Kassio, juiz da eleição, tem contrato de R$ 427 mi com Vorcaro

PF aponta honorários por vitória para a "Turma do KN"

Por Redação
Kassio Nunes Marques
Kassio Nunes Marques, ministro bolsonarista do Supremo, presidente do TSE, em situação de flagrante total no celular de Daniel Vorcaro. Foto: Claudinei Coutinho/STF

O juiz máximo da eleição brasileira tem uma dívida documentada com o banqueiro do golpe. Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Kassio Nunes Marques será a autoridade que vai validar o resultado das urnas em 4 de outubro — a 13 dias do voto, com Lula e Flávio Bolsonaro em empate técnico. E é exatamente esse homem que a Polícia Federal descreve, nos arquivos do celular de Daniel Vorcaro, cercado por contratos, favores e presentes do maior escândalo financeiro da história do país.

Não é suspeita de militante. É o que a PF mandou para o STF.

O contrato de R$ 427 milhões

Os arquivos enviados pela Polícia Federal ao Supremo revelam um contrato de honorários de R$ 427 milhões destinado à “Turma do KN” — como os próprios interlocutores chamavam os advogados ligados ao ministro. O valor seria pago por Daniel Vorcaro em caso de vitória em processos relacionados ao Banco Master.

O escritório beneficiado era o Queiroga, Vieira, Queiroz & Ramos Advocacia, de Camilla Ramos e do marido dela, o desembargador Newton Ramos, do TRF-1 — contratado pelo Master para defender o banco em ações sobre indenizações ligadas ao antigo Instituto do Açúcar e do Álcool. O detalhe que transforma o contrato em escândalo: o pagamento dependia do resultado. Não eram honorários por trabalho. Eram honorários por vitória — e a vitória dependia dos votos de Nunes Marques na Segunda Turma do STF.

As mensagens mostram o cerco em ação. Camilla e Newton passavam a Vorcaro atualizações em tempo real sobre os votos do ministro. Nunes Marques chegou a se declarar impedido de julgar o caso — e voltou atrás. Quando votou, a comemoração foi imediata: “É um excelente voto do Min. Nunes Marques fazendo a distinção dos casos em que o título judicial trouxe os critérios da indenização”, escreveram.

R$ 427 milhões para a “Turma do KN” na chave de vitória. E o impedimento que foi e voltou, no meio do caminho.

O camarote, a Fórmula 1 e o Fasano

O mesmo celular guarda os mimos. Vorcaro bancou hospedagens, ingressos para a Fórmula 1 e camarotes na Sapucaí — para o ministro e para o desembargador Newton Ramos. “Fasano Itaim essa sexta a sábado para KN”, diz o auxiliar do banqueiro. “Ministro Kassio me pediu para ver se vocês conseguem para ele uma tarifa promocional no Fasano. Só uma diária. Entrando sexta e saindo sábado.”

E a lista do Carnaval: “Dani, turma do KN (Newton) me mandou aqui 6 nomes para colocar na lista do Camarote… posso encaminhar isso lá pra lista do Camarote, né?”

Seis nomes na lista do camarote. Uma diária no Fasano. Um ingresso na Fórmula 1. Tudo pago por um banqueiro corrupto, capitão de uma nau de fraudes bilionárias que precisava de votos na Segunda Turma do STF.

O pastor, o apartamento e os R$ 10 mil

E aí a mistura que fede, como a Frente Livre já havia denunciado na semana passada. As mensagens extraídas do mesmo celular ligam o ministro a um suposto encontro com uma garota de programa, R$ 10 mil pagos por Vorcaro, negociado por uma agenciadora identificada como Rayanna — e realizado, se aconteceu, num apartamento que pertencia ao então pastor Fabiano Zettel, da Igreja Batista da Lagoinha.

O diálogo que o celular guardou: “A minha amiga lá aquele dia! Deu certo né?”, pergunta Rayanna. “Ela disse que ficou com o kassio”, dispara. “Ela tá me cobrando aqui.” Vorcaro responde: “Me manda aqui”, “Dados e valor”.

Sexo, fé e corrupção. O triplex, meses depois, foi vendido ao empresário Ricardo Faria, o “rei do ovo” — cerca de um mês antes da liquidação do Master e da prisão de Vorcaro.

O juiz da eleição

Agora junte as peças e olhe para o calendário. Este é o homem que preside o TSE. Este é o homem que vai arbitrar a eleição de 2026. Este é o homem que prometeu, ao se declarar impedido no caso Moraes, “assegurar o equilíbrio nas eleições” — a 19 dias do voto, quando o celular de Vorcaro já apontava para ele.

O árbitro que deveria garantir que a partida é limpa é o mesmo cujo histórico com o banqueiro do golpe agora está nas mãos da PF. O mesmo que recebeu presentes de quem financiou o filme do golpe. O mesmo cuja “Turma” tinha R$ 427 milhões na chave de vitória. O mesmo cujo nome aparece num programa de R$ 10 mil alcovitado pelo pastor evangélico que é também o maior doador individual das campanhas neofascistas de Jair Bolsonaro e Tarcisio Freitas em 2022.

Kassio nega. A negação é o protocolo. Mas o protocolo não apaga mensagem — e mensagem, a PF tem de sobra.

A eleição de 2026 não é só Lula contra Flávio. É o Brasil contra um árbitro comprometido. E quando o árbitro tem dívida com um dos times, o resultado — qualquer que seja — já nasce manchado.

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