A Polícia Federal (PF) apontou gestão fraudulenta em 25 aprovações do Banco de Brasília (BRB) para comprar carteiras do Banco Master. As operações somaram absurdos, inacreditáveis, estratosféricos R$ 17,5 bilhões. O laudo pericial concluiu que os dirigentes aprovaram os negócios mesmo diante de alertas sobre liquidez, falta de documentação e ausência de lastro dos créditos adquiridos. Em outras palavras: o banco público do Distrito Federal comprou papel podre, sabendo que era podre.
A perícia examinou 181 operações entre as duas instituições, que movimentaram R$ 47,8 bilhões em cessões, compras, recompras e substituições de carteiras. Desse total, R$ 12,2 bilhões se referem a Cédulas de Crédito Bancário (CDBs) cedidas por empresas intermediárias, entre elas a Tirreno. Auditorias do Banco Central (BC) e da PF não conseguiram confirmar os créditos por falta de lastro e documentos. O laudo é categórico: “nenhum crédito sequer pôde ser confirmado”.
O truque do teto de R$ 750 milhões
Aqui está o absurdo que precisa saltar aos olhos. O BRB fixou 21 das 25 aprovações em exatamente R$ 750 milhões — o teto a partir do qual as compras precisariam seguir ao Conselho de Administração. Ou seja: o valor foi calibrado para ficar abaixo do limite e manter a decisão na Diretoria Colegiada, longe de qualquer controle maior. Foi assim que R$ 17,5 bilhões foram decididos por baixo do pano.
Em 22 das 84 compras de varejo analisadas, no valor de R$ 7,63 bilhões, o BRB liquidou financeiramente os negócios antes de concluir os pareceres obrigatórios das áreas de Risco, Planejamento, Contabilidade e Controladoria. Pagou primeiro, conferiu depois. Ou nem conferiu.
Alertas ignorados, dinheiro pago
A PF analisou 66 boletins diários de liquidez e encontrou 51 alertas e 13 extrapolações do Índice de Liquidez de Curto Prazo. Mesmo após a ciência formal desses avisos, em março de 2025, a diretoria aprovou 11 novos limites e autorizou 42 pagamentos ao Master. Os peritos ainda localizaram planilhas com dados fictícios e instrumentos de cessão com reconhecimento em cartório meses depois das datas declaradas.
A PF atribuiu atuação direta a Dario Oswaldo Garcia Júnior, diretor executivo de Finanças e Controladoria, e a Luana de Andrade Ribeiro, diretora executiva de Controle e Riscos. Ela assinou os reportes de desenquadramento de liquidez e, depois, votou a favor de 11 compras. A pessoa encarregada de apontar o risco foi a mesma que o ignorou.
E o Banco Central?
Diante disso, a pergunta que não quer calar: como o Banco Central ainda não interveio no BRB? A Frente Livre já mostrou que o BC não liquida o banco porque a morte dele pode derrubar o sistema de garantia que protege o dinheiro de quem nunca ouviu falar do Master. O banco é grande demais para cair. E a política protege: o socorro tramita no Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto o Tesouro do DF cobre a liquidez de um banco que opera no negativo.
Enquanto isso, o dinheiro que deveria salvar vidas salva um cadáver. Seis pessoas morreram na rede pública de saúde do DF em menos de um mês. Cada real depositado no BRB é um real que não contratou médico, não abriu leito, não comprou medicamento. O BC pergunta. O BRB nega. O caixa não mente. E as mortes não podem ser desfeitas.
