O Brasil tem eleição em 10 dias, e as pesquisas registradas mostram Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico, com vantagem numérica para o presidente. Mas o candidato do PL e pelo menos nove aliados começaram a divulgar outra coisa como se fosse pesquisa eleitoral: as apostas de mercados de previsão como Polymarket e Kalshi. Segundo especialistas ouvidos pela Agência Pública, a prática é irregular — e configura crime eleitoral.
Antes de tudo: aposta não é pesquisa
Mercado de previsão não mede opinião de eleitor. Mede quanto dinheiro um grupo disposto a apostar coloca num resultado. É o que explica o cientista político ouvido pela reportagem: as probabilidades refletem o volume de dinheiro que um grupo autosselecionado paga por um desfecho — não uma amostra representativa do eleitorado.
Ou seja: 58% no Polymarket pode significar apenas que quem aposta está apostando em Flávio. Não diz nada sobre quem vai votar em 4 de outubro. Divulgar esse número como se fosse pesquisa é transformar bolsa de apostas em instituto de opinião.
O que Flávio e aliados fizeram
No domingo (20), o próprio Polymarket publicou no X: “Flávio Bolsonaro atinge máxima histórica nas odds da eleição presidencial, com o primeiro turno a duas semanas — 58% de chance.” No dia seguinte (21), Flávio republicou o gráfico num Story no Instagram, a partir de uma página com 146 mil seguidores.
Os aliados seguiram o roteiro:
Um parlamentar impulsionou um post na Meta por R$ 1,5 mil a R$ 2 mil, com 250 a 300 mil impressões, dizendo que Flávio atingia “59% de probabilidade de vitória na Kalshi e 58% no Polymarket” — legenda: “Dá para acabar com o sofrimento já no primeiro turno.” A imagem trazia o número de urna do candidato e da filha dele, Camila Nunes, candidata à Assembleia do Rio Grande do Sul.
Outro apoiador postou: “Vai ser no primeiro turno!”
O próprio Flávio já tinha associado o dado à vitória de Trump sobre Kamala Harris em 2024, como se a aposta fosse previsão de resultado.
Tudo isso — o post da plataforma, o story do candidato, os impulsionamentos — circulou depois de o Polymarket estar proibido no Brasil.
Print da conta de Instagram de Flávio Bolsonaro é a prova do crime eleitoral. Imagem: Reprodução
O problema com a lei
Há três camadas legais, todas do lado de quem divulga:
- Polymarket está proibido no Brasil desde 24 de abril de 2026. A Secretaria de Prêmios e Apostas mandou bloquear 27 sites de mercados de previsão via Anatel. Mesmo assim, o X da plataforma segue acessível a brasileiros — e foi de lá que tudo saiu.
- Divulgar dados não registrados como pesquisa fere o artigo 33, parágrafo 3º, da Lei 9.504/97, que trata da divulgação de pesquisa sem registro na Justiça Eleitoral.
- A Resolução 23.735/2024, do próprio TSE, veda plataformas que ofereçam “bens, produtos ou propagandas vinculados a candidatos ou resultado do pleito” — e o descumprimento pode configurar crime eleitoral, abuso de poder econômico e captação ilícita de votos.
A norma existe. O enquadramento existe. Os especialistas apontam. O que falta é a outra ponta.
Onde está o TSE?
Aqui está a ironia que a matéria da Agência Pública deixa no ar: a regra que proíbe esse tipo de plataforma foi escrita pelo próprio TSE. E quem agiu, até agora, não foi a Justiça Eleitoral — foi a Secretaria de Prêmios e Apostas, que derrubou do Instagram a conta brasileira do Polymarket na terça (22) e mandou a Anatel bloquear os sites.
O TSE, que tem o poder de polícia eleitoral e a norma na mão, não apareceu. Enquanto isso, o candidato republica o gráfico, os aliados impulsionam os números e o eleitor recebe, no feed, uma aposta vestida de pesquisa — a 10 dias do voto, num país em que a divulgação de pesquisa irregular é crime.
A pergunta que a reportagem não precisa responder, mas o tribunal deveria: se a norma é do TSE e a violação é pública e declarada, por que o TSE não vê?
Crédito: esta matéria é uma versão editada e resumida da reportagem “Flávio Bolsonaro e aliados divulgam apostas do Polymarket como pesquisa eleitoral”, publicada pela Agência Pública em parceria com o Núcleo Jornalismo em 24/09/2026, com apuração de Jeniffer Mendonça e equipe. Os fatos, cifras e citações são da reportagem original.
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Entenda: por que aposta não é pesquisa
O que é um mercado de previsão
Polymarket, Kalshi e similares são bolsas de apostas. Nelas, qualquer pessoa do mundo com dinheiro e conta numa corretora pode apostar em “quem vai ganhar a eleição brasileira”. O número que aparece no site — 58%, 59% — não é o resultado de uma pesquisa. É o preço que os apostadores estão pagando por aquele resultado naquele momento.
Por que aposta não é pesquisa
Pesquisa mede o que uma amostra representativa do eleitorado pretende votar. Aposta mede o que um grupo de pessoas dispostas a arriscar dinheiro acha que vai acontecer. São dois universos diferentes: o eleitor vota de graça; o apostador joga com dinheiro real. Quem aposta não fala pelo Brasil — fala por si mesmo e pelo próprio bolso.
O exemplo que resume tudo
Imagine que uma pessoa (ou um grupo) entre na plataforma e deposite R$ 1 milhão apostando em Flávio. A “probabilidade” de Flávio sobe na hora — sem que um único eleitor tenha mudado de ideia, sem um único voto novo, sem nenhuma pesquisa feita. A curva do site pode dizer “Flávio tem 60% de chance” e ainda assim ele perder a eleição no dia seguinte. O número reflete o dinheiro que entrou, não o voto que vai sair.
Ao contrário da pesquisa, que tem metodologia registrada e amostra controlada, a aposta pode ser comprada. Quem tem muito dinheiro pode dobrar a curva de qualquer candidato.
O que a lei diz
Plataformas como o Polymarket estão proibidas no Brasil desde 24 de abril de 2026. A Secretaria de Prêmios e Apostas mandou bloquear 27 sites via Anatel.
Divulgar dados de aposta como se fossem pesquisa esbarra no artigo 33, parágrafo 3º, da Lei 9.504/97, que trata da divulgação de pesquisa sem registro na Justiça Eleitoral.
A Resolução 23.735/2024, do próprio TSE, veda plataformas que ofereçam “bens, produtos ou propagandas vinculados a candidatos ou resultado do pleito” — o descumprimento pode configurar crime eleitoral, abuso de poder econômico e captação ilícita de votos.
A frase para o leitor levar embora: quando um candidato mostra “58% de chance” vindo de uma bolsa de apostas, ele não está mostrando o que o Brasil pensa. Está mostrando o que alguns apostadores — talvez até um grupo só — resolveram pagar para parecer. Aposta é dinheiro apostado. Pesquisa é voto declarado. Quem trata uma coisa como a outra está tentando comprar a sua percepção com o número que pagou para exibir.
