos do National Security Archive e gravações da Casa Branca revelam o mecanismo. A Doutrina Monroe tem 203 anos, e o Guardian já comparou a atual pressão de Trump à ingerência dos EUA no golpe de 1964.
Rumor sem prova: O relato repassado a Kiriakou sobre a CIA “plantando histórias”. É o topo da pirâmide, o único degrau sem documento, surgido sobre uma base sólida.
O tabuleiro em que o rumor cai
O rumor revelado por Kiriakou não cai em terra virgem. Cai no tabuleiro que a Frente Livre vem documentando tijolo por tijolo desde julho: a Meta derrubou os anúncios de Lula a 10 dias do voto; o X calou a CNBB quando os bispos defenderam soberania; o shadow ban contra a esquerda foi admitido por escrito; a Anistia Internacional viu 8 de 14 anúncios com desinformação serem aprovados pelo Facebook; a bolsa de apostas ilegal do Polymarket foi vendida como pesquisa; o procurador boliviano que investigava o guru dos Bolsonaro caiu dias depois de Washington cassar seu visto, na mesma noite em que vieram a público as fotos de Cerimedo com o filho de Trump; e a inteligência brasileira batizou a operação da véspera do voto com o nome que a história reconhece: Brother Sam II.
A CIA não entra nesse tabuleiro como novidade. Entra como a peça que faltava para nomear o que já estava em curso. O ex-agente não é a prova. É o eco. Mais um depoente confirmando, de dentro, o que o Estado brasileiro e a imprensa internacional já haviam registrado.
O primeiro turno que não decidiu
E o tabuleiro, agora, tem um dado novo e decisivo. No primeiro turno de 4 de outubro, Flávio Bolsonaro ficou à frente: 47,03%, 56.104.503 votos, contra 45,16% de Lula, 53.879.538 votos. Uma diferença de menos de dois pontos, de pouco mais de dois milhões de votos, numa eleição que vai ao segundo turno em 25 de outubro.
É exatamente a margem que a interferência pode decidir. É a margem que o algoritmo, o impulsionamento, a aposta ilegal e a história plantada podem mover. É a margem em que a CIA, segundo o rumor que Kiriakou repassa, estaria trabalhando nos bastidores para empurrar o ponteiro para o lado de Flávio. E é a margem em que a Folha, em levantamento publicado em 2 de outubro, mapeou 187 intervenções de EUA e Rússia de 1946 a 2014, com efeito médio de 3 pontos percentuais sobre o voto. Três pontos. A diferença do primeiro turno brasileiro foi de menos de dois.
O que o segundo turno decide
Entre 4 e 25 de outubro, o Brasil tem três semanas para decidir se aceita o rumor como conselho e o algoritmo como juiz, ou se enxerga o que está documentado. O ex-agente disse que prevê a derrota de Flávio. O dado objetivo é outro: Flávio saiu na frente, e a máquina que o favorece não parou de trabalhar um dia sequer.
A CIA, segundo o eco de Kiriakou, planta histórias. O Estado brasileiro, pela boca da Abin, já tinha avisado que a interferência é real e está em nível crítico. O Guardian já tinha documentado o dinheiro para atacar o STF. Trump já tinha endossado o candidato. A história já tinha mostrado, em 1962 e em 1964, o que Washington faz quando quer um presidente no Brasil.
O rumor é o topo da pirâmide. Mas a pirâmide, essa, já estava de pé antes de Kiriakou abrir a boca. E é sobre ela que o segundo turno será decidido: entre um país que diz que não cabe no quintal de ninguém e um projeto que já se ofereceu para entrar no quintal, com a inteligência americana, segundo o eco de dentro, trabalhando nos bastidores para garantir a entrada.
A CIA entrou oficialmente no tabuleiro. Cabe ao eleitor brasileiro, em 25 de outubro, decidir se joga o jogo de Washington ou se toma o tabuleiro de volta.
