O anúncio foi feito em 3 de setembro, no Palácio do Planalto: a fila do INSS está zerada. Por trás da frase de três palavras que o presidente Lula repetiu à exaustão, o que existe é uma escalada de meses — e uma das promessas mais antigas da vida pública brasileira finalmente cumprida: o trabalhador que pede a aposentadoria que conquistou a ferro e fogo não precisa mais esperar uma vida inteira para ser atendido.
Os números contam a história. Em agosto, os requerimentos em análise somavam 1,252 milhão — o menor volume desde o início do terceiro mandato. Pela primeira vez, o INSS passou a analisar mais pedidos por mês do que recebe de novos. O tempo médio de concessão caiu para 34 dias, abaixo dos 45 previstos em lei. No ano, a fila recuou 74%.
No JN, Tralli tenta pegar Lula pela fila do INSS e ele anuncia que a fila foi ZERADA. 😎
“Eu, na semana que vem, vou anunciar que a fila zerou”, afirmou pic.twitter.com/C7NNDeydot
— Bruno (@Brunoantifas) August 28, 2026
A montanha que o trabalhador escala a vida inteira
Para entender o tamanho da conquista, é preciso lembrar o que o INSS representa. Ele é o Everest do trabalhador brasileiro: a montanha que se olha do chão da fábrica, do balcão, do volante de caminhão — e que se começa a escalar no primeiro dia de trabalho. Quem contribui a vida inteira espera, no topo, a aposentadoria: o prêmio de 35, 40 anos de desgaste.
Só que, nos últimos anos, a elite financista foi corroendo a montanha por dentro. A reforma da Previdência de 2019 mudou as regras do jogo no meio da partida. Os juros de rentista — a mesma Selic de 15% que engordou o mercado por nove meses seguidos — comeram o orçamento. E o órgão encarregado de entregar o prêmio virou um espelho do abandono: lento, esvaziado, desvalorizado. Corrompido.
A máfia que sangrava o contracheque
Quando Lula assumiu o terceiro mandato, encontrou a fila na casa dos milhões — segundo o presidente, uma herança de até 5 milhões de pedidos represados da gestão desastrosa, criminosa e golpista de Jair Bolsonaro. Mas o pior estava escondido no contracheque: uma máfia de descontos associativos vinha sangrando a aposentadoria de quem já tinha vencido a escalada.
Em abril de 2025, a Operação Sem Desconto, da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da União, revelou o tamanho do roubo: R$ 6,3 bilhões desviados entre 2019 e 2024, atingindo cerca de 6 milhões de beneficiários. O então presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, foi afastado e depois preso. Outros cinco dirigentes da cúpula também foram detidos. Desde 2023, o governo cancelou mais de 2,3 milhões de descontos indevidos — em 2021, sob a gestão anterior, foram apenas 16 exclusões. Em janeiro deste ano, Lula sancionou a Lei 15.327/2026, que proíbe de vez a cobrança. E os valores roubados voltaram: o presidente já anunciou o ressarcimento de R$ 3 bilhões aos aposentados e pensionistas.
A virada na máquina
Desmontada a máfia, era preciso consertar a máquina. O governo trocou o comando — Carlos Lupi saiu do cargo de ministro da Previdência Social em maio de 2025, Gilberto Waller Jr. passou pelo cargo e a presidente Ana Cristina Silveira assumiu com a missão de zerar as filas — e apostou em estrutura: Atestmed para a perícia por atestado digital, portal da Transparência Previdenciária, fila nacional, mutirões e telemedicina. A fila da perícia caiu 59% e atingiu o menor patamar em três anos.
Há quem ainda esteja no meio da escalada. A cozinheira Erika Antônia Bonifácio, 38 anos, de Ubatuba (SP), está sem benefício e sem salário há cerca de seis meses, esperando cirurgia na coluna pelo Sistema Único de Saúde. Um motorista de aplicativo disse, numa entrevista publicada pelo G1, o que a fila faz com quem espera:
“O que vai me restar é trabalhar de aplicativo até quando eu aguentar, até quando o corpo fala: ‘Hoje eu não aguento mais. Hoje você tem que parar’.”
Para esses, a montanha ainda tem trechos íngremes — mas, pela primeira vez em muito tempo, há corda, guia e direção.
A crítica de quem nunca subiu
Como todo avanço que contraria o mercado, a zeragem gerou ressalvas. O economista Fabio Giambiagi, que faz parte dos financistas defensores do arrocho nas contas públicas, sobretudo nos gastos com programas sociais, reconheceu que houve “um problema de gerenciamento flagrante” no início do governo e que o atual ministro, Wolney Queiroz, “é bem mais executivo e conhecedor da máquina”.
O governo rebate. O secretário-executivo do Ministério da Previdência, Felipe Cavalcante e Silva, afirma que “a gente na verdade nunca concedeu tanto na história”: “a gente está aqui para conceder benefício a quem tem direito, mas também para negar o benefício para quem não tem direito”. Wolney Queiroz lembra que entram 1,3 milhão de pedidos por mês e que os 218 mil processos acima de 45 dias são casos complexos, como o benefício de prestação continuada (BPC), que “chegarão, sim, próximo de zero”.
E a turma que deixou milhões na fila e 16 exclusões de desconto por ano agora virou PhD em metodologia estatística. O Everest foi escalado. Falta descer com dignidade — e o trabalhador sabe: no dia 4 de outubro, decide-se se a subida continua ou se a montanha volta a crescer.
