Festa com prostitutas num iate em Brasília bem no meio da pandemia

Flávio Bolsonaro teria recebido favores sexuais para abrir portas a negócios com governo

Por Frente Livre
Flávio Bolsonaro esquema pandemia

O Rolex não é o escândalo. O escândalo é o dia. Na tarde de sexta-feira, 17 de julho de 2020, enquanto 1.110 brasileiros morriam de covid-19, o senador Flávio Bolsonaro, filho do presidente que governava o país a outro nível de desgoverno, atravessava o Lago Paranoá numa lancha, entre churrasco, três garotas de programa trazidas de avião de São Paulo e dois empresários que ao final do passeio lhe colocariam no pulso um relógio suíço de luxo. Os empresários chamavam-se Danilo Berndt Trento, diretor institucional da Precisa Medicamentos, e Francisco Maximiano, e o que eles queriam do senador não era afeto, era mercado: os dois representavam no Brasil a Bharat Biotech, laboratório indiano que desenvolvia a vacina Covaxin, e precisavam de uma porta no Palácio do Planalto que o país inteiro sabia trancada a ferrolho pelo próprio dono. O filho do negacionista-mor era a chave. E a chave cobrava o preço em horas de lazer, garotas e ouro suíço, no dia exato em que o boletim da morte batia mais um recorde.

 

 

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A neurose do senhor

Para medir a obscenidade do passeio, é preciso reconstruir a semana em que ele aconteceu, porque a semana é o contexto e o contexto é a acusação. Em 7 de julho, o presidente Jair Bolsonaro anunciou à imprensa, no Palácio da Alvorada, que estava infectado pelo vírus que passara meses chamando de gripezinha, retirou a máscara diante dos repórteres para mostrar que tinha “cara boa” e divulgou nas redes sociais um vídeo de 46 segundos em que engolia um comprimido de hidroxicloroquina, medicamento sem qualquer eficácia contra a covid-19, com a frase que resumiria a política de saúde de seu governo melhor do que qualquer relatório: “Não tem a eficácia comprovada, mas é mais uma pessoa que está dando certo. Eu confio na hidroxicloroquina. E você?”. Em 15 de julho, um novo exame confirmava que o vírus continuava em seu organismo, e o presidente, de quarentena no Alvorada, participou do arriamento da bandeira e gravou mais uma transmissão. Em 16 de julho, à noite, com o Brasil cruzando a linha fatídica, Bolsonaro foi à live do Facebook e tratou de classificar o isolamento social, medida recomendada pela ciência mundial como a mais eficaz para conter o contágio, de “neurose”. Questionado sobre como reduzir o número de mortos, que já passava de 76 mil, respondeu: “Diminuir como?”. Não era retórica. Era o plano.

E os números daquela semana, registrado aqui com a precisão que a família desprezava, formam o retrato do abismo sobre o qual a lancha navegava. Em 16 de julho de 2020, o consórcio de veículos de imprensa, Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL, montado meses antes depois que o Ministério da Saúde do próprio Bolsonaro apagou os dados públicos da pandemia, registrou 1.299 mortes em 24 horas, quarta pior marca diária desde o início da pandemia, e o Brasil ultrapassou 2 milhões de casos confirmados, 2.014.738 contaminações, com mais 43.829 registros em um único dia. Pelo levantamento do Conselho Nacional de Secretários de Saúde, o Conass, foram 1.322 óbitos naquele mesmo dia, totalizando 76.822 vidas perdidas. O país havia levado 114 dias para atingir o primeiro milhão de infectados e apenas 27 dias para dobrar o número, com o contágio acelerando no Centro-Oeste e no Sul. Nos últimos sete dias, a média diária era de 1.081 mortes. Desde o fim de maio, como apontaram agências internacionais, o Brasil vivia um planalto macabro de mais de mil mortes por dia, ininterrupto, há seis semanas. Luiz Henrique Mandetta, o ex-ministro da Saúde que Bolsonaro demitira no auge da crise, traduziu a aritmética para a imprensa americana em imagem que nenhum palácio deveria conseguir dormir: cerca de sete mil mortes por semana equivalem a vários aviões cheios de brasileiros caindo todos os dias. Nesse país dos aviões caindo, o herdeiro pilotava lancha.

O jato e as garotas

A reconstituição da piauí, publicada em 21 de outubro de 2026, não se apoia em fofoca, e é por isso que ela fere. A revista cruzou o relato de uma pessoa que estava na embarcação, depoimentos de dois pilotos, um ex-deputado, três assessores parlamentares e uma garota de programa que não participou daquele encontro, quebras de sigilo, documentos obtidos por comissões parlamentares de inquérito e dados de rastreamento de voos. A logística começa na véspera: às 20h49 da noite de 16 de julho de 2020, um jato executivo Embraer Phenom 300, de prefixo PR-SAD, pertencente à empresa Prime You, decola do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, rumo a Brasília, levando as três garotas de programa contratadas para o encontro. O agente de viagens Raphael Barão, dono da Barão Turismo, cuida de tudo, como quem fecha pacotes para excursão. No dia seguinte, das 10h30 às 15h, a lancha corta o Paranoá: Trento na direção, o amigo do senador Alexandre Santini, sócio de Flávio na loja de chocolates da Kopenhagen, loja sobre a qual pesa a suspeita de ser fachada para a lavagem da rachadinha, as três garotas de São Paulo, e o senador da República, em plena pandemia, que desce à cabina da embarcação com uma das mulheres, conforme registra a reportagem. A festa inclui um churrasco na proa e uma compra de R$ 1.949 num restaurante do setor hoteleiro Sul da capital. Havia uma única preocupação protocolar a bordo, e ela diz tudo sobre a época: os ocupantes comentavam o receio de drones que os flagrassem furando o distanciamento social. O Brasil não tinha direito a drone. O senador tinha direito a sigilo de gabinete.

O pulso e o relógio

Terminado o passeio, atracada a lancha, veio a recompensa que separa uma festa qualquer de um ato de corrupção em câmera lenta. Segundo o relato reconstruído pela piauí, Danilo Trento retirou do próprio pulso o Rolex, com pulseira em tom prateado, e o colocou no pulso de Flávio Bolsonaro, que deixou o local usando o relógio novo. O senador não devolveu. O presente, num contexto de negócios bilionários em tramitação com o governo do pai, não é gentileza, é anestésico de véspera, e a história seguinte provou que funcionou. O que Trento e Maximiano compraram com a tarde no lago não foi uma hora de diversão: foi acesso. Em outubro de 2020, três meses depois, o senador intermediaria reunião entre Maximiano e o então presidente do BNDES, Gustavo Montezano, para discutir financiamento a uma empresa de telecomunicações do empresário, encontro em que Flávio participou para apoiar a iniciativa. O banco diz que não houve contratação de crédito; Flávio nega vínculos comerciais com o empresário; mas o padrão, a porta giratória entre a agenda do filho do presidente e os negócios dos anfitriões da lancha, estava aberto e funcionando.

A vacina que o pai não quis

Aqui a história ganha a dimensão de tragédia nacional que a vinheta de manchete não alcança. A Precisa Medicamentos já era fornecedora do governo Bolsonaro, com contratos de preservativos femininos e testes rápidos de covid, quando se posicionou como intermediária da Bharat Biotech no Brasil. O governo, sob pressão de uma pandemia que matava mil brasileiros por dia sob a supervisão de um presidente que chamava o isolamento de neurose e a vacinação em massa de coisa de ideólogo, acabou contratando a compra de 20 milhões de doses da Covaxin por R$ 1,6 bilhão, em operação que desde o primeiro dia carregava suspeitas de irregularidade e favorecimento à intermediária, os mesmos Trento e Maximiano do passeio no lago. Em 2021, com o sobrepreço exposto, o contrato foi cancelado sem pagamento. E na CPI da Pandemia, onde a farsa foi dissecada diante do país, Francisco Maximiano negou qualquer intermediação de Flávio Bolsonaro na aproximação entre a Precisa e o governo e depois, quando os senadores insistiram, preferiu o silêncio; Trento admitiu apenas ter participado de eventos públicos com o senador. Flávio, por sua vez, defendeu publicamente a Precisa, empresa que o agasalhara no lago, enquanto a Covaxin era negociada a valores superiores aos das concorrentes. O relatório final da CPI recomendou o indiciamento de 78 pessoas, entre elas o senador da República, o diretor institucional da Precisa e o seu sócio de negócios. Ainda assim, cinco anos depois, o homem do Rolex no pulso disputa a Presidência da República pelo PL, com o currículo intacto de nunca ter respondido a nada.

Vorcaro aparece de novo

O Brasil é um país pequeno para quem reparte espólios, e a lancha do Paranoá faz fila com a casa de Vorcaro. O jato que trouxe as garotas de Congonhas a Brasília, o Embraer Phenom 300 de prefixo PR-SAD, pertencia à Prime You, empresa na qual Daniel Vorcaro, o banqueiro, entrou na sociedade depois daquele julho de 2020. E a piauí, na mesma investigação publicada ontem, detalha em episódio adicional os vínculos de Flávio Bolsonaro com o próprio Vorcaro e com Willer Tomaz, enquanto a Polícia Federal investiga o senador por suspeitas de exploração sexual de refugiadas. O leitor atento já sacou o mapa: os mesmos bilionários que faziam festa com o filho do presidente em 2020, quando a saúde pública sangrava no SUS, reaparecem em 2024 e 2025 fazendo negócio com os governadores aliados quando a saúde pública sangrava no SUS. Não é coincidência, é nicho de mercado: a corrupção brasileira especializou-se em governos que não gastam com o povo e, portanto, têm sobra para os amigos.

A genocida rotina

Foi pela condução da pandemia, pela demora criminosa em comprar vacinas, pelo negacionismo de palanque, pela hidroxicloroquina de vídeo, pela neurose da live, que Jair Bolsonaro passou a ser tratado, pela oposição e por boa parte do mundo, como genocida, e a base final da tragédia, mais de 700 mil brasileiros mortos, pertence ao seu registro. A reportagem de ontem acrescenta a essa acusação uma estrofe que a torna ainda mais insuportável: enquanto o pai se negava a garantir doses para o povo, o filho cobrava do mercado das vacinas, em lancha, mulheres e Rolex, a sinalização de que a porta da família tinha preço. A família não ignorava a pandemia. A família a rentabilizava, cada um no seu posto: o pai negando a vacina, o filho negociando o acesso aos que a vendiam, o país entre um e outro levando cova atrás de cova. E hoje o filho pede aos brasileiros a cadeira máxima da República, oferecendo como credencial justamente o sobrenome que o cadafalso de julho de 2020 tem como marca. O Rolex, esse, continua no pulso. O país, esse, continua no buraco.

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